Estabelecendo, desde
o seu início, uma tensão entre o que o poema “diz” e o que realmente “é”, num
discurso críptico e até mesmo paradoxal, o poeta deslinda o poema como uma
entidade que se transforma constantemente, distanciando-se de sua própria
essência original, explico-me melhor, parecendo sempre estar num permanente
estado de devir.
Por trás dessa forma
de ver, está o questionamento acerca da capacidade de ser e de significar do
poema, ou em última instância, da própria insuficiência das palavras para
capturar a realidade em toda a sua amplitude, as suas verdades, os elementos que
a integram.
Trata-se, por
conseguinte, de uma reflexão metapoética, com um quê de investigação ontológica,
por meio da qual se sugere que a forma de expressão poética tem lá os seus
limites, eis que uma arquitetura ilusória, efêmera e impotente (valore-se, por
exemplo, a cunhagem dos dois derradeiros versos-vocábulos do poema, a saber, “poemorto”,
“poemente”!), presa à inércia da palavra, à rigidez da linguagem convencional,
o que a leva a comportar certa inadequação e desconexão temporal, debilitando
assim a sua própria vitalidade.
J.A.R. – H.C.
Álvaro Alves de Faria
(n. 1942)
Poema 27
O poema diz o que não
sabe
e se transforma no
que não é
e nunca será.
O poema esquece e se
fere
nas palavras antigas
de um dicionário
morto.
O poema exclama na
voz do poeta
versos que não cabem
numa estrofe
canta o canto que não
existe mais
distante de seu
tempo.
O poema morre no
poema
morta poesia
na paisagem do nada
onde se guarda a
memória
o que sempre deixa de
ser.
O poema não é
por mais que queira
ser
não é
apenas pensa existir
no espaço exíguo
da palavra.
O poema não interfere
o poema cala
o poema não sente
o poema que se finge
o poemorto
o poemente.
A busca
(Abdul Ghani Hamid: artista
singapurense)
Referência:
FARIA, Álvaro Alves de. Poema 27. In: __________. Babel: 50 poemas inspirados na escultura “Torre de Babel”, de Valdir Rocha. São Paulo, SP: Escrituras Editora, 2007. p. 82.
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