Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Wallace Stevens - Estudo de Duas Peras

Stevens dedica-se, neste poema, a espicaçar o intelecto na tentativa de colocar em palavras o que seria a forma de uma pera, ou não apenas, pois avança na descrição sobre a cor – ou melhor, as cores – que elas assumem, a textura da casca e por aí vai.

Parece-me um exercício capaz de avançar ao infinito se, para cada explicação, tivermos que regredir e esclarecer o que antes se tem como manifesto ou sabido: a fragilidade da linguagem humana não consegue tudo elucidar sobre o que se nos apresenta como coisas tangíveis ou intangíveis.

Veja, leitor, o comentário sobre o poema, tecido por um outro famoso poeta, ou seja, Czeslaw Milosz (1998, p. 64):

Wallace Stevens se encontrava sob o fascínio da ciência e dos métodos científicos. Uma tendência analítica é visível em seus poemas sobre a realidade, e isso é justamente o oposto do conselho oferecido pelo poeta zen Bashô, que queria capturar a coisa de uma só vez. Quando Stevens tenta descrever duas peras, como se o fizesse para um habitante de outro planeta, enumera uma após outra suas principais qualidades, tornando sua análise semelhante a uma pintura cubista. Mas as peras resistem a qualquer tentativa de descrição.

J.A.R. – H.C.

Wallace Stevens
(1879-1955)

Study of Two Pears

I

Opusculum paedagogum.
The pears are not viols,
nudes or bottles.
They resemble nothing else.

II

They are yellow forms
Composed of curves
Bulging toward the base.
They are touched red.

III

They are not flat surfaces
Having curved outlines.
They are round
tapering toward the top.

IV

In the way they are modelled
There are bits of blue.
A hard dry leaf hangs
From the stem.

V

The yellow glistens.
It glistens with various yellows,
Citrons, oranges andn greens
Flowering over the skin.

VI

The shadows of the pears
Are blobs on the green cloth.
The pears are not seen
As the observer wills.

Duas Peras
(Julian Merrow-Smith: pintor inglês)

Estudo de Duas Peras

I

Opusculum paedagogum.
As peras não são violas,
Nem nus, nem garrafas.
Não se assemelham a mais nada.

II

São formas amarelas
Compostas de curvas
Abauladas na base.
Têm um toque de vermelho.

III

Não são superfícies planas
De contornos curvos.
São redondas,
Afiladas no alto.

IV

São modeladas de modo
A terem traços de azul.
Uma folha dura e seca
Pende do pecíolo.

V

O amarelo brilha.
Um brilho de vários amarelos,
Alaranjados e verdes
A florescer na casca.

VI

As sombras das peras são manchas
Amorfas na toalha verde.
As peras não são vistas
À vontade de quem vê.

Referências:

MILOSZ, Czeslaw (Ed.). A book of luminous things: an international anthology of poetry. 1st. ed. New York, NY: Houghton Mifflin Harcourt, 1998.

STEVENS, Wallace. Study of two pears / Estudo de duas peras. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. O imperador do sorvete e outros poemas. Seleção, tradução e apresentação de Paulo Henriques Britto. 1. ed. rev. e ampl. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2017. Em inglês: p. 146 e 148; em português: p. 147 e 149.

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