Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

W. B. Yeats - A deserção dos animais do circo

Num tom sobranceiramente autorreflexivo, Yeats apresenta-nos nestes versos uma espécie de testamento poético, num olhar retrospectivo e desencantado sobre a sua própria carreira de escritor e o correspondente processo de criação, agora marcado por uma sensação de esgotamento e de regresso forçoso às cruas realidades da vida.

 

Redigido pouco antes do falecimento do poeta já em idade avançada – aos 73 anos –, o poema revela Yeats a desmontar o seu próprio circo, fazendo alusões à engenhosa maquinaria por trás dos “animais do circo” – símbolos, mitos, personagens arquetípicos e temas elaborados – que povoaram as suas criações ao longo de décadas.

 

Obviamente que não se trata de um rechaço da sua obra, senão uma aceitação melancólica de sua origem, vale dizer, induzida pelos detritos de rua e refugos da experiência bruta: a seu ver, com efeito, a matéria-prima da arte não seria exatamente nobre, mas toda a miséria emocional e confusão que se passa numa vida humana – memória, trauma, ciúme, desejo não realizado, raiva, até mesmo luxúria.

 

Destarte, a escada metafórica que lhe permitia subir acima dessa miséria e criar beleza – a imaginação e os amplos recursos da arte da palavra – são águas passadas: os “animais” o abandonaram por deserção, forçando o poeta a entrar em acordo com a único recurso que lhe resta – o coração –, essa “nauseante loja de ossos e trapos” da emoção.

 

J.A.R. – H.C.

 

W. B. Yeats

(1865-1939)

 

The circus animals’ desertion

 

1

 

I sought a theme and sought for it in vain,

I sought it daily for six weeks or so.

Maybe at last being but a broken man

I must be satisfied with my heart, although

Winter and summer till old age began

My circus animals were all on show,

Those stilted boys, that burnished chariot,

Lion and woman and the Lord knows what.

 

2

 

What can I but enumerate old themes,

First that sea-rider Oisin led by the nose

Through three enchanted islands, allegorical dreams,

Vain gaiety, vain battle, vain repose,

Themes of the embittered heart, or so it seems,

That might adorn old songs or courtly shows;

But what cared I that set him on to ride,

I, starved for the bosom of his fairy bride.

 

And then a counter-truth filled out its play,

The Countess Cathleen was the name I gave it,

She, pity-crazed, had given her soul away

But masterful Heaven had intervened to save it.

I thought my dear must her own soul destroy

So did fanaticism and hate enslave it,

And this brought forth a dream and soon enough

This dream itself had all my thought and love.

 

And when the Fool and Blind Man stole the bread

Cuchulain fought the ungovernable sea;

Heart mysteries there, and yet when all is said

It was the dream itself enchanted me:

Character isolated by a deed

To engross the present and dominate memory.

Players and painted stage took all my love

And not those things that they were emblems of.

 

3

 

Those masterful images because complete

Grew in pure mind but out of what began?

A mound of refuse or the sweepings of a street,

Old kettles, old bottles, and a broken can,

Old iron, old bones, old rags, that raving slut

Who keeps the till. Now that my ladder’s gone

I must lie down where all the ladders start

In the foul rag and bone shop of the heart.

 

Estratagemas do Espírito

Série “A deserção dos animais do circo”

(Dianne Blell: artista norte-americana)

 

A deserção dos animais do circo

 

1

 

Busquei um tema que não foi achado;

Por seis semanas procurei, ou mais.

Talvez eu pare enfim, velho e alquebrado,

Mesmo sabendo que meus animais,

Verão e inverno, até chegar a idade,

Tenham estado todos em cartaz:

Jovens pomposos, reluzente biga,

O leão e a mulher, e Deus que o diga. (1)

 

2

 

Que mais que velhos temas lembraria?

Primeiro Oisín, levado de roldão (2)

Por ilhas e visões de alegoria,

Prazer vão, luta vã, repouso vão,

Temas do amargo coração, diria,

Próprios de verso antigo e cortesão;

Mas que importava a mim que o pus na estrada

E só queria o peito de sua amada?

 

E A Condessa Cathleen desponta agora

Com a contraverdade a encher a peça; (3)

Louca de pena, joga sua alma fora,

Embora o Céu imperioso o impeça.

Com todo o fanatismo que a devora,

Julguei meu bem capaz de ação como essa,

E isso gerou um sonho e, de repente,

Ocupou-me tal sonho o amor e a mente.

 

E quando o pão roubaram Cego e Idiota, (4)

Cuchulain combateu o mar medonho;

Mistérios que há no coração; de fato

Encantou-me, porém, o próprio sonho:

Um caráter marcado por um ato

Que ergue o presente e que a memória ganha.

Palcos e atores foram meus problemas,

Não as coisas de que eram os emblemas.

 

3

 

Se a imagem imperiosa, em si completa,

Cresce na mente, de onde é originada?

De rua suja e monte de detrito,

Lata velha, chaleira arrebentada,

Ferro, ossos, trapos, a rampeira abjeta

A controlar a caixa. Sem a escada,

Fico onde toda escada sai do chão,

Na loja de osso e trapo da emoção.

 

Notas do Tradutor (Paulo Vizioli):

 

(1). Entre os antigos temas do poeta, “os animais do circo” fugitivos, recorda ele os heróis gaélicos que recriou nas primeiras obras (“jovens pomposos”), a biga reluzente de Cuchulain (pronuncia-se cuhúlin), e a esfinge (“o leão e a mulher”) que aparece em vários poemas, como “Against unworthy praise” e “The double vision of Michael Robartes”. (YEATS, 1992, p. 152)

 

(2). Primeiro Oisín: a história de Oísin (pronuncia-se uchín) foi resumida no início da Introdução. (YEATS, 1992, p. 153)

 

(3). A Condessa Cathleen: essa peça oferece a “contraverdade” porque, em lugar de narrar a busca da satisfação íntima como em Oisín, mostra o caminho da renúncia, com a história de uma condessa que oferece a alma ao diabo para salvar o seu povo da fome. O céu, no final, impede o sacrifício. (YEATS, 1992, p. 153)

 

(4). Cego e Idiota: duas personagens da peça On Baile’s Strand, a mesma em que Cuchulain morre lutando contra o mar. (YEATS, 1992, p. 153)

 

Referência:

 

YEATS, W. B. The circus animals’ desertion / A deserção dos animais do circo. Tradução de Paulo Viozioli. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de Paulo Vizioli. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1992. Em inglês: p. 140 e 142; em português: p. 141 e 143.

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