Um tom de assombro e
de perplexidade percorre todo o poema da poetisa polonesa, diante do milagre e do
mistério de sua existência individual, desencadeadores de um rol de perguntas
sem repostas sobre a sua própria condição de ser humano vivendo nesta região do
universo, em dado tempo e lugar – e não em outra dentre as miríades de realidade
alternativas, em regressão infinita.
A analogia com um cão
que levanta a cabeça e perscruta os detalhes do espaço em que imerso, parece sugerir
que a consciência que temos do mundo, apesar de sua vasta complexidade, é um
elemento comum, compartilhado com os outros seres vivos, a incutir-nos essa
capacidade inata de assombrar-nos perante o real, de contemplar o entorno com
curiosidade e pasmo.
Eis aí parte do problema
que impulsiona os debates filosóficos e teológicos há muitas décadas ou centúrias:
o que há de fundamentalmente contingente no trabalho da Criação.
J.A.R. – H.C.
Wisława Szymborska
(1923-2012)
Czemu w zanadto jednej osobie?
Tej a nie innej? I co tu robię?
W dzień co jest wtorkiem? W domu nie gnieździe?
W skórze nie łusce? Z twarzą nie liściem?
Dlaczego tylko raz osobiście?
Właśnie na ziemi? Przy małej gwieździe?
Po tylu erach nieobecności?
Za wszystkie czasy i wszystkie glony?
Za jamochłony i nieboskłony?
Akurat teraz? Do krwi i kości?
Sama u siebie z sobą? Czemu
nie obok ani sto mil stąd,
nie wczoraj ani sto lat temu
siedzę i patrzę w ciemny kąt
– tak jak z
wzniesionym nagle łbem
patrzy warczące zwane psem?
Z: “Wszelki wypadek”
(1972)
Contingência
(Anna Valieva:
artista ucraniana)
Assombro
Por que tanto em uma
só pessoa?
Nesta e não em outra?
E que faço eu aqui?
Em um dia que é
terça-feira? Em uma casa,
não em um ninho?
Em uma pele, não em escamas?
Com um rosto,
não uma folha?
Por que apenas uma
vez em pessoa?
Precisamente na
terra? Junto a uma pequena estrela?
Depois de tantas eras
de ausência?
Por todos os éons e todas
as algas?
Por celenterados e
firmamentos?
Exatamente agora? Em
carne e osso?
A sós comigo mesma? Por
que
não ao lado, nem a
cem milhas de distância,
nem ontem, nem há cem
anos
que estou sentada a
olhar para um canto escuro
– tal qual de repente
levanta a cabeça e espreita
um rosnador a que
chamamos cão?
Em: “Todo o caso”
(1972)
Referência:
SZYMBORSKA, Wisława. Zdumienie.
In: __________. Nic dwa razy: wybór wierszy / Nothing twice: selected
poems. Wybór i przeklad Stanisław Baránczak i Clare Cavanagh. Posłowie Stanisław
Baránczak. Selected and translated from Polish to English by Stanisław
Baránczak and Clare Cavanagh. Afterword by Stanisław Baránczak. Kraków, PL: Wydawnictwo
Literackie, 1997. s./p. 148.
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