Neste canto vitalista, pejado de um panteísmo sensorial, o poeta, servindo-se do mote anafórico insculpido no título do próprio poema, dá-nos algumas sugestões de como temos de viver, posicionando-nos “entre o mar e a montanha” de nossa própria existência, para possibilitar a expressão de um desejo irrefreável, a toda hora a nos incitar à ação, à liberdade e aos desafios.
Esse amor à vida leva-nos a abrir os pulmões para sorver o êxtase do mundo, a enfrentar as tormentas com a alegria de um potro selvagem, a guardar no olhar toda a beleza com que tivermos a sorte de nos deparar: são os sentidos do coração completamente abertos a uma comunhão total com o universo natural, os terrenos prazeres aí compreendidos.
J.A.R. – H.C.
Olegário Mariano
(1889-1958)
O Enamorado da Vida
Eu sou um enamorado
da Vida!
Para sentir melhor o
céu na minha casa,
Plantei a minha casa
entre o mar e a montanha.
Se as ondas vêm rugir
a meus pés, a horas mortas,
A lua desce em mim
numa carícia estranha.
Bebo as estrelas de
mais perto... Abraço
Todo o corpo do céu
num simples movimento
E, quando chove,
sinto a torrente das chuvas
Trazendo da montanha,
em seu penacho de águas,
Frondes, ninhos,
calhaus e pássaros ao vento.
Eu sou um enamorado
da Vida!
Amo-a por tudo quanto
ela me pôde dar;
A água fresca da
fonte, a carícia da sombra,
E até a calma
silenciosa e mansa
Desse crepúsculo que
baixa devagar...
Em cada mão de folha
a minha boca bebe
O orvalho da manhã
como um suave licor.
E abro os pulmões,
sorvendo em tudo o que me envolve
Essa onda de volúpia
e de êxtase e perfume
Que vem do amor e que
me leva para o amor.
Eu sou um enamorado
da Vida!
Tenho ímpetos de
voar, de galgar, de vencer
Colinas, penetrar o
coração dos vales,
Relinchando feliz
como um potro selvagem
Que solta as crinas
no ar para melhor correr.
Ou retesar as asas
brancas de gaivota
E atirar-me na fúria
incrível das procelas.
Beber em haustos toda
a glória do mar alto,
Rolar no bojo dos
batéis desarvorados
Ou as asas enxugar no
alvo lenço das velas.
Vida! Quero viver
todas as tuas horas,
As que prendi na mão
e as que nunca alcancei.
Ser um pouco de ti no
espelho das paisagens
Para, quando morrer,
levar, dentro dos olhos,
A beleza imortal de
tudo quanto amei.
Em: “O Enamorado da
Vida” (1937)
Proudhon e suas
filhas
(Gustave Courbet:
pintor francês)
Referência:
MARIANO, Olegário. O enamorado da vida. In: __________. Poesia. Organização e prólogo de Herman Lima. Rio de Janeiro, GB: Livraria Agir Editora, 1968. p. 75-76. (Coleção “Nossos Clássicos”; v. 97)
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