Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

José Nunes de Sousa - Mário de Sá-Carneiro

Nesta sinfonia em prosa, Nunes presta homenagem póstuma ao seu compatriota, o também poeta Mário de Sá-Carneiro – morto muito jovem, por suicídio, na cidade de Paris (FR) –, transmutando o seu trágico passamento em um triunfo metafísico e consagrando a sua obra como a imorredoura manifestação de uma alma demasiado intensa para um mundo preso à materialidade das coisas.

 

O texto, como poderá ratificar o leitor por si próprio, é carregado de metáforas sensoriais – som, luz, cor – e contrastes entre as realidades tangível e intangível, num tom reverencial e encomiástico a ressaltar o fato de que a morte de Sá-Carneiro teria tido o condão de obsequiar o reconhecimento à obra que, até aquele desenlace, levara a efeito, fazendo-lhe justiça – ainda que tardia.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Nunes de Sousa

(1848-1924)

 

Mário de Sá-Carneiro

 

Sentir, ser a Alma a lira onde o sentimento dedilha em vagos Sons-harmonia as Tristezas-moles ou o Ideal-luz; fazer das diversas combinações dum alfabeto palavras-pensamentos, orações-melodias; ser-se escritor na forma, mas músico na alma; cantar em estrofes-oiro a Poesia-Ideal, eis o que é Mário de Sá-Carneiro.

A sua forma tombou. Foi a enterrar-se por uma dessas manhãs loiras de Paris.

A Alma essa triunfou-se. Habita em tudo que tem som, em tudo quanto canta. Matou-se mas não foi um vencido, venceu-se. A música não é a partitura onde figuram as notas, é as mil e uma vibrações que, como chuva de oiro, nos embriagam os sentidos, nos fremem a alma.

Esse moderno Gigante talhado em colorações perturbadoras, quis ser coerente até na morte.

Quando o Artista, em arroubos de luz, proclamava do alto do seu Ideal que a morte era a libertação dessa coisa mesquinha, a matéria, algumas vezes, risos sem cor, respondiam às suas palavras. AH! como esses mesmos, como esses cérebros sem substância, devem hoje reconhecer o seu erro!

E quem sabe (?), nem talvez que o arrependimento tivesse vindo até eles.

Para muitos, o arrepender-se é já uma manifestação da alma, e duvido que eles a tenham.

A sua voluntária morte não foi só coerência. Mário estava demasiadamente acima dos que lhe chamavam doido, para que pretendesse responder-lhes com os factos.

Desgraçadamente foi preciso que Mário de Sá-Carneiro transpusesse o portal para além do qual tudo é Mistério, para que se lhe fizesse justiça, para que ao reduzido número dos seus admiradores de sempre, se viesse juntar o culto dos que só tiveram lábios para sorrir.

Mário foi logo de princípio um requintado Cantor das Melodias da Alma.

A sua obra aí está a atestar o seu Génio. Nada dele se compreenderá se o não soubermos sentir. Ele está tão estreitamente ligado às suas produções que, em cada verso, em cada bocado da sua prosa quente de Ideal, está preso um farrapo da sua Alma.

Se lerdes toda a sua Obra, se o souberdes interpretar, à medida que a fordes passando em revista, haveis de sentir, como eu sinto e como um sonho vago e doirado, os costumes do seu espírito de músico, dando vida, aos poucos, àqueles caracteres negros que a mão, hoje inerte, traçou.

É a Alma do Mário que, como sempre, se levanta em fé na sua Obra e nos vem murmurar, muito de manso, sinfonias da luz, cânticos de irreal.

A Alma de Sá-Carneiro, é o cadinho onde a vida prosaica e material se destila em centelhas de Poesia e de Sentimento.

Os seus livros foram aqui lidos.

Ao contacto dos nossos corações inda exuberantes desse fogo mourisco, que nos circula nas artérias, as nossas almas vibraram em uníssono com a do grande Artista, o perfume antigo das suas estrofes acordaram os ecos do nosso sentimento e então, um punhado de modestos artistas pela Alma, juntou-se à volta do Astro-Rei para melhor poder receber o calor que brota de lá a jorros.

Balbuciámos a princípio não porque tivéssemos receio das opiniões da outra gente, mas sim porque o nosso culto pela Obra de Sá-Carneiro, embora grande, não tinha ainda atingido a maturação necessária, porque a Lua que dela irradia, era demasiadamente intensa para nós, pobres espíritos, pouco afectos às colorações astrais.

Ao traçar estas desconchavadas linhas, as ensaiar estes hesitantes passos arreceio-me tanto de nada dizer do Mestre que me fenece a coragem para continuar. As nossas almas só sabem curvar-se humildes e respeitosas perante essa Outra que é tão Grande, tão Ideal e tão Nobre que só ao de leve a compreendemos.

O nosso respeito pelo querido Morto é tão concreto, que só nos é dado ajoelhar ante a sua sepultura e reter no coração o fogo irreal que ela nos emprestou.

 

Faro, 18-2-1917.

 

Mário de Sá-Carneiro

(1890-1916)

 

Referência:

 

NUNES DE SOUSA, José. Mário de Sá-Carneiro. In: JÚDICE, Nuno (Seleção e Prefácio). Poesia futurista portuguesa. 2. ed. Lisboa, PT: Vega Edições, 1993. p. 131-133. (Coleção “O chão da palavra / Poesia”)

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