A palavra desejada,
aquela que seria capaz de unir êxtase e vida, revela-se como inalcançável para
a falante. E, paradoxalmente, o poema configura o território onde se trava essa
batalha perdida, onde a voz poética exprime com requintada precisão
linguística, a sua incapacidade de alcançar a dicção perfeita.
Vê-se na infratranscrita
composição um diálogo interno fragmentado, no qual a autora argentina dá-nos
conta do estado claustrofóbico de sua mente, subjugada pelo silêncio dos muros
e pelo eco das meninas de papel que foi um dia, apegada às aspirações de um ideal
poético de fusão total com a vida – a vida igualar-se ao poema, o poema ser o
próprio corpo vivido –, num empenho dubitável para tornar a palavra carne e
salvação.
J.A.R. – H.C.
Alejandra Pizarnik
(1936-1972)
El deseo de la
palabra
La noche, de nuevo la
noche, la magistral sapiencia de lo oscuro, el cálido roce de la muerte, un
instante de éxtasis para mí, heredera de todo jardín prohibido.
Pasos y voces del
lado sombrío del jardín. Risas en el interior de las paredes. No vayas a creer
que están vivos. No vayas a creer que no están vivos. En cualquier momento la
fisura en la pared y el súbito desbandarse de las niñas que fui.
Caen niñas de papel
de variados colores. ¿Hablan los colores? ¿Hablan las imágenes de papel?
Solamente hablan las doradas y de ésas no hay ninguna por aquí.
Voy entre muros que
se acercan, que se juntan. Toda la noche hasta la aurora salmodiaba: Si no
vino es porque no vino. Pregunto. ¿A quién? Dice que pregunta, quiere saber
a quién pregunta. Tú ya no hablas com nadie. Extranjera a muerte está
muriéndose. Otro es el lenguaje de los agonizantes.
He malgastado el don
de transfigurar a los prohibidos (los siento respirar adentro de las paredes).
Imposible narrar mi día, mi vía. Pero contempla absolutamente sola la desnudez
de estos muros. Ninguna flor crece ni crecerá del milagro. A pan y agua toda la
vida.
En la cima de la
alegría he declarado acerca de una música jamás oída. ¿Y qué? Ojalá pudiera
vivir solamente en éxtasis, haciendo el cuerpo del poema con mi cuerpo,
rescatando cada frase con mis días y con mis semanas, infundiéndole al poema mi
soplo a medida que cada letra de cada palabra haya sido sacrificada en las
ceremonias del vivir.
En: “El infierno
musical” (1971)
Moça no bosque
(Teresa Evangeline:
artista norte-americana)
O desejo da palavra
A noite, de novo a
noite, a magistral sapiência das trevas, o cálido roçar da morte, um instante
de êxtase para mim, herdeira de todos os jardins proibidos.
Passos e vozes no
lado sombreado do jardim. Risos no interior das paredes. Não vás acreditar que
estejam vivos. Não vás acreditar que não estejam vivos. A qualquer momento, a
fenda na parede e a repentina dispersão das meninas que eu fui.
Caem meninas de papel
de várias cores. As cores falam? As imagens de papel falam? Somente falam as
douradas e, dessas, não há nenhuma por aqui.
Vou entre muros que
se aproximam, que se juntam. Durante toda a noite, até a aurora, eu salmodiava:
Se não veio, é porque não veio. Pergunto. A quem? Diz que pergunta, quer
saber a quem pergunta. Tu já não falas com ninguém. Estrangeira até à morte,
está morrendo. Outra é a linguagem dos agonizantes.
Desperdicei o dom de
transfigurar os banidos (sinto-os a respirar dentro das paredes). Impossível
narrar o meu dia, o meu caminho. Mas contempla, absolutamente sozinha, a nudez
destes muros. Nenhuma flor cresce nem crescerá do milagre. A pão e água toda a
vida.
No cume da alegria,
dei testemunho acerca de uma música jamais ouvida. E daí? Oxalá pudesse viver
somente em êxtase, fazendo o corpo do poema com meu corpo, resgatando cada
frase com os meus dias e as minhas semanas, infundindo o meu sopro ao poema, à
medida que cada letra de cada palavra fosse sacrificada nas cerimônias do
viver.
Em: “O inferno musical”
(1971)
Referência:
PIZARNIK, Alejandra.
El deseo de la palabra. In: __________. Obras selectas. Selección y compilación
de Gustavo Zuluaga Herrera. Medellín, CO: Ediciones Holderlin, 1992. p. 97-102.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário