Achebe retrata uma
cena comovente num campo de refugiados, certamente em algum lugar do continente
africano, onde uma mãe luta para manter a sua ternura e dignidade em meio ao
desespero e ao sofrimento, mantendo-se resiliente e amorosa em relação ao filho
moribundo, mesmo em condições extremas – insalubres para se dizer o mínimo.
Persiste o amor
maternal pelo filho – mesmo ciente de que são escassas as chances de ele sobreviver
ao caos e à miséria que se disseminam no assentamento –, circunstância que, aos
olhos do falante, se convola numa espécie de ritual pré-funerário pela criança
cujas forças se exaurem gradualmente em seus braços.
Enfermidades, odores
nauseabundos, desnutrição e condições higiênicas precárias, diga-se de
passagem, configuram a mescla fatal que leva à morte milhões de pessoas ao
redor deste mundo tão desigual, mundo que, a bem da verdade, despende bilhões
de dólares para fomentar guerras intermináveis, gerando lucros incalculáveis para
a indústria bélico-militar, mas que não tem olhares resolutos para erradicar da
pobreza o enorme contingente humano assolado por tragédias desde logo contornáveis.
J.A.R. – H.C.
Chinua Achebe
(1930-2013)
No Madonna and Child could touch
Her tenderness for a son
She soon would have to forget...
The air was heavy with odors of diarrhea,
Of unwashed children with washed-out ribs
And dried-up bottoms waddling in labored steps
Behind blown-empty bellies. Other mothers there
Had long ceased to care, but not this one:
She held a ghost-smile between her teeth,
And in her eyes the memory
Of a mother’s pride... She had bathed him
And rubbed him down with bare palms.
She took from their bundle of possessions
A broken comb and combed
The rust-colored hair left on his skull
And then – humming in her eyes – began carefully
to part it.
In their former life this was perhaps
A little daily act of no consequence
Before his breakfast and school; now she did it
Like putting flowers on a tiny grave.
Momento de ternura
(Henry C. Porter: pintor
norte-americano)
Uma Mãe em um Campo
de Refugiados
Nenhuma Madona com o
Menino poderia igualar
A ternura manifestada
pelo filho
Que ela em breve
teria que esquecer...
O ar estava pesado
com odores de diarreia,
De crianças por lavar
com costelas macilentas
E nádegas ressequidas,
cambaleando a passos difíceis
Por trás de barrigas túrgidas
e vazias. Outras mães ali
Há muito deixaram de
se importar, mas não esta:
Ela mantinha um
sorriso fantasmagórico entre os dentes,
E em seus olhos a
memória
Do orgulho de uma
mãe... Ela o banhara
E o massageara com as
palmas desnudas.
Com um pente quebrado
que retirou
De sua trouxa de
pertences, ela penteou
Os cabelos cor de
ferrugem que restavam em seu crânio
E então – com um
cântico nos olhos – começou a parti-los
cuidadosamente.
Em sua vida anterior,
isso talvez fosse
um pequeno ato diário
sem consequências
antes do café da
manhã e da escola; agora ela o fazia
como se colocasse
flores em um pequeno túmulo.
Referência:
ACHEBE, Chinua. A mother
in a refugee camp. In: __________. Collected poems. New York, NY: Anchor
Books, aug. 2004. p. 16.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário