Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Álvaro Alves de Faria - Poema 27

Estabelecendo, desde o seu início, uma tensão entre o que o poema “diz” e o que realmente “é”, num discurso críptico e até mesmo paradoxal, o poeta deslinda o poema como uma entidade que se transforma constantemente, distanciando-se de sua própria essência original, explico-me melhor, parecendo sempre estar num permanente estado de devir.

 

Por trás dessa forma de ver, está o questionamento acerca da capacidade de ser e de significar do poema, ou em última instância, da própria insuficiência das palavras para capturar a realidade em toda a sua amplitude, as suas verdades, os elementos que a integram.

 

Trata-se, por conseguinte, de uma reflexão metapoética, com um quê de investigação ontológica, por meio da qual se sugere que a forma de expressão poética tem lá os seus limites, eis que uma arquitetura ilusória, efêmera e impotente (valore-se, por exemplo, a cunhagem dos dois derradeiros versos-vocábulos do poema, a saber, “poemorto”, “poemente”!), presa à inércia da palavra, à rigidez da linguagem convencional, o que a leva a comportar certa inadequação e desconexão temporal, debilitando assim a sua própria vitalidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Álvaro Alves de Faria

(n. 1942)

 

Poema 27

 

O poema diz o que não sabe

e se transforma no que não é

e nunca será.

 

O poema esquece e se fere

nas palavras antigas

de um dicionário morto.

 

O poema exclama na voz do poeta

versos que não cabem numa estrofe

canta o canto que não existe mais

distante de seu tempo.

 

O poema morre no poema

morta poesia

na paisagem do nada

onde se guarda a memória

o que sempre deixa de ser.

 

O poema não é

por mais que queira ser

não é

apenas pensa existir

no espaço exíguo

da palavra.

 

O poema não interfere

o poema cala

o poema não sente

o poema que se finge

o poemorto

o poemente.

 

A busca

(Abdul Ghani Hamid: artista singapurense)

 

Referência:

 

FARIA, Álvaro Alves de. Poema 27. In: __________. Babel: 50 poemas inspirados na escultura “Torre de Babel”, de Valdir Rocha. São Paulo, SP: Escrituras Editora, 2007. p. 82.

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