Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 23 de novembro de 2025

Charles Simic - Entardecer de Verão

Num cenário crepuscular estival, o falante mescla realismo e fantasia em seu discurso, diga-se de passagem, destinado a encetar contrastes plausíveis entre uma jornada real e outra contemplativa, a sós ou acompanhado, em contato com o familiar ou com o desconhecido, por entre conteúdos visíveis ou ocultos, na expectativa de que essa diversidade de experiências possa satisfazer às suas mais recônditas aspirações.

 

Ao celebrar a beleza e os mistérios do quotidiano, explorar a imaginação, refletir sobre a brevidade do existir humano, em plena conexão com o mundo ao redor – seja por meio da natureza, de sonhos de viagens, de encontros fortuitos ou de cenas triviais –, Simic traz a uma condição de presença os súbitos elementos poéticos suscitados pelas linhas de força do labor a que se dedica: a Lírica.

 

J.A.R. – H.C.

 

Charles Simic

(1938-2023)

 

Summer Evening

 

Lingered under a tree chatting with a bird

I could hear, but never did see,

While night fell and lights came on

In a few small homes along the street

Surprising a cat with something in its mouth.

 

In the next block, there was a travel agent

With a poster of Venice in the window

I studied for a long time in order to determine

Whether the boats on the Grand Canal

Had moved any closer to their destination.

 

Beyond the tracks overgrown with weeds,

There was a small, dimly lit carnival

With a merry-go-round, a shooting gallery

And a young couple trying their luck

With a rifle on a row of marching ducks,

 

While I rambled on, thinking, sooner or later

I’ll find my way home, alone or in the company

Of some real or imaginary companion

Tapping the sidewalk with his white cane,

Or delivering Chinese food in the neighborhood.

 

Entardecer de Verão

(Frederick Childe Hassam: pintor norte-americano)

 

Entardecer de Verão

 

Detive-me sob uma árvore em trela com um pássaro

Que conseguia ouvir, mas não ver,

Enquanto a noite caía e se acendiam as luzes

Em algumas pequenas casas ao longo da rua,

Surpreendendo um gato com algo na boca.

 

No quarteirão seguinte, havia uma agência de viagens

Com um pôster de Veneza à janela

Que eu examinei longamente para saber

Se os barcos no Grand Canal

Tinham-se aproximado um pouco mais de seu destino.

 

Para além dos trilhos cobertos por ervas daninhas

Havia uma pequena feira mal iluminada,

Com um carrossel, um estande de tiro

E um jovem casal tentando a sua sorte

Com um rifle dirigido a uma fila de patos em marcha,

 

Enquanto eu vagueava, pensando: mais cedo ou mais tarde,

Hei de encontrar o caminho para casa, sozinho

Ou em companhia de algum colega real ou imaginário,

Batendo na calçada com a sua bengala branca

Ou entregando comida chinesa pela vizinhança.

 

Referência:

 

SIMIC, Charles. Summer evening. In: __________. The lunatic: poems. New York, NY: Ecco Press (HarperCollins), 2015. p. 67.

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