Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 24 de setembro de 2023

José Miguel Silva: Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)

Extraídos de uma coletânea de poemas de Miguel Silva, a qual, toda ela, é uma prodigiosa sucessão de écfrases atinentes a grandes obras da sétima arte – o cinema –, estes versos nada mais são do que uma imersão nos temas existenciais que caracterizam a quase totalidade dos trabalhos do grande diretor sueco: a mortalidade, a incomunicação, a crise da fé e a infrutuosa busca por significados.

 

Por trás dos vestígios de vulnerabilidade e de pessimismo instilados ao correr da pena, vibram no íntimo do falante as cordas de um desejo por estar equivocado quanto aos vislumbres do vazio que reverbera pelo efeito das estreitezas da condição humana: deseja ele, como o professor Isak Borg na película de Bergman, um sinal de redenção, uma prova de bondade, beleza ou amor que seja verdadeira e duradoura. Que essa esperança tenha força para perdurar!

 

J.A.R. – H.C.

 

José Miguel Silva

(n. 1969)

 

Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)

 

Para a Berta Neto

 

Um ser humano é um combinado de egoísmo,

sofrimento e necedade. Não comove ninguém.

Uma pedra não comove ninguém. A beleza

é um acidente banal e pressupõe a morte;

muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,

chega a ser assustador. A inteligência, refrescante

como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,

que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir

à inteligência? O de criada de servir nos aposentos

da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.

A bondade, sim, comove. Mas é tão débil

e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,

assim, encontrar algo que possamos amar. Eu

tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:

tudo me parece, até a música, produto de uma falha.

Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer

quem me convença que bem outra poderia ser

a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,

tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,

não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,

que alguém me demonstrasse que não tenho razão.

 

Cartaz do Filme

“Morangos Silvestres”, de 1957

 

Referência:

 

MIGUEL SILVA, José. Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957). In: __________. Movimentos no escuro. Lisboa, PT: Relógio d’Água, nov. 2005. p. 31.

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