Como se fosse uma tênue
luminosidade na neblina, uma força resistiva que, de súbito, assoma da aparente
passividade, a “Decisão” do título firma-se na escolha da falante em sobreviver
mais um dia, simplesmente recusando-se a ser arrastada pela corrente do desespero
e de expectativas alheias.
Nota-se nos versos um
quadro de languidez, de alienação, de exclusão, de impotência, tão comum em
certos casos de depressão, com potencial para levar à paralisia física e
criativa, a uma incapacidade para agir que não seja tão apenas por meio de
gestos automáticos, sem maiores propósitos no irreversível transcurso dos dias.
Nenhuma epifania
sobrevém, nenhuma graça – o mundo não oferece consolo nem beleza transcendente,
senão uma sequência interminável de desgastes –, suscitando na narradora a decisão
de não agir, de não gastar energia em uma batalha em que se sente incapaz de
vencer, de não participar desse jogo de aparências e lutas inglórias.
Ou de outro modo: quem
quer que sejam os seus “doze examinadores vestidos de preto”, formação clássica
de um júri – v.g., a sociedade, a crítica literária ou as vozes internalizadas
de expectativa e de julgamento –, decide a voz lírica “desencantá-los”,
desapontá-los, não cumprir-lhes as exigências, preferindo preservar as suas forças.
J.A.R. – H.C.
Sylvia Plath
(1932-1963)
Resolve
Day of mist: day of
tarnish
with hands
unseviceable, I wait
for the milk van
the one-eared cat
laps its gray paw
and the coal fire
burns
outside, the little
hedge leaves are
become quite yellow
a milk-film blurs
the empty bottles on
the windowsill
no glory descends
two water drops poise
on the arched green
stem of my neighbor’s
rose bush
o bent bow of thorns
the cat unsheathes
its claws
the world turns
today
today I will not
disenchant my twelve
black-gowned examiners
or bunch my fist
in the wind’s sneer.
In: “Poems”
(1956-1963)
Mulher no Jardim
(Claude Monet: pintor
francês)
Decisão
Dia nublado: dia cinzento
fico
de mãos bobas
esperando o leiteiro
o gato de uma orelha
lambe a pata cinza
e ardem brasas em
chamas
lá fora, vão ficando
amarelinhas
as folhas da
trepadeira
uma fina fita de
leite
embaça garrafas
vazias na janela
nenhuma glória provém
duas gotas se
equilibram
numa verde envergada
haste da roseira na
casa ao lado
ó se arca de espinhos
o gato afia as garras
o mundo gira
hoje
hoje não irei
desiludir meus doze
engalanados examinadores
nem cerrarei meu
punho
na ironia do vento.
Em: “Poemas”
(1956-1963)
Referência:
PLATH, Sylvia. Resolve / Decisão. Tradução de Elson Fróes. In: FRÓES, Elson (Seleção e tradução). Poemas traduzidos. Edição eletrônica, copyright © Elson Fróes, 2003. Em inglês: p. 28; em português: p. 29.
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