Um libelo antiguerra:
assim é que se pode absorver as linhas deste marcante poema de Levertov, a
retratarem os efeitos perversos dos intermináveis conflitos armados – a morte e
a mutilação de um contingente relevante dos tantos intervenientes –, pondo-os
em contraste com o lado mais humano de nossa natureza, no qual prevalecem a bondade,
a clemência e o poder para criar beleza.
Muito embora o poema
em apreço tenha sido redigido pela autora ao calor da hora do conflito no Vietnã,
continua ele muito atual e válido pelo que ora ocorre pelo mundo. Com efeito,
esse pendor insano para se lançar a embates brutais está como que introjetado em
nossas mentes e corpos, em tudo o que dizemos e fazemos, assoberbando-nos com
sua pesada carga emocional e física. Perguntamo-nos angustiosamente: até
quando?!
J.A.R. – H.C.
Denise Levertov
(1923-1997)
Life at War
The disasters numb
within us
caught in the chest,
rolling
in the brain like
pebbles. The feeling
resembles lumps of
raw dough
weighing down a
child’s stomach on baking day.
Or Rilke said it, ‘My
heart...
Could I say of it, it
overflows
with bitterness...
but no, as though
its contents were
simply balled into
formless lumps, thus
do I carry it about.’
The same war
continues.
We have breathed the
grits of it in, all our lives,
our lungs are pocked
with it,
the mucous membrane
of our dreams
coated with it, the
imagination
filmed over with the
gray filth of it:
the knowledge that
humankind,
delicate Man, whose
flesh
responds to a caress,
whose eyes
are flowers that
perceive the stars,
whose music excels
the music of birds,
whose laughter
matches the laughter of dogs,
whose understanding
manifests designs
fairer than the
spider’s most intricate web,
still turns without
surprise, with mere regret
to the scheduled
breaking open of breasts whose milk
runs out over the
entrails of still-alive babies,
transformation of
witnessing eyes to pulp-fragments,
implosion of skinned
penises into carcass-gulleys.
We are the humans,
men who can make;
whose language
imagines mercy,
lovingkindness; we have believed
one another
mirrored forms of a
God we felt as good –
who do these acts,
who convince ourselves
it is necessary;
these acts are done
to our own flesh;
burned human flesh
is smelling in Viet
Nam as I write.
Yes, this is the
knowledge that jostles for space
in our bodies along
with all we
go on knowing of joy,
of love;
our nerve filaments
twitch with its presence
day and night,
nothing we say has
the not the husky phlegm of it in the saying,
nothing we do has the
quickness, the sureness,
the deep intelligence
living at peace would have.
In: “The Sorrow
Dance” (1967)
Vietnã II
(Detalhe)
(Leon Golub: pintor
norte-americano)
A Vida em Meio à
Guerra
Os desastres
entorpecem dentro de nós
presos ao peito, rolando
no cérebro como
seixos. A sensação
assemelha-se a grumos
de massa crua
pesando no estômago
de uma criança em dia de fornada.
Ou como Rilke o
expressou: “Meu coração...
poderia eu dizer, está
transbordando
de amargura... mas
não; é como se
o seu conteúdo houvesse
simplesmente se adensado
num grumo amorfo, e é
assim que
eu o carrego dentro
de mim”.
A guerra como tal
teima em prosseguir.
Respiramos os seus
grânulos ao longo de todas as nossas vidas,
motivo pelo qual os
nossos pulmões resultam crivados,
a membrana mucosa de
nossos sonhos
recoberta, a
imaginação
toldada pela sua
sujeira cinzenta:
temos ciência de que a humanidade,
o frágil Ser Humano,
cuja carne
responde a uma
carícia, cujos olhos
são flores que percebem
as estrelas,
cuja música supera a
música dos pássaros,
cujo riso se equipara
ao riso dos cães,
cujo intelecto concebe
projetos
mais belos do que a
mais intrincada teia de aranha,
ainda se volta sem
surpresa, com mero pesar,
ao deliberado
estourar de seios cujo leite
escorre sobre as
entranhas de bebês ainda vivos,
à redução de olhos
testemunhantes a fragmentos pulposos,
à implosão de pênis
despelados em barrancos de carcaças.
Somos os humanos,
seres dotados do poder para criar;
cuja linguagem bem apreende
o predicado da clemência,
da benevolência;
acreditamos, com reciprocidade, que somos
formas espelhadas de
um Deus que sentimos como bom –
mas que perpetramos
tais atos, convencidos
da sua necessidade;
atos esses que são levados a efeito
em nossa própria
carne; carne humana queimada no Vietnã,
a exalar o seu miasma
ao registro destas linhas.
Sim, esse é o
conhecimento que luta por espaço
em nossos corpos,
junto com tudo o que
continuamos a saber
acerca da alegria, do amor;
nossos filamentos
nervosos crispam-se ante a sua presença
dia e noite,
nada do que dizemos está
livre de seu muco rouco ao dizê-lo,
nada do que fazemos
tem a prontidão, a segurança,
a profunda
inteligência que teria a vida usufruída em paz.
Em: “A Dança da Dor”
(1967)
Referência:
LEVERTOV, Denise.
Life at war. In: __________. Selected poems. With a preface by Robert
Creeley. Edited and with an afterword by Paul A. Lacey. New York, NY: New
Directions, 2002. p. 64-65.
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