Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Elizabeth Bishop - Poema

Bishop, através de sua lente poética, faz-nos ver como a arte, mesmo a mais modesta, pode atuar como uma cápsula do tempo emocional, atravessando décadas e conectando vidas e olhares de pessoas que nunca se conheceram pessoalmente: o poema, tal como a pintura que descreve, captura e preserva uma cena campestre num espaço diminuto, demonstrando que a verdadeira grandeza reside, muitas vezes, nos mínimos – e aparentemente insignificantes – detalhes.

 

Há quem possa ver neste poema da poetisa norte-americana um exemplar de écfrase – a descrição poética de uma obra de arte visual –, no caso, um quadro minúsculo, sem valor comercial, pintado por um tio-avô famoso da Nova Escócia e que lhe foi legado por um outro tio. Mas o que sobressai dos versos é, de fato, a ênfase na fronteira tênue entre a arte e a própria vida, dito de outro modo, na fusão da visão do artista e das recordações da poetisa sobre o mesmo lugar retratado na pintura, com o que se compendia, à apreciação do leitor, a exata dimensão do pouco que permanece no tempo a representar atilhos entre as várias gerações de uma mesma linhagem familiar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Elizabeth Bishop

(1911-1979)

 

Poem

 

About the size of an old-style dollar bill,

American or Canadian,

mostly the same whites, gray greens, and steel grays

– this little painting (a sketch for a larger one?)

has never earned any money in its life.

Useless and free, it has spent seventy years

as a minor family relic

handed along collaterally to owners

who looked at it sometimes, or didn’t bother to.

 

It must be Nova Scotia; only there

does one see gabled wooden houses

painted that awful shade of brown.

The other houses, the bits that show, are white.

Elm trees, low hills, a thin church steeple

– that gray-blue wisp – or is it? In the foreground

a water meadow with some tiny cows,

two brushstrokes each, but confidently cows;

two minuscule white geese in the blue water,

back-to-back, feeding, and a slanting stick.

Up closer, a wild iris, white and yellow,

fresh-squiggled from the tube.

The air is fresh and cold; cold early spring

clear as gray glass; a half inch of blue sky

below the steel-gray storm clouds.

(They were the artist’s specialty.)

A specklike bird is flying to the left.

Or is it a flyspeck looking like a bird?

 

Heavens, I recognize the place, I know it!

It’s behind – I can almost remember the farmer’s name

His barn backed on that meadow. There it is,

titanium white, one dab. The hint of steeple,

filaments of brush-hairs, barely there,

must be the Presbyterian church.

Would that be Miss Gillespie’s house?

Those particular geese and cows

are naturally before my time.

 

A sketch done in an hour, “in one breath,”

once taken from a trunk and handed over.

Would you like this? I’ll probably never

have room to hang these things again.

Your Uncle George, no, mine, my Uncle George,

he’d be your great-uncle, left them all with Mother

when he went back to England.

You know, he was quite famous, an R.A....

 

I never knew him. We both knew this place,

apparently, this literal small backwater,

looked at it long enough to memorize it,

our years apart. How strange. And it’s still loved,

or its memory is (it must have changed a lot).

Our visions coincided – “visions” is

too serious a word – our looks, two looks:

art “copying from life” and life itself,

life and the memory of it so compressed

they’ve turned into each other. Which is which?

Life and the memory of it cramped,

dim, on a piece of Bristol board,

dim, but how live, how touching in detail

– the little that we get for free,

the little of our earthly trust. Not much.

About the size of our abidance

along with theirs: the munching cows,

the iris, crisp and shivering, the water

still standing from spring freshets,

the yet-to-be-dismantled elms, the geese.

 

In: “Geography III” (1976)

 

Cena Pastoral

(Jan Siberechts: pintor flamengo)

 

Poema

 

Mais ou menos do tamanho de uma nota antiga de um dólar

americano ou canadense,

basicamente os mesmos tons de branco, verde-cinza e cinza-aço

– essa pequena pintura (estudo para outra maior?)

jamais ganhou dinheiro na vida.

Inútil e livre, viveu setenta anos

como uma relíquia de família sem valor

passada adiante a proprietários

que ora olhavam para ela às vezes, ora nem isso.

 

Deve ser a Nova Escócia; só lá

há casas de madeira com cumeeiras

pintadas desse tom horrendo de marrom.

As outras casas, o que delas se vê, são brancas.

Olmos, morros baixos, um fino pináculo de igreja

– aquele traço azulado – ou não? No primeiro plano

uma várzea com vaquinhas mínimas,

duas pinceladas cada, mas são vacas com certeza;

dois minúsculos gansos brancos na água azul,

um de costas para o outro, comendo, e um pau inclinado.

Mais de perto, um íris silvestre, branco e amarelo,

recém-espremido do tubo de tinta.

O ar é limpo e frio; início de primavera, fria

e límpida como um vidro cinzento; um centímetro de céu azul

sob as nuvens carregadas cinza-aço.

(Elas eram o forte deste artista.)

Uma ave que parece um cocô de mosca voa para a esquerda.

Ou será um cocô de mosca que parece uma ave?

 

Meu Deus, reconheço este lugar, eu estive lá!

Fica atrás – quase recordo o nome do fazendeiro.

Essa várzea ficava atrás do celeiro. Lá está ele,

branco de titânio, uma pincelada. O esboço de pináculo,

filamentos de pincel, quase invisíveis,

deve ser a igreja presbiteriana.

E aquilo lá, seria a casa da sra. Gillespie?

Aqueles gansos e vacas específicos

não são, é claro, do meu tempo.

 

Um esboço feito em uma hora, “num só fôlego”,

tirado de um baú e dado a alguém.

Quer pra você? Acho que eu nunca mais

vou ter espaço pra pendurar essas coisas.

O seu tio George, não, era meu tio,

de você seria tio-avô, deixou tudo com a mamãe

quando voltou pra Inglaterra.

Ele era até famoso, sabe, da Real Academia...

 

Não o conheci. Nós dois conhecemos este lugar,

ao que parece, esse pequeno cafundó,

e o contemplamos o bastante para guardá-lo na memória,

em duas épocas diversas. É estranho. E ele ainda é amado,

ou melhor, sua lembrança (o lugar terá mudado muito).

Nossas visões coincidiram – “visões” é

uma palavra séria demais – nossos olhares, dois olhares:

a arte “copiando o real” e o próprio real,

a vida e sua memória de tal forma comprimidas

que uma vira a outra. Qual é qual?

A vida e sua memória amontoadas,

vagas, num pedaço de cartolina,

vagas, mas tão vivas, tão tocantes em detalhe

– o pouco que ganhamos de graça,

o pouco que o mundo nos confere. Pouco, mesmo.

Mais ou menos do tamanho de nossa permanência

e da deles: das vacas a pastar,

dos íris, nítidos, a estremecer, da água

ainda fresca do degelo primaveril,

os olmos ainda não derrubados, os gansos.

 

Em: “Geografia III” (1976)

 

Referência:

 

BISHOP, Elizabeth. Poem / Poema. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Edição bilíngue. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. 1. ed. 2. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2012. Em inglês: p. 358 e 360; em português: p. 359 e 361.

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