Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 10 de setembro de 2022

Boris Pasternak - Contra a fama

Em dicção direta, não exatamente denegatória em relação à beleza, como na tradução de Augusto de Campos (adaptada, claro está, para se chegar às rimas do original em russo), Pasternak afirma ser “feio” valer-se da fama e do sucesso para ostentar bem alto o próprio nome entre os contemporâneos, quando lhe parece que a dedicação abnegada à verdadeira arte é que deveria ser o denominador comum a firmar o valor de um trabalho, cujo engenho se submeteria ao escrutínio menos partidário de gerações futuras.

 

São quadras que expressam a doutrina de Pasternak sobre a criatividade e as regras segundo as quais um autor deveria balizar a sua conduta, não se apegando a lauréis enganosos: segundo o poeta, melhor seria trilhar um caminho digno e honesto, não se rendendo fácil às circunstâncias de momento, porque delas se poderia tender à perdição completa!

 

J.A.R. – H.C.

 

Boris Pasternak

(1890-1960)

 

Быть знаменитым некрасиво (*)

 

Быть знаменитым некрасиво.

Не это подымает ввысь.

Не надо заводить архива,

Над рукописями трястись.

 

Цель творчества – самоотдача,

А не шумиха, не успех.

Позорно, ничего не знача,

Быть притчей на устах у всех.

 

Но надо жить без самозванства,

Так жить, чтобы в конце концов

Привлечь к себе любовь пространства,

Услышать будущего зов.

 

И надо оставлять пробелы

В судьбе, а не среди бумаг,

Места и главы жизни целой

Отчеркивая на полях.

 

И окунаться в неизвестность,

И прятать в ней свои шаги,

Как прячется в тумане местность,

Когда в ней не видать ни зги.

 

Другие по живому следу

Пройдут твой путь за пядью пядь,

Но пораженья от победы

Ты сам не должен отличать.

 

И должен ни единой долькой

Не отступаться от лица,

Но быть живым, живым и только,

Живым и только до конца.

 

1956

 

Mulheres XI

(Saori Akutagawa: artista japonesa)

 

Contra a fama (*)

 

Ser famoso não é bonito.

Não nos torna mais criativos.

São dispensáveis os arquivos.

Um manuscrito é só um escrito.

 

O fim da arte é doar somente.

Não são os louros nem as loas.

Constrange a nós, pobres pessoas,

Estar na boca de toda a gente.

 

Cumpre viver sem impostura.

Viver até os últimos passos.

Aprender a amar os espaços

E a ouvir o som da voz futura.

 

Convém deixar brancos à beira

Não do papel, mas do destino,

E nesses vãos deixar inscritos

Capítulos da vida inteira.

 

Apagar-se no anonimato,

Ocultando nossa passagem

Pela vida, como à paisagem

Oculta a nuvem com recato.

 

Alguns seguirão, passo a passo,

As pegadas do teu passar,

Porém não deves separar

Teu sucesso de teu fracasso.

 

Não deves renunciar a um mín-

Imo pedaço do teu ser,

Só estar vivo e permanecer

Vivo, e viver até o fim.

 

1956

 

Nota:

 

(*). De fato, o original russo não tem título, como bem o observa Augusto de Campos. (2006, p. 103, n.r.)

 

Referências:

 

Em Russo

 

ПАСТЕРНАК, Борис. Быть знаменитым некрасиво. Disponível neste endereço. Acesso em: 6 set. 2022.

 

Em Português

 

PASTERNAK, Boris. Contra a fama. Tradução de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto (Seleção e Tradução). Poesia da recusa. São Paulo, SP: Perspectiva, 2006. p. 103-104.

Um comentário:

  1. Apresento, aqui, uma outra tradução ao poema, inserta na obra cuja referência vai ao final:

    A fama é reles...

    A fama é reles e, ao contrário,
    subir não se resume nisto.
    Arquivos são desnecessários,
    não tremas sobre os manuscritos.

    Criar é se entregar de todo,
    jamais sucesso ou alarido.
    É vergonhoso, sendo engodo,
    virar provérbio promovido.

    Cumpre viver, mas sem disfarce,
    para atrair-se enfim o puro
    amor do espaço, ou escutar se
    o apelo, ao longe, do futuro.

    Deixa as lacunas no destino,
    jamais nas páginas. Passagens,
    capítulos, qualquer domínio
    de tua vida – anota à margem.

    Some no anonimato e esconde
    teus passos, como sítio oculto,
    por brumas muito espessas, onde
    nada se avista do seu vulto.

    Outros, que irão por tua rota,
    seguem teu rastro, passo a passo.
    Mas não te cabe ser quem opta
    entre vitórias ou fracassos.

    Não rendas nunca, por motivo
    algum, teu rosto, tua estrada;
    prossegue vivo, apenas vivo
    até o fim, vivo e mais nada.

    (Folhetim, 03.0.1.85)

    PASTERNAK, Boris. Tradução de Nelson Ascher e Boris Schnaiderman. In: SUZUKI JR., Matinas; ASCHER, Nelson (Organizadores). Folhetim: poemas traduzidos. São Paulo, SP: Folha de São Paulo, 1987. p. 188-189.

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