Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Antonio Cicero - Huis Clos

Somos este misto contraditório de elementos vulgares e sublimes, de constituintes crus e primários da vida – como “fezes e urina, sangue e dor” – e aspirações profundas – a evolar uma conjunção vaporosa de “lendas, mares, amores, mortes serenas”: em suma, vagamos entre a mais terrena realidade e as nossas expectativas de glória, serenidade e experiências mil, quiçá pautadas pelo seu lado mais romântico.

 

Encenando as suas paixões e os seus dramas nesse palco que é a vida, e diante da impossibilidade de encontrar uma escapatória digna para tal existência viciante, o homem acaba por considerar as opções de saídas incomuns ou forçadas, descartando os apelos convencionais.

 

Mas se não recorre de imediato ao suicídio é porque aspira – supostamente – por algo mais transcendente, a despeito do báratro em que enredado, ou então por medo do que desconhece acerca do que possa suceder depois da morte – aliás, tantas vezes evocado nas visões apocalípticas das grandes obras de arte, v.g., de Dante, Goya ou Bosch.

 

E então segue o homem – não se sabe até quando – a cogitar por “saídas válidas”, sem encontrá-las, procurando esquivar-se às labaredas desse inferno que “são os outros”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Antonio Cicero

(1945-2024)

 

Huis Clos (*)

 

Da vida não se sai pela porta:

só pela janela. Não se sai

bem da vida como não se sai

bem de paixões jogatinas drogas.

E é porque sabemos disso e não

por temer viver depois da morte

em plagas de Dante Goya ou Bosch

(essas, doce príncipe, cá estão)

que tão raramente nos matamos

a tempo: por não considerarmos

as saídas disponíveis dignas

de nós, que em meio a fezes e urina

sangue e dor, nascemos para lendas

mares, amores, mortes serenas.

 

Huis Clos

(Linda Le Kinff: artista francesa)

 

Nota:

 

(*). Huis Clos: algo como “A Portas Fechadas”, em português. Trata-se do título atribuído a uma de suas peças pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), o qual, em português do Brasil, foi traduzido como “Entre Quatro Paredes” e, em inglês, como “No Exit” (“Sem Saída”) – o que esclarece, em boa medida, o sentido último dos versos de Antonio Cicero.

 

Referência:

 

CICERO, Antonio. Huis clos. In: FERRAZ, Eucanaã (Organização e Prefácio). Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2005. p. 21.

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