Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 25 de outubro de 2025

Denise Levertov - A Vida em Meio à Guerra

Um libelo antiguerra: assim é que se pode absorver as linhas deste marcante poema de Levertov, a retratarem os efeitos perversos dos intermináveis conflitos armados – a morte e a mutilação de um contingente relevante dos tantos intervenientes –, pondo-os em contraste com o lado mais humano de nossa natureza, no qual prevalecem a bondade, a clemência e o poder para criar beleza.

 

Muito embora o poema em apreço tenha sido redigido pela autora ao calor da hora do conflito no Vietnã, continua ele muito atual e válido pelo que ora ocorre pelo mundo. Com efeito, esse pendor insano para se lançar a embates brutais está como que introjetado em nossas mentes e corpos, em tudo o que dizemos e fazemos, assoberbando-nos com sua pesada carga emocional e física. Perguntamo-nos angustiosamente: até quando?!

 

J.A.R. – H.C.

 

Denise Levertov

(1923-1997)

 

Life at War

 

The disasters numb within us

caught in the chest, rolling

in the brain like pebbles. The feeling

resembles lumps of raw dough

 

weighing down a child’s stomach on baking day.

Or Rilke said it, ‘My heart...

Could I say of it, it overflows

with bitterness... but no, as though

 

its contents were simply balled into

formless lumps, thus

do I carry it about.’

The same war

 

continues.

We have breathed the grits of it in, all our lives,

our lungs are pocked with it,

the mucous membrane of our dreams

coated with it, the imagination

filmed over with the gray filth of it:

 

the knowledge that humankind,

 

delicate Man, whose flesh

responds to a caress, whose eyes

are flowers that perceive the stars,

 

whose music excels the music of birds,

whose laughter matches the laughter of dogs,

whose understanding manifests designs

fairer than the spider’s most intricate web,

 

still turns without surprise, with mere regret

to the scheduled breaking open of breasts whose milk

runs out over the entrails of still-alive babies,

transformation of witnessing eyes to pulp-fragments,

implosion of skinned penises into carcass-gulleys.

 

We are the humans, men who can make;

whose language imagines mercy,

lovingkindness; we have believed one another

mirrored forms of a God we felt as good –

 

who do these acts, who convince ourselves

it is necessary; these acts are done

to our own flesh; burned human flesh

is smelling in Viet Nam as I write.

 

Yes, this is the knowledge that jostles for space

in our bodies along with all we

go on knowing of joy, of love;

 

our nerve filaments twitch with its presence

day and night,

nothing we say has the not the husky phlegm of it in the saying,

nothing we do has the quickness, the sureness,

the deep intelligence living at peace would have.

 

In: “The Sorrow Dance” (1967)

 

Vietnã II

(Detalhe)

(Leon Golub: pintor norte-americano)

 

A Vida em Meio à Guerra

 

Os desastres entorpecem dentro de nós

presos ao peito, rolando

no cérebro como seixos. A sensação

assemelha-se a grumos de massa crua

 

pesando no estômago de uma criança em dia de fornada.

Ou como Rilke o expressou: “Meu coração...

poderia eu dizer, está transbordando

de amargura... mas não; é como se

 

o seu conteúdo houvesse simplesmente se adensado

num grumo amorfo, e é assim que

eu o carrego dentro de mim”.

A guerra como tal

 

teima em prosseguir.

Respiramos os seus grânulos ao longo de todas as nossas vidas,

motivo pelo qual os nossos pulmões resultam crivados,

a membrana mucosa de nossos sonhos

recoberta, a imaginação

toldada pela sua sujeira cinzenta:

 

temos ciência de que a humanidade,

 

o frágil Ser Humano, cuja carne

responde a uma carícia, cujos olhos

são flores que percebem as estrelas,

 

cuja música supera a música dos pássaros,

cujo riso se equipara ao riso dos cães,

cujo intelecto concebe projetos

mais belos do que a mais intrincada teia de aranha,

 

ainda se volta sem surpresa, com mero pesar,

ao deliberado estourar de seios cujo leite

escorre sobre as entranhas de bebês ainda vivos,

à redução de olhos testemunhantes a fragmentos pulposos,

à implosão de pênis despelados em barrancos de carcaças.

 

Somos os humanos, seres dotados do poder para criar;

cuja linguagem bem apreende o predicado da clemência,

da benevolência; acreditamos, com reciprocidade, que somos

formas espelhadas de um Deus que sentimos como bom –

 

mas que perpetramos tais atos, convencidos

da sua necessidade; atos esses que são levados a efeito

em nossa própria carne; carne humana queimada no Vietnã,

a exalar o seu miasma ao registro destas linhas.

 

Sim, esse é o conhecimento que luta por espaço

em nossos corpos, junto com tudo o que

continuamos a saber acerca da alegria, do amor;

 

nossos filamentos nervosos crispam-se ante a sua presença

dia e noite,

nada do que dizemos está livre de seu muco rouco ao dizê-lo,

nada do que fazemos tem a prontidão, a segurança,

a profunda inteligência que teria a vida usufruída em paz.

 

Em: “A Dança da Dor” (1967)

 

Referência:

 

LEVERTOV, Denise. Life at war. In: __________. Selected poems. With a preface by Robert Creeley. Edited and with an afterword by Paul A. Lacey. New York, NY: New Directions, 2002. p. 64-65.

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