Desenvolvidos como uma
pequena fábula ou parábola, estes versos de Alvi – poetisa anglo-paquistanesa –
ocupa-se das representações que costumamos ter de uma pedra – de algo imutável,
eterno, afônico –, mas que, em determinado momento da história, resolver
fazer-se ouvir, mesmo que de fora titubeante, para vencer de vez o seu milenar silêncio.
E a mensagem que emite
– breve, com um quê de paradoxal e enigmático – tem na linha “Tornemo-nos
indiferentes à indiferença” o máximo de ênfase, caso a interpretemos como um chamado
à negação ativa da apatia, de um rechaço à passividade, num mundo onde a
indiferença humana possibilita o alastramento generalizado do mal, de guerras,
de abusos, de extermínios – como aquele a que está exposto o povo palestino.
Alvi, mesmo sem
descrever a guerra, emprega-a como um dos catalisadores necessários para tal
despertar, porquanto o que dela resulta – um nível de destruição tão absoluto a
alterar a ordem natural das coisas – somente tem o dom de arrastar a humanidade
ao caos das sociedades fraturadas, muito mais facilmente insensibilizadas e
manipuladas aos interesses de uma minoria.
J.A.R. – H.C.
Moniza Alvi
(n. 1954)
How the Stone Found
Its Voice
We had waited through
so many lifetimes
for the stone to
speak, wondered if
it would make
compelling pronouncements,
anything worth
writing down.
Then after the war of
wars
had ground to a
shattering halt, the stone
emitted a small
grinding sound rather like
the clearing of a
throat.
‘Let us be
indifferent to indifference’,
the stone said.
And then the world
spoke.
In: “How the Stone
Found Its Voice” (2005)
Paisagem no Maine
(Adam Leveille: pintor
norte-americano)
Como a Pedra
Encontrou a Sua Voz
Havíamos esperado ao
longo de tantas vidas
para que a pedra
falasse, perguntando-nos
se faria pronunciamentos
convincentes,
algo que valesse a
pena registrar.
Então, depois que a
guerra das guerras
chegou a um fim estarrecedor,
a pedra
emitiu um pequeno som
rangente,
semelhante a um
pigarro.
“Tornemo-nos indiferentes à indiferença”,
disse a pedra.
E então o mundo tomou
a palavra.
Em: “Como a Pedra
Encontrou a Sua Voz” (2005)
Referência:
MONZI, Moniza. How the stone found its voice. In: __________. Split word: poems (1990-2005). Tarset, Northumberland (EN): Bloodaxe Books, 2008. p. 260.
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