Somos este misto
contraditório de elementos vulgares e sublimes, de constituintes crus e primários
da vida – como “fezes e urina, sangue e dor” – e aspirações profundas – a
evolar uma conjunção vaporosa de “lendas, mares, amores, mortes serenas”: em
suma, vagamos entre a mais terrena realidade e as nossas expectativas de
glória, serenidade e experiências mil, quiçá pautadas pelo seu lado mais romântico.
Encenando as suas
paixões e os seus dramas nesse palco que é a vida, e diante da impossibilidade
de encontrar uma escapatória digna para tal existência viciante, o homem acaba
por considerar as opções de saídas incomuns ou forçadas, descartando os apelos
convencionais.
Mas se não recorre de
imediato ao suicídio é porque aspira – supostamente – por algo mais
transcendente, a despeito do báratro em que enredado, ou então por medo do que
desconhece acerca do que possa suceder depois da morte – aliás, tantas vezes
evocado nas visões apocalípticas das grandes obras de arte, v.g., de Dante,
Goya ou Bosch.
E então segue o homem
– não se sabe até quando – a cogitar por “saídas válidas”, sem encontrá-las,
procurando esquivar-se às labaredas desse inferno que “são os outros”.
J.A.R. – H.C.
Antonio Cicero
(1945-2024)
Huis Clos (*)
Da vida não se sai
pela porta:
só pela janela. Não
se sai
bem da vida como não
se sai
bem de paixões
jogatinas drogas.
E é porque sabemos
disso e não
por temer viver
depois da morte
em plagas de Dante
Goya ou Bosch
(essas, doce
príncipe, cá estão)
que tão raramente nos
matamos
a tempo: por não
considerarmos
as saídas disponíveis
dignas
de nós, que em meio a
fezes e urina
sangue e dor,
nascemos para lendas
mares, amores, mortes
serenas.
Huis Clos
(Linda Le Kinff: artista
francesa)
Nota:
(*). Huis Clos: algo como “A Portas Fechadas”, em português. Trata-se do
título atribuído a uma de suas peças pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre
(1905-1980), o qual, em português do Brasil, foi traduzido como “Entre Quatro
Paredes” e, em inglês, como “No Exit” (“Sem Saída”) – o que esclarece, em boa
medida, o sentido último dos versos de Antonio Cicero.
Referência:
CICERO, Antonio. Huis clos. In: FERRAZ, Eucanaã (Organização e Prefácio). Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2005. p. 21.
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