Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 29 de agosto de 2026

Olegário Mariano - O Enamorado da Vida

Neste canto vitalista, pejado de um panteísmo sensorial, o poeta, servindo-se do mote anafórico insculpido no título do próprio poema, dá-nos algumas sugestões de como temos de viver, posicionando-nos “entre o mar e a montanha” de nossa própria existência, para possibilitar a expressão de um desejo irrefreável, a toda hora a nos incitar à ação, à liberdade e aos desafios.

Esse amor à vida leva-nos a abrir os pulmões para sorver o êxtase do mundo, a enfrentar as tormentas com a alegria de um potro selvagem, a guardar no olhar toda a beleza com que tivermos a sorte de nos deparar: são os sentidos do coração completamente abertos a uma comunhão total com o universo natural, os terrenos prazeres aí compreendidos.

J.A.R. – H.C.

 

Olegário Mariano

(1889-1958)

 

O Enamorado da Vida

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Para sentir melhor o céu na minha casa,

Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.

Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,

A lua desce em mim numa carícia estranha.

 

Bebo as estrelas de mais perto... Abraço

Todo o corpo do céu num simples movimento

E, quando chove, sinto a torrente das chuvas

Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,

Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Amo-a por tudo quanto ela me pôde dar;

A água fresca da fonte, a carícia da sombra,

E até a calma silenciosa e mansa

Desse crepúsculo que baixa devagar...

 

Em cada mão de folha a minha boca bebe

O orvalho da manhã como um suave licor.

E abro os pulmões, sorvendo em tudo o que me envolve

Essa onda de volúpia e de êxtase e perfume

Que vem do amor e que me leva para o amor.

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Tenho ímpetos de voar, de galgar, de vencer

Colinas, penetrar o coração dos vales,

Relinchando feliz como um potro selvagem

Que solta as crinas no ar para melhor correr.

 

Ou retesar as asas brancas de gaivota

E atirar-me na fúria incrível das procelas.

Beber em haustos toda a glória do mar alto,

Rolar no bojo dos batéis desarvorados

Ou as asas enxugar no alvo lenço das velas.

 

Vida! Quero viver todas as tuas horas,

As que prendi na mão e as que nunca alcancei.

Ser um pouco de ti no espelho das paisagens

Para, quando morrer, levar, dentro dos olhos,

A beleza imortal de tudo quanto amei.

 

Em: “O Enamorado da Vida” (1937)

 

Proudhon e suas filhas

(Gustave Courbet: pintor francês)

 

Referência:

 

MARIANO, Olegário. O enamorado da vida. In: __________. Poesia. Organização e prólogo de Herman Lima. Rio de Janeiro, GB: Livraria Agir Editora, 1968. p. 75-76. (Coleção “Nossos Clássicos”; v. 97)

Nenhum comentário:

Postar um comentário