Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Wisława Szymborska - Assombro

Um tom de assombro e de perplexidade percorre todo o poema da poetisa polonesa, diante do milagre e do mistério de sua existência individual, desencadeadores de um rol de perguntas sem repostas sobre a sua própria condição de ser humano vivendo nesta região do universo, em dado tempo e lugar – e não em outra dentre as miríades de realidade alternativas, em regressão infinita.

 

A analogia com um cão que levanta a cabeça e perscruta os detalhes do espaço em que imerso, parece sugerir que a consciência que temos do mundo, apesar de sua vasta complexidade, é um elemento comum, compartilhado com os outros seres vivos, a incutir-nos essa capacidade inata de assombrar-nos perante o real, de contemplar o entorno com curiosidade e pasmo.

 

Eis aí parte do problema que impulsiona os debates filosóficos e teológicos há muitas décadas ou centúrias: o que há de fundamentalmente contingente no trabalho da Criação.

 

J.A.R. – H.C.

 

Wisława Szymborska

(1923-2012)

 

Zdumienie

 

Czemu w zanadto jednej osobie?

Tej a nie innej? I co tu robię?

W dzień co jest wtorkiem? W domu nie gnieździe?

W skórze nie łusce? Z twarzą nie liściem?

Dlaczego tylko raz osobiście?

Właśnie na ziemi? Przy małej gwieździe?

Po tylu erach nieobecności?

Za wszystkie czasy i wszystkie glony?

Za jamochłony i nieboskłony?

Akurat teraz? Do krwi i kości?

Sama u siebie z sobą? Czemu

nie obok ani sto mil stąd,

nie wczoraj ani sto lat temu

siedzę i patrzę w ciemny kąt

– tak jak z wzniesionym nagle łbem

patrzy warczące zwane psem?

 

Z: “Wszelki wypadek” (1972)

 

Contingência

(Anna Valieva: artista ucraniana)

 

Assombro

 

Por que tanto em uma só pessoa?

Nesta e não em outra? E que faço eu aqui?

Em um dia que é terça-feira? Em uma casa,

não em um ninho?

Em uma pele, não em escamas? Com um rosto,

não uma folha?

Por que apenas uma vez em pessoa?

Precisamente na terra? Junto a uma pequena estrela?

Depois de tantas eras de ausência?

Por todos os éons e todas as algas?

Por celenterados e firmamentos?

Exatamente agora? Em carne e osso?

A sós comigo mesma? Por que

não ao lado, nem a cem milhas de distância,

nem ontem, nem há cem anos

que estou sentada a olhar para um canto escuro

– tal qual de repente levanta a cabeça e espreita

um rosnador a que chamamos cão?

 

Em: “Todo o caso” (1972)

 

Referência:

 

SZYMBORSKA, Wisława. Zdumienie. In: __________. Nic dwa razy: wybór wierszy / Nothing twice: selected poems. Wybór i przeklad Stanisław Baránczak i Clare Cavanagh. Posłowie Stanisław Baránczak. Selected and translated from Polish to English by Stanisław Baránczak and Clare Cavanagh. Afterword by Stanisław Baránczak. Kraków, PL: Wydawnictwo Literackie, 1997. s./p. 148.

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