Num mundo polarizado por
ideologias que pregam a supremacia do Estado, da classe ou da raça, o diplomata
sergipano ergue a bandeira do indivíduo como valor supremo, numa “declaração de
princípio” humanista, infensa aos totalitarismos e defensora, em contraposição,
da integridade da consciência individual perante as “grandes abusões” da
história.
Sob tal contexto,
rejeita enfaticamente, por meio de sátiras, as figuras políticas dominantes em
nosso meio: o comunista coletivista, o fascista manipulador, o liberal reacionário,
o “cacique autoritário”, acusando-os de intoxicar e embrutecer a opinião pública
com as suas eternas ilusões. E por fim, sendo advogado o autor do poema, não
haveria como deixar de evocar a tradição do direito romano, idem, da filosofia estoica
e do valor da pessoa humana diante da sociedade, para enfatizar o lastro
daquela herança civilizacional, pautada pelos princípios da razão e da lei.
J.A.R. – H.C.
Gilberto Amado
(1887-1969)
Declaração de princípio
Que o homem de classe
Venha de face
Lutar na liça
Pela justiça
Aceito a premissa.
Que grite o operário
Seu ódio gregário
E clame vingança
Ou tenha esperança,
Que o técnico indique
A indústria fabrique
A máquina construa
A obra que é sua.
Mas que tal não
implique
Que o operário
abdique
No Estado-Patrão
E se estagne num
dique
A multidão.
Que o político
Intoxique
Mistifique
Bestifique
A opinião
E prolifique
A eterna ilusão.
Que o jovem na lista
Do exército fascista
Não saia da pista
Da marcha prevista.
O comunista trabalhe
Conspire, atrapalhe
Os regimes vigentes
Nos dois continentes.
Que o liberal
Entisique
Retardatário
E de todo se aplique
A formar uma clique
Que o ossifique
Em reacionário.
Que o próprio cacique
Autoritário
Atrabiliário
Se ananique
E reivindique
Lugar seguro
Num quarto escuro
Do falanstério
Totalitário.
Que mesmo se oblique
E. se arrebique
Sob outra forma
A solução
E se propague
E. tudo alague
A grande abusão:
“Morra o individuo
Execrável resíduo!”’
Este credo vão
Não o aceito, não.
Inflexível, sereno
Não bebo o veneno.
Declaro com calma:
Guardo minha alma
Herdada de Roma
Morro com ela.
Esta parcela
Não entra na soma.
Retrato de um homem
(Erich Heckel: pintor
alemão)
Referência:
AMADO, Gilberto. Declaração de princípio. In: __________. Poesias. Rio de Janeiro, RJ: Livraria José Olympio Editora, 1954. p. 223-227.
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