Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 20 de abril de 2019

Henriqueta Lisboa - Do Supérfluo

Dirigindo-se certamente ao amado, Henriqueta nele espera ver a cumplicidade, por conhecer demais o seu “intransferível patrimônio”, feito de substância “supérflua” – muitos sentimentos, pensamentos e coisas simples que se gravam na memória –, mas capazes de infringir um acento elegíaco em toda a existência.

Um livro, uma rosa, o tracejar da lua, o pôr do sol – tudo tão trivial –, não fosse a mirada singular da poetisa mineira, fluida como o irrestituível tempo a nos recobrir com a névoa do transitório, do contingente, do fugaz, tornando-nos cada vez mais pensativos com o avançar da idade.

J.A.R. – H.C.

Henriqueta Lisboa
(1901-1985)

Do Supérfluo

Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro.
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr do sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas – todavia supérfluas –
do meu intransferível patrimônio?

Natureza-Morta com Livro e Rosas
(Jeffrey Wood: artista britânico)

Referência:

LISBOA, Henriqueta. Do supérfluo. In: RODRIGUES, Claufe; MAIA, Alexandra (Eds.). 100 anos de poesia: um panorama da poesia brasileira no século XX. Volume I. Rio de Janeiro, RJ: O Verso Edições, 2001. p. 103.

Nenhum comentário:

Postar um comentário