Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Roberto Bolaño - O monge

As imagens suscitadas pelos versos deste poema de Bolaño levam-nos a associá-las a algum instante do Medievo, quando os senhores de terra detinham castelos e os protegiam com alambrados ou outras vedações, para que se lhes fossem prestados tributos.

Ouve-se a voz lírica de um monge que, depois de descansar de algumas caçadas, pôs-se a procurar pelo seu senhor, que havia avançado até um ponto por todos ignorado, quando, então, teve ciência de que alguém – seria ele próprio? – havia dormido por longo tempo sobre os seus escritos.

Sob um artificial calor dos crepúsculos, o monge, mais parecendo um cavaleiro andante ou guerreiro, percebe, de fato, que muitas virtuais obras sobre suas aventuras deixaram de ser difundidas, daí porque não se pode sentir a calidez de uma missão cumprida ao figurado arrebol da vida.

J.A.R. – H.C.

 

Roberto Bolaño

(1953-2003)

 

El monje

 

Fui feliz durante las cacerías.

Dormité a la sombra de un plátano.

Los sueños ordenaban ríos y castillos.

Al alba mi hermano me murmuró al oído

que tras esas colinas los dominios

permanecían con las mismas alambradas.

Homenajes – dijo. Cabalgué

hasta alcanzar a la vanguardia.

Nadie supo indicarme hacia dónde

se había marchado nuestro señor.

Intuí que el calor de los crepúsculos

era artificial. Supe que alguien

largo tiempo había dormido

sobre mis escritos.

 

Monge cartuxo

(Charles-Caïus Renoux: pintor francês)

 

O monge

 

Fui feliz durante as caçadas.

Dormitei à sombra de um plátano.

Os sonhos punham em ordem rios e castelos.

Ao amanhecer, meu irmão sussurrou-me ao ouvido

que, por trás daquelas colinas, os domínios

permaneciam com os mesmos alambrados.

Homenagens – disse-me ele. Cavalguei

até chegar à vanguarda.

Ninguém soube indicar-me até onde

havia avançado o nosso senhor.

Intuí que o calor dos crepúsculos

era artificial. Soube que alguém

por um longo tempo havia dormido

sobre os meus escritos.

 

Referência:

BOLAÑO, Roberto. El monje. In: __________. Poesía reunida. Prólogo de Manuel Vilas. 1. ed. Madrid, ES: Alfaguara, 2018. p. 54.

Nenhum comentário:

Postar um comentário