Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Alejandra Pizarnik - O desejo da palavra

A palavra desejada, aquela que seria capaz de unir êxtase e vida, revela-se como inalcançável para a falante. E, paradoxalmente, o poema configura o território onde se trava essa batalha perdida, onde a voz poética exprime com requintada precisão linguística, a sua incapacidade de alcançar a dicção perfeita.

 

Vê-se na infratranscrita composição um diálogo interno fragmentado, no qual a autora argentina dá-nos conta do estado claustrofóbico de sua mente, subjugada pelo silêncio dos muros e pelo eco das meninas de papel que foi um dia, apegada às aspirações de um ideal poético de fusão total com a vida – a vida igualar-se ao poema, o poema ser o próprio corpo vivido –, num empenho dubitável para tornar a palavra carne e salvação.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alejandra Pizarnik

(1936-1972)

 

El deseo de la palabra

 

La noche, de nuevo la noche, la magistral sapiencia de lo oscuro, el cálido roce de la muerte, un instante de éxtasis para mí, heredera de todo jardín prohibido.

 

Pasos y voces del lado sombrío del jardín. Risas en el interior de las paredes. No vayas a creer que están vivos. No vayas a creer que no están vivos. En cualquier momento la fisura en la pared y el súbito desbandarse de las niñas que fui.

 

Caen niñas de papel de variados colores. ¿Hablan los colores? ¿Hablan las imágenes de papel? Solamente hablan las doradas y de ésas no hay ninguna por aquí.

 

Voy entre muros que se acercan, que se juntan. Toda la noche hasta la aurora salmodiaba: Si no vino es porque no vino. Pregunto. ¿A quién? Dice que pregunta, quiere saber a quién pregunta. Tú ya no hablas com nadie. Extranjera a muerte está muriéndose. Otro es el lenguaje de los agonizantes.

 

He malgastado el don de transfigurar a los prohibidos (los siento respirar adentro de las paredes). Imposible narrar mi día, mi vía. Pero contempla absolutamente sola la desnudez de estos muros. Ninguna flor crece ni crecerá del milagro. A pan y agua toda la vida.

 

En la cima de la alegría he declarado acerca de una música jamás oída. ¿Y qué? Ojalá pudiera vivir solamente en éxtasis, haciendo el cuerpo del poema con mi cuerpo, rescatando cada frase con mis días y con mis semanas, infundiéndole al poema mi soplo a medida que cada letra de cada palabra haya sido sacrificada en las ceremonias del vivir.

 

En: “El infierno musical” (1971)

 

Moça no bosque

(Teresa Evangeline: artista norte-americana)

 

O desejo da palavra

 

A noite, de novo a noite, a magistral sapiência das trevas, o cálido roçar da morte, um instante de êxtase para mim, herdeira de todos os jardins proibidos.

 

Passos e vozes no lado sombreado do jardim. Risos no interior das paredes. Não vás acreditar que estejam vivos. Não vás acreditar que não estejam vivos. A qualquer momento, a fenda na parede e a repentina dispersão das meninas que eu fui.

 

Caem meninas de papel de várias cores. As cores falam? As imagens de papel falam? Somente falam as douradas e, dessas, não há nenhuma por aqui.

 

Vou entre muros que se aproximam, que se juntam. Durante toda a noite, até a aurora, eu salmodiava: Se não veio, é porque não veio. Pergunto. A quem? Diz que pergunta, quer saber a quem pergunta. Tu já não falas com ninguém. Estrangeira até à morte, está morrendo. Outra é a linguagem dos agonizantes.

 

Desperdicei o dom de transfigurar os banidos (sinto-os a respirar dentro das paredes). Impossível narrar o meu dia, o meu caminho. Mas contempla, absolutamente sozinha, a nudez destes muros. Nenhuma flor cresce nem crescerá do milagre. A pão e água toda a vida.

 

No cume da alegria, dei testemunho acerca de uma música jamais ouvida. E daí? Oxalá pudesse viver somente em êxtase, fazendo o corpo do poema com meu corpo, resgatando cada frase com os meus dias e as minhas semanas, infundindo o meu sopro ao poema, à medida que cada letra de cada palavra fosse sacrificada nas cerimônias do viver.

 

Em: “O inferno musical” (1971)

 

Referência:

 

PIZARNIK, Alejandra. El deseo de la palabra. In: __________. Obras selectas. Selección y compilación de Gustavo Zuluaga Herrera. Medellín, CO: Ediciones Holderlin, 1992. p. 97-102.

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