Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Raul de Leoni - Superstição

Este belo poema, integrante da série “Felicidade” da obra em referência, foge do padrão parnasiano com o qual flertou Leoni no início dos seus trabalhos no domínio da poesia, sobretudo pela forma que apresenta, com versos livres e temática bem mais comum em criações simbolistas, como as de Cruz e Sousa.

O poeta carioca se concentra em demarcar a “presença” de histórias e pessoas que já partiram, no ambiente de velhas casas que contempla, a configurar uma vida fantástica e invisível aos olhos, embora presumida pelos sentidos.

J.A.R. – H.C.

Raul de Leoni
(1895-1926)

Superstição

As almas, como as flores, no lugar
Em que viveram deixam, longamente,
Sua íntima essência errando no ar,
Numa vaga fluidez reminiscente...

Vede essas velhas casas que, a passar
Pelos olhos do tempo indiferente,
Foram o sereníssimo ambiente
De uma longa história familiar!...
Há no seu gênio obscuro, misteriosas
Influências humanas, insensíveis
Contágios de alma que não percebemos,
Frias fatalidades traiçoeiras
Adormecidas no silêncio antigo...

Exalam do segredo das entranhas
Forças sutis e sugestões estranhas
Que nos descem ao fundo dos sentidos
E se vão infiltrando, lentamente,
Na alma dos visitantes distraídos...
Ao lhes transpormos as sombrias portas,
Nunca sabemos o que nos espera
Nesses tristes jardins de sombras mortas
Fantasmas de uma antiga primavera...

Dentro tudo morreu... mas, presa a um fio
Intangível,
Uma vida fantástica, invisível
Vive em essência no ar sonâmbulo e vazio...

As almas, como flores, no lugar
Em que viveram deixam, longamente,
A sua exalação errando no ar,
Numa vaga fluidez reminiscente...

Quintais de Velhas Casas em Antuérpia
Sob a Neve
(Vincent van Gogh: pintor holandês)

Referência:

LEONI, Raul de. Superstição. In: __________. Luz mediterrânea. 9. ed. São Paulo, SP: Livraria Martins Editora, 1959. p. 92-93.

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