Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Bruno Tolentino - Perfeição, Imperfeição

Em quatro tercetos, Tolentino resume o que se costuma afirmar sobre a hipotética dicotomia entre corpo e alma, objeto de controvérsia entre muitos teóricos, como o polímata medieval Avicena (980-1037), para quem somente se pode falar em perfeição no domínio da alma, pois o corpo – imperfeito por natureza – está entregue aos mundanos prazeres da carne, numa fogueira ardente dentro da qual virá a carbonizar.

A ideia deriva da suposição de que é a alma que entrará em contato com Deus, numa futura prestação de contas do que aqui se fez. Um pouco como na composição “Corpo”, de Sueli Costa e Abel Silva, de 1982, a antepor os prazeres físicos do sexo ao caráter mais sublime da alma: “Só quero o teu corpo / quero te dar o meu / a tua alma guarde / para se entender com Deus”.

J.A.R. – H.C.

Bruno Tolentino
(1940-2007)

Perfeição, Imperfeição

“A perfeição da forma é para a alma: (1)
à míngua de um repouso ou de um regaço,
à alma basta uma consolação.

O corpo é cego e quer imperfeição,
a asa atônita, as abelhas de aço,
o amor das coisas pares como as mãos.

A carne é lenha condenada e geme
por fogueiras apenas: só a acalma
o que a carbonizar, que nada menos

consegue sossegar essa antialma,
a mão crispada, o último limão... (2)
Nem mesmo a cicatriz da perfeição.”

No Café
(Edgar Degas: pintor francês)

Notas dos Organizadores:

(1) Alusão a uma das ideias principais da obra O livro da alma, de Avicena (980-1037), sábio (filósofo, jurista, músico, físico, matemático e astrônomo) persa, para o qual a alma “é a perfeição primeira [...] de um corpo natural” (Livro I, I, 10).

(2) Referência ao poema “I limoni” (Os limões), do livro Ossos de sépia (1925), do escritor italiano Eugene Montale (1896-1981). Os “limões” acabam por se tornar o símbolo da poesia de Montale, que se opõe aos “poetas laureados” e elege as coisas simples e cotidianas como objeto de seu canto.

Referência:

TOLENTINO, Bruno. Perfeição, imperfeição. In: __________. A balada do cárcere. 1. ed. comentada. Notas e organização de Juliana P. Perez, Jessé de Almeida Primo, Martim Vasques da Cunha, Guilherme Malzoni Rabello e Renato José de Moraes. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2016. p. 112.

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