Como que a resgatar,
em boa medida, a milenar oposição entre os pontos de vista de Heráclito e
Parmênides, filósofos gregos, sobre a natureza da realidade, estes versos de
Stevens exploram o humano esforço em aceitar o fluxo constante de todas as coisas
e o nosso persistente desejo de permanência, dilema esse para o qual o poeta
propõe uma solução estética pela via do congelamento do tempo através da arte, o
próprio homem a converter-se numa peça “arcaica” e eterna.
A “solidão” final não
é de abandono, mas de autossuficiência e paz, alcançada quando alguém se torna
um monumento a si mesmo, respirando perpetuamente no tranquilo centro do
turbilhão temporal, contudo imune às mudanças, eis que sob o efeito de uma “realização
permanente”, um estado de consciência pura, livre das corriqueiras “oscilações”
da existência.
J.A.R. – H.C.
Wallace Stevens
(1879-1955)
This Solitude of
Cataracts
He never felt twice
the same about the flecked river,
Which kept flowing
and never the same way twice, flowing
Through many places,
as if it stood still in one,
Fixed like a lake on
which the wild ducks fluttered,
Ruffling its common
reflections, thought-like Monadnocks.
There seemed to be an
apostrophe that was not spoken.
There was so much
that was real that was not real at all.
He wanted to feel the
same way over and over.
He wanted the river
to go on flowing the same way,
To keep on flowing.
He wanted to walk beside it,
Under the
buttonwoods, beneath a moon nailed fast.
He wanted his heart
to stop beating and his mind to rest
In a permanent
realization, without any wild ducks
Or mountains that
were not mountains, just to know how it would be,
Just to know how it
would feel, released from destruction,
To be a bronze man
breathing under archaic lapis,
Without the
oscillations of planetary pass-pass,
Breathing his bronzen
breath at the azury centre of time.
In: “The Auroras of
Autumn” (1950)
Cataratas do Niágara
pelo lado americano
(Louisa Davis Minot:
pintora norte-americana)
Esta Solidão das
Cataratas
Ele jamais voltou a
sentir o mesmo pelo salpicado rio,
Que seguia fluindo e
nunca da mesma maneira, atravessando
Muitos lugares, como
se estivesse parado num só,
Fixo como um lago sobre
o qual esvoaçassem patos selvagens,
A ruflarem seus
habituais reflexos, como Monadnocks pensantes. (*)
Parecia haver uma
apóstrofe que não se pronunciava.
Havia tantas coisas
reais que não o eram em absoluto.
Queria senti-las da
mesma forma repetidas vezes.
Queria que o rio seguisse
a fluir do mesmo modo,
Que continuasse a
correr. Queria caminhar junto a ele,
Sob os plátanos, debaixo
de uma lua firmemente cravada no céu.
Queria que seu
coração parasse de bater, que sua mente descansasse
Numa compreensão
permanente, sem quaisquer patos selvagens
Ou montanhas que não
fosse montanhas, apenas para saber como seria,
Apenas para saber
como se sentiria, liberto da destruição,
Ser um homem de
bronze respirando sob um arcaico lápis-lazúli,
Sem as oscilações do
vai-vem planetário,
A respirar o seu
brônzeo alento no centro azulado do tempo.
Em: “As Autoras do
Outono” (1950)
Nota:
(*). Um “monadnoch”
(também conhecido como “inselberg”) é uma formação geológica isolada,
geralmente uma colina rochosa ou montanha, que se destaca de uma paisagem
circundante mais baixa e plana, chamada peneplano; tais estruturas resistem à
erosão porque são compostas de rochas mais duras e resistentes, como granito ou
quartzito, enquanto as rochas mais brandas à sua volta desgastam-se mais rapidamente;
o termo deriva do Monte Monadnock, em New Hampshire, EUA.
Referência:
STEVENS, Wallace. This solitude of cataracts. In: __________. The collected poems of Wallace Stevens. 11th print. New York, NY: Alfred A. Knopf, feb. 1971. p. 424-425.
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