Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Augusto Meyer - O poema

Eis mais uma reflexão metalinguística sobre o poder da palavra poética sedimentada no poema, a se erigir como um elemento capaz de vencer a corrosão inevitável do tempo sobre o labirinto de ecos e de reflexos da memória, com o firme propósito de resgatar a essência mais pura de um dado momento, para eternizá-lo num “fruto de aroma misterioso”.

 

É a arte dando sentido à nossa fugaz existência, redimindo-a do olvido pela preservação de nossas lembranças, quer imagéticas quer sensoriais, consolidando-as numa moldura expressiva a albergar o âmago daquilo que se evoca, vale dizer, a verdade cristalizada de um instante que, porventura, vale a pena reter enquanto por aqui estivermos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Meyer

(1902-1970)

 

O poema

 

Corredor do tempo esquecido

Onde o eco responde ao eco,

Em vez de janelas, reflexo

De espelho a espelho, refletido.

 

Que passos repisando passos

Parados vão? A horas mortas,

Fria, uma presença esvoaça

De leves dedos, que abrem portas.

 

Longo é o caminho. Em qualquer parte

Rei dos Ratos rói os brinquedos.

Dos quatro cantos, lá no quarto

Sombras cochicham os teus segredos.

 

Onde a janela que se abria

Ao pôr do sol? Andando em frente,

Andando, andando, eu tocaria

No fim da terra, o ouro do poente.

 

Iriavam-se os cristais do lustre,

Na sala escura o espelho que arde!

Pulava a cortina, de susto,

Ao primeiro sopro da tarde.

 

Mas tudo agora é tão distante!

O rato rói o fio da história.

Só o arrepio de um instante

Sobe a surdina da memória...

 

Súbito, a hora morta no tempo

Amadurece como um fruto!

No misterioso aroma, o poema

Recolhe a essência de um minuto.

 

Parlenga de taverna

(Claus Meyer: pintor alemão)

 

Referência:

 

MEYER, Augusto. O poema. In: __________. Poesias: 1922-1955. Rio de Janeiro, RJ: Livraria São José Editora, 1957. p. 260-261.

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