Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Chinua Achebe - Uma Mãe em um Campo de Refugiados

Achebe retrata uma cena comovente num campo de refugiados, certamente em algum lugar do continente africano, onde uma mãe luta para manter a sua ternura e dignidade em meio ao desespero e ao sofrimento, mantendo-se resiliente e amorosa em relação ao filho moribundo, mesmo em condições extremas – insalubres para se dizer o mínimo.

 

Persiste o amor maternal pelo filho – mesmo ciente de que são escassas as chances de ele sobreviver ao caos e à miséria que se disseminam no assentamento –, circunstância que, aos olhos do falante, se convola numa espécie de ritual pré-funerário pela criança cujas forças se exaurem gradualmente em seus braços.

 

Enfermidades, odores nauseabundos, desnutrição e condições higiênicas precárias, diga-se de passagem, configuram a mescla fatal que leva à morte milhões de pessoas ao redor deste mundo tão desigual, mundo que, a bem da verdade, despende bilhões de dólares para fomentar guerras intermináveis, gerando lucros incalculáveis para a indústria bélico-militar, mas que não tem olhares resolutos para erradicar da pobreza o enorme contingente humano assolado por tragédias desde logo contornáveis.

 

J.A.R. – H.C.

 

Chinua Achebe

(1930-2013)

 

A Mother in a Refugee Camp

 

No Madonna and Child could touch

Her tenderness for a son

She soon would have to forget...

The air was heavy with odors of diarrhea,

Of unwashed children with washed-out ribs

And dried-up bottoms waddling in labored steps

Behind blown-empty bellies. Other mothers there

Had long ceased to care, but not this one:

She held a ghost-smile between her teeth,

And in her eyes the memory

Of a mother’s pride... She had bathed him

And rubbed him down with bare palms.

She took from their bundle of possessions

A broken comb and combed

The rust-colored hair left on his skull

And then – humming in her eyes – began carefully

to part it.

In their former life this was perhaps

A little daily act of no consequence

Before his breakfast and school; now she did it

Like putting flowers on a tiny grave.

 

Momento de ternura

(Henry C. Porter: pintor norte-americano)

 

Uma Mãe em um Campo de Refugiados

 

Nenhuma Madona com o Menino poderia igualar

A ternura manifestada pelo filho

Que ela em breve teria que esquecer...

O ar estava pesado com odores de diarreia,

De crianças por lavar com costelas macilentas

E nádegas ressequidas, cambaleando a passos difíceis

Por trás de barrigas túrgidas e vazias. Outras mães ali

Há muito deixaram de se importar, mas não esta:

Ela mantinha um sorriso fantasmagórico entre os dentes,

E em seus olhos a memória

Do orgulho de uma mãe... Ela o banhara

E o massageara com as palmas desnudas.

Com um pente quebrado que retirou

De sua trouxa de pertences, ela penteou

Os cabelos cor de ferrugem que restavam em seu crânio

E então – com um cântico nos olhos – começou a parti-los

cuidadosamente.

Em sua vida anterior, isso talvez fosse

um pequeno ato diário sem consequências

antes do café da manhã e da escola; agora ela o fazia

como se colocasse flores em um pequeno túmulo.

 

Referência:

 

ACHEBE, Chinua. A mother in a refugee camp. In: __________. Collected poems. New York, NY: Anchor Books, aug. 2004. p. 16.

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