Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Wallace Stevens - Esta Solidão das Cataratas

Como que a resgatar, em boa medida, a milenar oposição entre os pontos de vista de Heráclito e Parmênides, filósofos gregos, sobre a natureza da realidade, estes versos de Stevens exploram o humano esforço em aceitar o fluxo constante de todas as coisas e o nosso persistente desejo de permanência, dilema esse para o qual o poeta propõe uma solução estética pela via do congelamento do tempo através da arte, o próprio homem a converter-se numa peça “arcaica” e eterna.

 

A “solidão” final não é de abandono, mas de autossuficiência e paz, alcançada quando alguém se torna um monumento a si mesmo, respirando perpetuamente no tranquilo centro do turbilhão temporal, contudo imune às mudanças, eis que sob o efeito de uma “realização permanente”, um estado de consciência pura, livre das corriqueiras “oscilações” da existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Wallace Stevens

(1879-1955)

 

This Solitude of Cataracts

 

He never felt twice the same about the flecked river,

Which kept flowing and never the same way twice, flowing

 

Through many places, as if it stood still in one,

Fixed like a lake on which the wild ducks fluttered,

 

Ruffling its common reflections, thought-like Monadnocks.

There seemed to be an apostrophe that was not spoken.

 

There was so much that was real that was not real at all.

He wanted to feel the same way over and over.

 

He wanted the river to go on flowing the same way,

To keep on flowing. He wanted to walk beside it,

 

Under the buttonwoods, beneath a moon nailed fast.

He wanted his heart to stop beating and his mind to rest

 

In a permanent realization, without any wild ducks

Or mountains that were not mountains, just to know how it would be,

 

Just to know how it would feel, released from destruction,

To be a bronze man breathing under archaic lapis,

 

Without the oscillations of planetary pass-pass,

Breathing his bronzen breath at the azury centre of time.

 

In: “The Auroras of Autumn” (1950)

 

Cataratas do Niágara pelo lado americano

(Louisa Davis Minot: pintora norte-americana)

 

Esta Solidão das Cataratas

 

Ele jamais voltou a sentir o mesmo pelo salpicado rio,

Que seguia fluindo e nunca da mesma maneira, atravessando

 

Muitos lugares, como se estivesse parado num só,

Fixo como um lago sobre o qual esvoaçassem patos selvagens,

 

A ruflarem seus habituais reflexos, como Monadnocks pensantes. (*)

Parecia haver uma apóstrofe que não se pronunciava.

 

Havia tantas coisas reais que não o eram em absoluto.

Queria senti-las da mesma forma repetidas vezes.

 

Queria que o rio seguisse a fluir do mesmo modo,

Que continuasse a correr. Queria caminhar junto a ele,

 

Sob os plátanos, debaixo de uma lua firmemente cravada no céu.

Queria que seu coração parasse de bater, que sua mente descansasse

 

Numa compreensão permanente, sem quaisquer patos selvagens

Ou montanhas que não fosse montanhas, apenas para saber como seria,

 

Apenas para saber como se sentiria, liberto da destruição,

Ser um homem de bronze respirando sob um arcaico lápis-lazúli,

 

Sem as oscilações do vai-vem planetário,

A respirar o seu brônzeo alento no centro azulado do tempo.

 

Em: “As Autoras do Outono” (1950)

 

Nota:

 

(*). Um “monadnoch” (também conhecido como “inselberg”) é uma formação geológica isolada, geralmente uma colina rochosa ou montanha, que se destaca de uma paisagem circundante mais baixa e plana, chamada peneplano; tais estruturas resistem à erosão porque são compostas de rochas mais duras e resistentes, como granito ou quartzito, enquanto as rochas mais brandas à sua volta desgastam-se mais rapidamente; o termo deriva do Monte Monadnock, em New Hampshire, EUA.

 

Referência:

 

STEVENS, Wallace. This solitude of cataracts. In: __________. The collected poems of Wallace Stevens. 11th print. New York, NY: Alfred A. Knopf, feb. 1971. p. 424-425.

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