Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Hafiz Al-Shiraz - Uma vez mais, o jardim tem o brilho da primavera

Esta versão ao português, da tradução do persa ao inglês em referência, apresenta tantas diferenças em relação a outras traduções ao inglês, disponíveis na internet, que imagino resultar do profuso recurso a símbolos, alegorias e metáforas do original de Hafiz, fortemente conotado na mística tradicional islâmica, sem contar o provável efeito do marco sócio-político à época em que redigido o gazal.

Nesse sentido, torna-se bastante difícil compreender a real mensagem formulada pelo místico persa, pois ao não se deduzir com precisão o significado conotativo colimado pelos versos no original, como haverá de o tradutor bem verter para o idioma destinatário o seu teor?! Resultará que o tradutor tornar-se-á um “traidor” – como assevera, nesta postagem, o poeta e tradutor português José Bento.

J.A.R. – H.C.

 

Hafiz Al-Shiraz

(1315-1390)

(Pintura de Abolhassan Sadighi)

 

VII

 

(The return of Spring reawakens his passion. The orthodox may

despise him, drunk with the wine of unreason. But such as he

are the real friends of God, and, like the Patriarchs, are under His

protection.)

 

Again the garden has got the glitter of Spring:

The nightingale hears good news, for the rose is come.

 

Soft wind returning to the young plants of the meadow,

Greet for us the rose, the cypress and the sweet basil.

 

They are spread for the wedding-feast of the wine-seller’s son,

And I’d sweep his floor with my eyelashes to win such grace.

 

For that amber-scented strand you draw across a moonlight

brow

Has made a shuttlecock of my heart, and set it spinning.

 

I can’t trust those who sneer at us drinking down to the lees:

That is the kind of thing which gets a bad name for religion.

 

Let them learn to be friends with God’s true friends; remember

that Noah in his ark,

A speck of dust himself, cared not a drop for the deluge.

 

Go out through the door of the house of Fate with its shifting

spheres,

Nor drink of the sky’s black bowl – it kills its guest at the last.

 

Tell those whose holding at length is no more than a fistful

of dust:

“What need of these proud domes you rear to the sky?”

 

But as for you, you are Joseph, you are the Moon of Canaan:

The stewardship of Egypt is yours; so bid this prison good-bye.

 

Hafiz, drink wine, and be glad and reckless; but don’t copy

those

Who make reciting the Book a cover for lies.

 

Jardim primaveril em flor

(Kazimir Malevich: pintor russo)

 

VII

 

(O regresso da primavera torna a despertar a sua paixão. Os

ortodoxos podem desprezá-lo, ébrios com o vinho da insensatez.

Mas, assim como ele, são os verdadeiros amigos de Deus, e, como

os Patriarcas, estão sob a Sua proteção.)

 

Uma vez mais, o jardim tem o brilho da primavera

 

Uma vez mais, o jardim tem o brilho da primavera:

O rouxinol ouve boas novas, pois a rosa está chegando.

 

O vento suave, retornando às tenras plantas do prado,

Saúda por nós a rosa, o cipreste e o manjericão.

 

Estendem-se eles para as bodas do filho do mercador de vinhos;

com minhas pestanas varreria o seu chão para colher tal graça.

 

Pois esse cordel aromado a âmbar que traças sobre tua fronte

enluarada

Converteu meu coração em um volante e o pôs a girar.

 

Não posso confiar nos que zombam de nós a beber até a

última gota:

Esse é o tipo de coisa que suscita má fama à religião.

 

Que aprendam a ser amigos dos verdadeiros amigos de Deus;

recorda de que Noé em sua arca,

um grão de poeira ele mesmo, não deu trato a uma gota sequer

do dilúvio.

 

Sai pela porta da casa do Destino com suas irisadas esferas,

e não bebas da taça negra do céu – pois que, ao fim, mata o seu

hóspede.

 

Diz àqueles cujas posses em última instância não são mais que

um punhado de pó:

“Qual a necessidade dessas orgulhosas cúpulas que se levantam

aos céus?”

 

Porém quanto a ti, és José, és a lua de Canaã:

tua é a intendência do Egito, assim que te despeças desta prisão.

 

Hafiz, bebe vinho, alegra-te e despreocupa-te; mas não imites

aqueles que fazem da recitação do Livro um disfarce para

mentiras.


Referência:

SHIRAZ, Hafiz of. Again the garden has got the glitter of spring. In: __________. Thirty poems: an introduction to the sufi master. Translated to English by Peter Avery and John Heath-Stubbs. 1st. ed. London, EN: John Murray Publishers Ltd., 1952. p. 20-21.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Boris Vian - Se os poetas fossem menos bestas

Vian – mesmo sendo também um poeta – formula provocações, sem receio das palavras que enceta, num hábil amálgama de talento e modéstia, de espirituosidade e autodepreciação, vertendo-as em direção ao leitor, ainda que melhor se direcionadas fossem a todos os poetas contra quem se insurge, para que pudessem manter seus nomes, por um dia que fosse, longe do olvido.

Perceba-se a dificuldade do tradutor – Ruy Proença – em verter ao português termos que, no francês, são recriações ou combinações de outras palavras, ou melhor, manipular neologismos capazes de fazer algum sentido no idioma destinatário: tal é árdua tarefa do “tradutor-traidor”!

J.A.R. – H.C.

Boris Vian
(1920-1959)

Si les poètes étaient moins bêtes

Si les poétes étaient moins bêtes
Et s’ils étaient moins paresseux
Ils rendraient tout le monde heureux
Pour pouvoir s’occuper en paix
De leurs souffrances littéraires
Ils construiraient des maisons jaunes
Avec des grands jardins devant
Et des arbres pleins de zoizeaux
De mirliflûtes et de lizeaux
Des mésongres et des feuvertes
Des plumuches, des picassiettes
Et des petits corbeaux tout rouges
Qui diraient la bonne aventure
Il y aurait de grands jets d’eau
Avec des lumières dedans
Il y aurait deux cents poissons
Depuis le croûsque au ramusson
De la libelle au pépamule
De l’orphie au rara curule
Et de l’avoile au canisson
Il y aurait de l’air tout neuf
Parfumé de l’odeur des feuilles
On mangerait quand on voudrait
Et l’on travaillerait sans hâte
A construire des escaliers
De formes encor jamais vues
Avec des bois veinés de mauve
Lisses comme elle sous les doigts
Mais les poètes sont très bêtes
Ils écrivent pour commencer
Au lieu de s’mettre à travailler
Et ça leur donne des remords
Qu’ils conservent jusqu’à la mort
Ravis d’avoir tellement souffert
On leur donne des grands discours
Et on les oublie en un jour
Mais s’ils étaient moins paresseux
On ne les oublierait qu’en deux.

Metamorfose de Narciso
(Salvador Dalí: pintor espanhol)

Se os poetas fossem menos bestas

Se os poetas fossem menos bestas
E se fossem menos preguiçosos
Fariam todo o mundo feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Levantariam casas douradas
Cercadas por enormes jardins
E árvores cheias de colibris
De rustiflautas e de aqualises
De pardongros e de luziverdes
De plumuchas e de picapratos
E de pequenos corvos vermelhos
Que soubessem tirar nossa sorte
Haveria grandes chafarizes
Jorrando luzes de zil matizes
Não faltariam duzentos peixes
Do crocantusco ao empedraqueixo
Do trilibelo ao falamumula
Da suazmina ao rara quirila
E do guardavela ao canifeixe
Provaríamos de um ar fresquíssimo
Perfumado pelo odor das folhas
Comeríamos quando quiséssemos
E trabalharíamos sem pressa
A arquitetar escadarias
De formas nunca dantes sonhadas
Com tábuas raiadas de lilás
Lisas como só ela sob os dedos
Mas os poetas são muito bestas
Para começar, eles escrevem
Ao invés de pôr a mão na massa
Isso lhes traz profundos remorsos
Que levam consigo até a morte
Radiantes por sofrerem tanto
O mundo os aclama com requinte
E os esquece no dia seguinte
Se a preguiça não fosse mania
Teriam fama por mais um dia.

Referência:

VIAN, Boris. Si les poétes étaient moins bêtes / Se os poetas fossem menos bestas. Tradução de Ruy Proença. In: MENDONÇA, Vanderley (Ed.). Lira argenta: poesia em tradução. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Selo Demônio Negro, 2017. Em francês: p. 152 e 154; em português: p. 153 e 155.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

José Bento - Eu tradutor, traidor

Bento, poeta e tradutor lusitano, diz-se um traidor a cada ensejo que verte ao português poemas de outras línguas – como o espanhol –, vezes sem conta tomados em seu mister de organização de antologias capazes de abarcar o melhor da lírica em alguns países, como a da contígua Espanha.

Parece-lhe que anda a profanar santuários, maculando-os com a petulância pecaminosa de suas transposições. De fato, prefiro ver em Bento um exímio tradutor, do que propriamente um traidor das mensagens, dos sentimentos, dos “aromas” contidos em versos alheios. Porque traduzir também é criar (ou recriar) a mensagem original, trazendo-a à feição e aos modos como, no idioma destinatário, ela melhor se adaptaria às convenções e às experiências de quem há de desfrutá-la.

Sobre o mesmo tema, o internauta poderá apreciar outra poesia, de autoria do romeno Marin Sorescu, intitulada exatamente “Tradução”, em tom bem gracioso, para mostrar o quanto é difícil a tarefa de se obter equivalência cultural entre as formas de expressão próprias de cada idioma. O estilo, as conotações, a expressividade, a modulação, a musicalidade, a métrica, a rima, tudo contribui para que, em algum momento, algo deixará de exibir fidelidade ao original. Importa, então, reduzir as “traições” a meros pecados veniais! (rs)

J.A.R. – H.C.

José Bento
(n. 1932)

Eu tradutor, traidor

A Pilar Gómez Bedate e Ángel Crespo

Não me dói o que de mim perdi.
Busco, não o encontro, mas recolho
sua exalação, não mais
que a memória alumiando
quanto já não regressa:
fogo hibernal que se mantém do frio.

Relanceio o que toquei não sendo meu:
palavras,
cicatrizes indefesas
numa boca, num lugar, numa data.
Amei-as sem lucidez.
  Profanação?
A quem prestarei contas?
  Muitos
reivindicam o que é seu, e transmutei
sem consciência, com avidez tão cega
que não soube transmitir sua inteireza,
ufano ao supor reter seu fundo aroma.

Dissipei tanto fulgor alheio
ao querer dá-lo qual se me pertencesse,
sem o remorso e a vergonha
de o oferecer como se não o tivesse magoado.

Fogo Invernal
(Leonid Afremov: pintor israelense)

Referência:

BENTO, José. Eu tradutor, traidor. In: __________. Silabário. Lisboa, PT: Relógio d’Água, 1992. p. 98.

sábado, 18 de agosto de 2018

H. W. Longfellow - A Catedral

O soneto abaixo era um dos três que prefaciavam a tradução de Longfellow para o inglês, do “Inferno”, de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, razão pela qual o poeta os agrupou aos outros dois – que introduziam as partes do “Purgatório” e do “Paraíso” –, nomeando-os, apropriadamente, com o título original do autor italiano.

Quanto ao título conferido ao soneto pelo tradutor brasileiro, não existe no original de Longfellow, muito embora se adapte bem ao aspecto de uma catedral certamente gótica descrita em seus versos, haja vista as alusões a gárgulas, lucíferes e dragões, torres e multidões de estátuas – assim como no caso da portentosa Catedral de Reims, na França.

J.A.R. – H.C.

 

H. W. Longfellow

(1807-1882)

 

Divina Commedia

 

II

 

How strange the sculptures that adorn these towers!

This crowd of statues, in whose folded sleeves

Birds build their nests; while canopied with leaves

Parvis and portal bloom like trellised bowers,

And the vast minster seems a cross of flowers!

But fiends and dragons on the gargoyled eaves

Watch the dead Christ between the living thieves,

And, underneath, the traitor Judas lowers!

Ah! from what agonies of heart and brain,

What exultations trampling on despair,

What tenderness, what tears, what hate of wrong,

What passionate outcry of a soul in pain,

Uprose this poem of the earth and air,

This mediæval miracle of song!

 

Catedral de Reims

(Domenico Quaglio: pintor alemão)

 

A Catedral

 

Como são estranhas as esculturas que adornam estas torres!

Essa multidão de estátuas, em cujas dobras das mangas

Os pássaros fazem em seus ninhos; sob um dossel de folhas

O adro e o pórtico floridos como caramanchões em

forma de latadas.

E a vasta basílica sugere uma cruz de flores!

Os demos e dragões nas carrancas das goteiras do telhado

Contemplam o Cristo morto entre os dois ladrões,

ainda vivos

E, aos seus pés, o traidor Judas, cabisbaixo!

Oh! que agonias do coração e do espírito,

Que exultações calcando o desespero,

Que ternura, que lágrimas, que remorso pelo crime,

Que grito apaixonado de uma alma agoniada,

Sobrepujam esse poema da terra e do céu,

Esse milagre de cântico medieval!


Referências:

Em Inglês

LONGFELLOW, H. W. Divina Commedia – II. In: __________. Complete poetical works. Edited by Horace E. Scudder. Boston (MA), New Work (NY): Houghton, Mifflin & Co., 1893. p. 292.

Em Português

LONGFELLOW, H. W. A Catedral. Tradução de Bezerra de Freitas. In: LISBOA, Henriqueta (Org.). Antologia escolar de poemas para a juventude. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, Tecnoprint, 1981. p. 132.