Vinicius vê nos parques
algo que, submetido à escala da temporalidade – tal-qualmente se poderia dizer
da efemeridade da vida humana –, teria o poder de magnetizar, anestesiar, petrificar,
eternizar, dada a ampla gama de sentimentos e de sensações que evoca: paz, tranquilidade,
admiração, até mesmo nostalgia e melancolia.
O poeta, de fato,
busca enfatizar a tendência de constância e de imutabilidade dos parques
urbanos diante das frequentes transformações ao seu redor. Neles, as mudanças
promovidas pela natureza ocorrem de modo sutil, para que nada perturbe o silêncio
e o remanso dessas áreas públicas, tão propícias ao gozo de momentos de contemplação.
J.A.R. – H.C.
Vinicius de Moraes
(1913-1980)
O tempo nos parques
O tempo nos parques é
íntimo, inadiável, imparticipante,
imarcescível.
Medita nas altas
frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra
intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques
cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas,
isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso
muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques
gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos,
da cor que se move ao longe.
É alto, antigo,
presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o
prenúncio de uma aragem
A agonia de uma
folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no
espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques
envolve de redomas invisíveis
Os que se amam;
eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia
os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes,
nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na
cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a
pequenina cutia surpreende
A imobilidade
anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel,
elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos
parques.
Chuva no parque
(Artem Grunyka: artista
ucraniano)
Referência:
MORAES, Vinicius. O
tempo nos parques. In: __________. Antologia poética. 1. ed., 14. reimp.
São Paulo, SP: Companhia das Letras, dez. 2000. p. 160.
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