Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Vinicius de Moraes - O tempo nos parques

Vinicius vê nos parques algo que, submetido à escala da temporalidade – tal-qualmente se poderia dizer da efemeridade da vida humana –, teria o poder de magnetizar, anestesiar, petrificar, eternizar, dada a ampla gama de sentimentos e de sensações que evoca: paz, tranquilidade, admiração, até mesmo nostalgia e melancolia.

 

O poeta, de fato, busca enfatizar a tendência de constância e de imutabilidade dos parques urbanos diante das frequentes transformações ao seu redor. Neles, as mudanças promovidas pela natureza ocorrem de modo sutil, para que nada perturbe o silêncio e o remanso dessas áreas públicas, tão propícias ao gozo de momentos de contemplação.

 

J.A.R. – H.C.

 

Vinicius de Moraes

(1913-1980)

 

O tempo nos parques

 

O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante,

imarcescível.

Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira

Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.

O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos

Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques

Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.

O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros

Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.

É alto, antigo, presciente o tempo nos parques

É incorruptível; o prenúncio de uma aragem

A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor

Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.

O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis

Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica

Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.

Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja

Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura

Nos parques; e a pequenina cutia surpreende

A imobilidade anterior desse tempo no mundo

Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo

É o tempo nos parques.

 

Chuva no parque

(Artem Grunyka: artista ucraniano)

 

Referência:

 

MORAES, Vinicius. O tempo nos parques. In: __________. Antologia poética. 1. ed., 14. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, dez. 2000. p. 160.

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