A lucidez pela qual
aspira o poeta configura-se tanto como uma maldição, quanto como um caminho até
a liberdade, porém uma “liberdade sob palavra”, isto é, sempre sujeita à linguagem
e à construção de significados atrelados à realidade humana, fluindo pelas
fronteiras entre o real e o imaginário, o ser e o não-ser, a luz e a escuridão.
Tais são os nossos
dilemas existenciais enquanto seres criadores e, para aqueles que se dedicam ao
trato com a palavra, as tortuosas veredas pelas quais hão de passar até que
cheguem à mais autêntica autoexpressão, à autoconsciência: trata-se, como se
vê, de uma poderosa ferramenta a modelar nossa identidade, nossas relações,
nossa visão de mundo.
J.A.R. – H.C.
Octavio Paz
(1914-1998)
Libertad bajo palabra
Allá, donde terminan
las fronteras, los caminos se borran. Donde empieza el silencio. Avanzo
lentamente y pueblo la noche de estrellas, de palabras, de la respiración de un
agua remota que me espera donde comienza el alba.
Invento la víspera,
la noche, el día siguiente que se levanta em su lecho de piedra y recorre con
ojos límpidos un mundo penosamente soñado. Sostengo al árbol, a la nube, a la
roca, al mar, presentimiento de dicha, invenciones que desfallecen y vacilan
frente a la luz que disgrega.
Invento la quemadura
y el aullido, la masturbación en las letrinas, las visiones en el muladar, la
prisión, el piojo y el chancro, la pelea por la sopa, la delación, los animales
viscosos, los contactos innobles, los interrogatorios nocturnos, el examen de
conciencia, el juez, la víctima, el testigo. Tú eres esos tres. ¿A quién apelar
ahora y con qué argucias destruir al que te acusa? Inútiles los memoriales, los
ayes y los alegatos. Inútil tocar a puertas condenadas. No hay puertas, hay espejos.
Inútil cerrar los ojos o volver entre los hombres: esta lucidez ya no me
abandona. Romperé los espejos, haré trizas mi imagen, que cada mañana rehace
piadosamente mi cómplice, mi delator. La soledad de la conciencia y la
conciencia de la soledad, el día a pan y agua, la noche sin agua. Sequía, campo
arrasado por un sol sin párpados, ojo atroz, oh conciencia, presente puro donde
pasado y porvenir arden sin fulgor ni esperanza. Todo desemboca en esta
eternidad que no desemboca.
Allá, donde los
caminos se borran, donde acaba el silencio, invento la desesperación, la mente
que me concibe, la mano que me dibuja, el ojo que me descubre. Invento al amigo
que me inventa, mi semejante; y a la mujer, mi contrario: torre que corono de
banderas, muralla que escalan mis espumas, ciudad devastada que renace
lentamente bajo la dominación de mis ojos.
Contra el silencio y
el bullicio invento la Palabra, libertad que se inventa y me inventa cada día.
Liberdade
(Anna
Nadolynna-Harris: artista ucraniana)
Liberdade sob palavra
Ali, onde terminam as
fronteiras, os caminhos se apagam. Onde começa o silêncio. Avanço lentamente e
povoo a noite com estrelas, com palavras, com a respiração de uma água remota
que me espera onde começa o romper da aurora.
Invento a véspera, a
noite, o dia seguinte que se levanta em seu leito de pedra e, com olhos
límpidos, percorre um mundo penosamente sonhado. Sustento a árvore, a nuvem, a
rocha, o mar, um pressentimento de felicidade, invenções que descoram e vacilam
diante da luz que se desintegra.
E então a serra
árida, o casario de adobe, a minuciosa realidade de um charco e de uma aroeira estólida,
de alguns meninos idiotas que me apedrejam, de um povo rancoroso que me denuncia.
Invento o terror, a esperança, o meio-dia – pai dos delírios solares, das
falácias espelhantes, das mulheres que castram os seus amantes de uma hora.
Invento a queimadura
e o uivo, a masturbação nas latrinas, as visões no monturo, a prisão, o piolho
e o cancro, a contenda pela sopa, a delação, os animais viscosos, os contatos
ignóbeis, os interrogatórios noturnos, o exame de consciência, o juiz, a
vítima, a testemunha. Tu és esses três. A quem apelar agora e com que argúcias destruir
aquele que te acusa? Inúteis os memoriais, os queixumes, as alegações. Inútil
bater às portas dos condenados. Não há portas, há espelhos. Inútil fechar os
olhos ou voltar entre os homens: essa lucidez já não me abandona. Destruirei os
espelhos, estilhaçarei a minha imagem que a cada manhã o meu cúmplice, o meu
delator, refaz piedosamente. A solidão da consciência e a consciência da
solidão, o dia a pão e água, a noite sem água. Seca, campo arrasado por um sol
sem pálpebras, olho atroz, oh consciência, puro presente onde o passado e o porvir
ardem sem fulgor nem esperança. Tudo desemboca numa eternidade que não
desemboca.
Ali, onde os caminhos
se apagam, onde acaba o silêncio, invento o desespero, a mente que me concebe,
a mão que me desenha, o olho que me descobre. Invento o amigo que me inventa,
meu semelhante; e a mulher, o meu oposto: torre que coroo com estandartes,
muralha que minhas espumas escalam, cidade devastada que renasce lentamente sob
o domínio dos meus olhos.
Contra o silêncio e o
bulício, invento a Palavra, liberdade que se inventa e que me inventa a cada
dia.
Referência:
PAZ, Octavio. Prólogo.
In: __________. Libertad bajo palabra. México, D.F.: Fondo de Cultura
Económica (F.C.E.), 1974. p. 9-10.
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