Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Moniza Alvi - Como a Pedra Encontrou a Sua Voz

Desenvolvidos como uma pequena fábula ou parábola, estes versos de Alvi – poetisa anglo-paquistanesa – ocupa-se das representações que costumamos ter de uma pedra – de algo imutável, eterno, afônico –, mas que, em determinado momento da história, resolver fazer-se ouvir, mesmo que de fora titubeante, para vencer de vez o seu milenar silêncio.

 

E a mensagem que emite – breve, com um quê de paradoxal e enigmático – tem na linha “Tornemo-nos indiferentes à indiferença” o máximo de ênfase, caso a interpretemos como um chamado à negação ativa da apatia, de um rechaço à passividade, num mundo onde a indiferença humana possibilita o alastramento generalizado do mal, de guerras, de abusos, de extermínios – como aquele a que está exposto o povo palestino.

 

Alvi, mesmo sem descrever a guerra, emprega-a como um dos catalisadores necessários para tal despertar, porquanto o que dela resulta – um nível de destruição tão absoluto a alterar a ordem natural das coisas – somente tem o dom de arrastar a humanidade ao caos das sociedades fraturadas, muito mais facilmente insensibilizadas e manipuladas aos interesses de uma minoria.

 

J.A.R. – H.C.

 

Moniza Alvi

(n. 1954)

 

How the Stone Found Its Voice

 

We had waited through so many lifetimes

for the stone to speak, wondered if

 

it would make compelling pronouncements,

anything worth writing down.

 

Then after the war of wars

had ground to a shattering halt, the stone

 

emitted a small grinding sound rather like

the clearing of a throat.

 

‘Let us be indifferent to indifference’,

the stone said.

 

And then the world spoke.

 

In: “How the Stone Found Its Voice” (2005)

 

Paisagem no Maine

(Adam Leveille: pintor norte-americano)

 

Como a Pedra Encontrou a Sua Voz

 

Havíamos esperado ao longo de tantas vidas

para que a pedra falasse, perguntando-nos

 

se faria pronunciamentos convincentes,

algo que valesse a pena registrar.

 

Então, depois que a guerra das guerras

chegou a um fim estarrecedor, a pedra

 

emitiu um pequeno som rangente,

semelhante a um pigarro.

 

“Tornemo-nos indiferentes à indiferença”,

disse a pedra.

 

E então o mundo tomou a palavra.

 

Em: “Como a Pedra Encontrou a Sua Voz” (2005)

 

Referência:

 

MONZI, Moniza. How the stone found its voice. In: __________. Split word: poems (1990-2005). Tarset, Northumberland (EN): Bloodaxe Books, 2008. p. 260.

 

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