Bishop, através de
sua lente poética, faz-nos ver como a arte, mesmo a mais modesta, pode atuar
como uma cápsula do tempo emocional, atravessando décadas e conectando vidas e
olhares de pessoas que nunca se conheceram pessoalmente: o poema, tal como a
pintura que descreve, captura e preserva uma cena campestre num espaço
diminuto, demonstrando que a verdadeira grandeza reside, muitas vezes, nos mínimos
– e aparentemente insignificantes – detalhes.
Há quem possa ver neste
poema da poetisa norte-americana um exemplar de écfrase – a descrição poética
de uma obra de arte visual –, no caso, um quadro minúsculo, sem valor
comercial, pintado por um tio-avô famoso da Nova Escócia e que lhe foi legado
por um outro tio. Mas o que sobressai dos versos é, de fato, a ênfase na
fronteira tênue entre a arte e a própria vida, dito de outro modo, na fusão da
visão do artista e das recordações da poetisa sobre o mesmo lugar retratado na
pintura, com o que se compendia, à apreciação do leitor, a exata dimensão do
pouco que permanece no tempo a representar atilhos entre as várias gerações de uma mesma linhagem familiar.
J.A.R. – H.C.
Elizabeth Bishop
(1911-1979)
Poem
About the size of an
old-style dollar bill,
American or Canadian,
mostly the same
whites, gray greens, and steel grays
– this little painting
(a sketch for a larger one?)
has never earned any
money in its life.
Useless and free, it
has spent seventy years
as a minor family
relic
handed along
collaterally to owners
who looked at it
sometimes, or didn’t bother to.
It must be Nova
Scotia; only there
does one see gabled
wooden houses
painted that awful
shade of brown.
The other houses, the
bits that show, are white.
Elm trees, low hills,
a thin church steeple
– that gray-blue wisp
– or is it? In the foreground
a water meadow with
some tiny cows,
two brushstrokes
each, but confidently cows;
two minuscule white
geese in the blue water,
back-to-back,
feeding, and a slanting stick.
Up closer, a wild
iris, white and yellow,
fresh-squiggled from
the tube.
The air is fresh and
cold; cold early spring
clear as gray glass;
a half inch of blue sky
below the steel-gray
storm clouds.
(They were the
artist’s specialty.)
A specklike bird is
flying to the left.
Or is it a flyspeck
looking like a bird?
Heavens, I recognize
the place, I know it!
It’s behind – I can
almost remember the farmer’s name
His barn backed on
that meadow. There it is,
titanium white, one
dab. The hint of steeple,
filaments of
brush-hairs, barely there,
must be the
Presbyterian church.
Would that be Miss Gillespie’s
house?
Those particular
geese and cows
are naturally before
my time.
A sketch done in an
hour, “in one breath,”
once taken from a
trunk and handed over.
Would you like this?
I’ll probably never
have room to hang
these things again.
Your Uncle George,
no, mine, my Uncle George,
he’d be your
great-uncle, left them all with Mother
when he went back to
England.
You know, he was
quite famous, an R.A....
I never knew him. We
both knew this place,
apparently, this
literal small backwater,
looked at it long
enough to memorize it,
our years apart. How
strange. And it’s still loved,
or its memory is (it
must have changed a lot).
Our visions coincided
– “visions” is
too serious a word –
our looks, two looks:
art “copying from
life” and life itself,
life and the memory
of it so compressed
they’ve turned into
each other. Which is which?
Life and the memory
of it cramped,
dim, on a piece of
Bristol board,
dim, but how live,
how touching in detail
– the little that we
get for free,
the little of our
earthly trust. Not much.
About the size of our
abidance
along with theirs:
the munching cows,
the iris, crisp and
shivering, the water
still standing from
spring freshets,
the
yet-to-be-dismantled elms, the geese.
In: “Geography III”
(1976)
Cena Pastoral
(Jan Siberechts: pintor
flamengo)
Poema
Mais ou menos do
tamanho de uma nota antiga de um dólar
americano ou
canadense,
basicamente os mesmos
tons de branco, verde-cinza e cinza-aço
– essa pequena
pintura (estudo para outra maior?)
jamais ganhou
dinheiro na vida.
Inútil e livre, viveu
setenta anos
como uma relíquia de
família sem valor
passada adiante a
proprietários
que ora olhavam para
ela às vezes, ora nem isso.
Deve ser a Nova
Escócia; só lá
há casas de madeira
com cumeeiras
pintadas desse tom
horrendo de marrom.
As outras casas, o
que delas se vê, são brancas.
Olmos, morros baixos,
um fino pináculo de igreja
– aquele traço
azulado – ou não? No primeiro plano
uma várzea com vaquinhas
mínimas,
duas pinceladas cada,
mas são vacas com certeza;
dois minúsculos
gansos brancos na água azul,
um de costas para o
outro, comendo, e um pau inclinado.
Mais de perto, um
íris silvestre, branco e amarelo,
recém-espremido do
tubo de tinta.
O ar é limpo e frio;
início de primavera, fria
e límpida como um
vidro cinzento; um centímetro de céu azul
sob as nuvens
carregadas cinza-aço.
(Elas eram o forte
deste artista.)
Uma ave que parece um
cocô de mosca voa para a esquerda.
Ou será um cocô de
mosca que parece uma ave?
Meu Deus, reconheço
este lugar, eu estive lá!
Fica atrás – quase
recordo o nome do fazendeiro.
Essa várzea ficava
atrás do celeiro. Lá está ele,
branco de titânio,
uma pincelada. O esboço de pináculo,
filamentos de pincel,
quase invisíveis,
deve ser a igreja
presbiteriana.
E aquilo lá, seria a
casa da sra. Gillespie?
Aqueles gansos e
vacas específicos
não são, é claro, do
meu tempo.
Um esboço feito em
uma hora, “num só fôlego”,
tirado de um baú e
dado a alguém.
Quer pra você? Acho
que eu nunca mais
vou ter espaço pra
pendurar essas coisas.
O seu tio George,
não, era meu tio,
de você seria
tio-avô, deixou tudo com a mamãe
quando voltou pra
Inglaterra.
Ele era até famoso,
sabe, da Real Academia...
Não o conheci. Nós
dois conhecemos este lugar,
ao que parece, esse
pequeno cafundó,
e o contemplamos o
bastante para guardá-lo na memória,
em duas épocas
diversas. É estranho. E ele ainda é amado,
ou melhor, sua
lembrança (o lugar terá mudado muito).
Nossas visões
coincidiram – “visões” é
uma palavra séria
demais – nossos olhares, dois olhares:
a arte “copiando o
real” e o próprio real,
a vida e sua memória
de tal forma comprimidas
que uma vira a outra.
Qual é qual?
A vida e sua memória
amontoadas,
vagas, num pedaço de cartolina,
vagas, mas tão vivas,
tão tocantes em detalhe
– o pouco que
ganhamos de graça,
o pouco que o mundo
nos confere. Pouco, mesmo.
Mais ou menos do
tamanho de nossa permanência
e da deles: das vacas
a pastar,
dos íris, nítidos, a
estremecer, da água
ainda fresca do
degelo primaveril,
os olmos ainda não
derrubados, os gansos.
Em: “Geografia III”
(1976)
Referência:
BISHOP, Elizabeth. Poem / Poema. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Edição bilíngue. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. 1. ed. 2. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2012. Em inglês: p. 358 e 360; em português: p. 359 e 361.
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