Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Francisco Brines - Os prazeres inferiores

O poeta formula conselhos que bem poderiam ter saído da boca de Luzbel, a mesma figura alegórica que, sendo inicialmente um ser de luz, depois de sua queda e desterro ao inferno, passou a denominar-se Satã, o consabido adversário do divino.

As paixões e os prazeres inferiores são o objeto dos versos incitadores de Brines, autênticas provocações filosóficas que tangenciam as palavras da serpente no Gênesis: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal” (Gênesis 3:4,5).

J.A.R. – H.C.

Francisco Brines
(n. 1932)

Los placeres inferiores

No desdeñes las pasiones vulgares.
Tienes los años necesarios para saber
que ellas se corresponden exactamente con la vida.
No reduzcas su acción,
pues si del breve tiempo en que consistes
las sustraes,
es todavía el existir más deficiente.
Descubre su verdad tras la apariencia,
y así no habrá falsía,
y no podrás mentir que fue razón de vida lo que sólo fue
tránsito.
Más ellas te enviaron el fiel aburrimiento de las horas.

Exigen lucidez, no en su experiencia,
sino en su escaso ser;
valóralas exactas,
para lo cual has de saber lo que la vida vale,
y esa sabiduría hace tiempo que es tuya.
Si cometes error cuando las midas,
hazlo siempre en tendencia de la degradación.
Nunca mejores lo que vale poco.
Y que no tengan nombre, ni tiempo detenido,
y queden confundidas en su promiscuidad.
Sabes que tu memoria es débil, y te ayuda.
Todas son una sola,
como es una la vida.
Y las otras pasiones, que merecen un nombre
y el cobijo de un tiempo,
sálvalas lejos de ellas,
y siempre te recuerden lo que la vida no es.
Y agradece a la vida esos errores.

De: “Insistencias em Luzbel” (1977)

Gravura para o “Inferno” de Dante
(Gustave Doré: artista francês)

Os prazeres inferiores

Não desdenhes as paixões vulgares.
Tens os anos necessários para saber
que elas correspondem exatamente à vida.
Não reduzas sua ação,
pois se do breve tempo em que consistes
tu as subtrais,
és ainda assim o mais deficiente existir.
Descobre a sua verdade por trás da aparência,
e assim não haverá falsidade,
e não poderás mentir que foi razão de vida o que somente foi
trânsito.
Enviaram-te elas, nada obstante, o lídimo tédio das horas.

Exigem lucidez, não em sua experiência,
senão em seu escasso ser;
valora-as com exatidão,
para o que hás de saber o quanto vale a vida,
e essa sabedoria faz tempo que é tua.
Se cometes erros quando as mensuras,
faze-o sempre com tendência à degradação.
Nunca melhores o que pouco vale.
E as coisas que não tenham nome, nem tempo detido,
e fiquem confundidas em sua promiscuidade.
Sabes que tua memória é fraca, e te ajuda.
Todas são somente uma,
como uma é a vida.
E as outras paixões que merecem um nome
e o refúgio de um tempo,
salva-as longe delas,
e sempre te recordem o que a vida não é.
E agradece à vida por tais erros.

De: “Insistências em Luzbel” (1977)

Referência:

BRINES, Francisco. Los placeres inferiores. In: RUBIO, Fanny; FALCÓ, José Luis (Sellección, estudio y notas). Poesia española contemporánea: historia y antología (1939-1980). 1. ed. Madrid (ES): Editorial Alhambra, 1981. p. 300-301.

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