Extraídos de uma
coletânea de poemas de Miguel Silva, a qual, toda ela, é uma prodigiosa
sucessão de écfrases atinentes a grandes obras da sétima arte – o cinema –,
estes versos nada mais são do que uma imersão nos temas existenciais que
caracterizam a quase totalidade dos trabalhos do grande diretor sueco: a mortalidade,
a incomunicação, a crise da fé e a infrutuosa busca por significados.
Por trás dos vestígios de vulnerabilidade e de pessimismo instilados ao correr da pena, vibram no
íntimo do falante as cordas de um desejo por estar equivocado quanto aos
vislumbres do vazio que reverbera pelo efeito das estreitezas da condição
humana: deseja ele, como o professor Isak Borg na película de Bergman, um sinal
de redenção, uma prova de bondade, beleza ou amor que seja verdadeira e
duradoura. Que essa esperança tenha força para perdurar!
J.A.R. – H.C.
José Miguel Silva
(n. 1969)
Morangos Silvestres -
Ingmar Bergman (1957)
Para a Berta Neto
Um ser humano é um
combinado de egoísmo,
sofrimento e
necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove
ninguém. A beleza
é um acidente banal e
pressupõe a morte;
muitas vezes se
rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser
assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe
bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a
vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de
criada de servir nos aposentos
da ganância. Não
comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim,
comove. Mas é tão débil
e tão rara que
ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo
que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu
juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a
música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao
acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que
bem outra poderia ser
a vida. Tudo se
mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa
estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber.
E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me
demonstrasse que não tenho razão.
Cartaz do Filme
“Morangos
Silvestres”, de 1957
Referência:
MIGUEL SILVA, José. Morangos
Silvestres - Ingmar Bergman (1957). In: __________. Movimentos no escuro.
Lisboa, PT: Relógio d’Água, nov. 2005. p. 31.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário