Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 15 de junho de 2021

Veronica Forrest-Thomson - Contrato Social

A uma incisiva censura de uma provável voz feminina, no sentido de que retribuirá na mesma proporção a quantidade de fumaça que lhe atingir os olhos, provocada pelo interlocutor, este logo põe-se a encetar um discurso de contemporização para a situação, como se fosse um “contrato social” a permitir um convívio pacífico entre os negociantes.

Como ambos agem do mesmo modo, provocando externalidades negativas a todos que estão expostos à fumaça, há sentido na celebração de uma avença que ponha tudo explícito em termos de direitos e obrigações, um “Contrato Social” à maneira como postulado pelo filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

No fundo, o título do poema apenas espirituosa e parcialmente associa-se ao seu teor, este muito mais relativo à intimidade de um casal, digo melhor, conexo ao lado privado da existência – e não à notória dimensão pública colimada pela obra contratualista de Rousseau.

J.A.R. – H.C.

 

Veronica Forrest-Thomson

(1947-1975)

 

Social Contract

 

I’ll blow smoke in your eyes

if you’ll blow smoke in mine.

Light up; relax;

cigarette packs

enclose guarantees

of social ease.

Strike the right note

with a match

and fill the gaps

in communication

by inhalation

of instant pseudo-sympathy.

A brand-name’s a shorthand

for identity.

Squirt out, like a squid,

your smokescreen of pride

to hide

hopes and needs we can’t express

and turn out the inside.

We’ll fill the ashtrays

of the day’s

conviviality, and part,

stubbing out our fag ends

in each other’s heart.

 

In: “Uncollected Early Poems”

 

Casal fumando e bebendo

em uma pousada

(Duchatel François: pintor flamengo)

 

Contrato Social

 

Soprarei fumaça em teus olhos

se soprares fumaça nos meus.

Acende; relaxa;

os maços de cigarro

comportam garantias

de tranquilidade social.

Toca a nota certa

com um fósforo

e preenche os hiatos

na comunicação

pela inalação

de instantânea pseudosimpatia.

Um nome de marca é uma forma abreviada

para a identidade.

Esguicha a jorros, como uma lula,

tua cortina de fumaça de orgulho

para simular

esperanças e necessidades que não podemos

expressar e expulsar de dentro.

Encheremos os cinzeiros

do convívio

diário, e partiremos,

apagando nossas pontas de cigarro

no coração um do outro.

 

Em: “Primeiros Poemas Não Coligidos”


Referência:

FORREST-THOMSON, Veronica. Social contract. In: __________. Collected poems. Edited, with notes and variants, by Anthony Barnett. Exeter, EN: Shearsman Books & Allardyce Book, 2008. p. 42.

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