Num cenário crepuscular
estival, o falante mescla realismo e fantasia em seu discurso, diga-se de
passagem, destinado a encetar contrastes plausíveis entre uma jornada real e outra
contemplativa, a sós ou acompanhado, em contato com o familiar ou com o
desconhecido, por entre conteúdos visíveis ou ocultos, na expectativa de que essa
diversidade de experiências possa satisfazer às suas mais recônditas
aspirações.
Ao celebrar a beleza
e os mistérios do quotidiano, explorar a imaginação, refletir sobre a brevidade
do existir humano, em plena conexão com o mundo ao redor – seja por meio da
natureza, de sonhos de viagens, de encontros fortuitos ou de cenas triviais –,
Simic traz a uma condição de presença os súbitos elementos poéticos suscitados
pelas linhas de força do labor a que se dedica: a Lírica.
J.A.R. – H.C.
Charles Simic
(1938-2023)
Summer Evening
Lingered under a tree
chatting with a bird
I could hear, but
never did see,
While night fell and
lights came on
In a few small homes
along the street
Surprising a cat with
something in its mouth.
In the next block,
there was a travel agent
With a poster of
Venice in the window
I studied for a long
time in order to determine
Whether the boats on
the Grand Canal
Had moved any closer
to their destination.
Beyond the tracks
overgrown with weeds,
There was a small,
dimly lit carnival
With a
merry-go-round, a shooting gallery
And a young couple
trying their luck
With a rifle on a row
of marching ducks,
While I rambled on,
thinking, sooner or later
I’ll find my way
home, alone or in the company
Of some real or
imaginary companion
Tapping the sidewalk
with his white cane,
Or delivering Chinese
food in the neighborhood.
Entardecer de Verão
(Frederick Childe
Hassam: pintor norte-americano)
Entardecer de Verão
Detive-me sob uma
árvore em trela com um pássaro
Que conseguia ouvir,
mas não ver,
Enquanto a noite caía
e se acendiam as luzes
Em algumas pequenas
casas ao longo da rua,
Surpreendendo um gato
com algo na boca.
No quarteirão
seguinte, havia uma agência de viagens
Com um pôster de
Veneza à janela
Que eu examinei
longamente para saber
Se os barcos no Grand
Canal
Tinham-se aproximado um
pouco mais de seu destino.
Para além dos trilhos
cobertos por ervas daninhas
Havia uma pequena
feira mal iluminada,
Com um carrossel, um estande
de tiro
E um jovem casal tentando
a sua sorte
Com um rifle dirigido
a uma fila de patos em marcha,
Enquanto eu vagueava,
pensando: mais cedo ou mais tarde,
Hei de encontrar o
caminho para casa, sozinho
Ou em companhia de
algum colega real ou imaginário,
Batendo na calçada
com a sua bengala branca
Ou entregando comida
chinesa pela vizinhança.
Referência:
SIMIC, Charles. Summer
evening. In: __________. The lunatic: poems. New York, NY: Ecco Press (HarperCollins),
2015. p. 67.
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