Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Luiza Neto Jorge - Natureza-Morta com Bernardo Soares

Colocando-se imaginariamente na voz lírica que pertenceu a um dos heterônimos de Fernando Pessoa – menos famoso, é certo, mas bem próximo ao próprio temperamento do criador, tanto que lhe dizem “semi-heterônimo” –, Luiza Jorge põe-se a descrever cena do poeta à mesa, questionando-se sobre a identidade, como forma de perseguir a cura para a “seca da cisterna”, revolvendo em palimpsestos reelaborados à exaustão a sua pródiga e prismática matéria íntima.

Em meio às associações aos enfoques ortográficos e grafológicos da obra de Pessoa, tem-se a intuição de que a poetisa esteve a contemplar a famosa pintura de Almada Negreiros (1954) ao redigir o poema: afinal, quer-se levar o leitor a entrever uma pintura – uma natureza-morta –, capaz de refletir as impressões visuais vezes sem conta presentes nos escritos de Bernardo.

J.A.R. – H.C.

Luiza Neto Jorge
(1939-1989)

Natureza-Morta com Bernardo Soares

Esta mesa de mármore
mó absorvente onde
as folhas espadanam
põe-me na rota dessoutro
bojo calipígio onde o poeta
ele-mesmo copiava a escrita.

Vagueia a paisagem, irradiando-me;
embaciado sol me localiza,
sou eu, é minha a mesa,
meu o sossego, e mói.

Sobre o ringue sem patinadores,
cisterna seca à minha frente,
poluídas tílias em flor.
Ousarei invocar outro terreiro,
o sol-a-sol do só, a poluída vida,
os duplicados que o poeta fez?

Plagiadas arcadas:
e o meu olhar margina
as águas, pródigas águas
que redemoinham após a seca.

Em: “A lume” (1989)

Outono às margens do lago
(Pashk Pervathi: pintor albanês)

Elucidário:

Calipígio – Aquele(a) que tem belas nádegas.

Referência:

JORGE, Luiza Neto. Natureza-morta com Bernardo Soares. In: COSTA E SILVA, Alberto da; BUENO, Alexei (Organização e Introdução). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro, RJ: Lacerda Editores, 1999. p. 344.

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