Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Francisco Brines - As últimas perguntas

Este poema ressoa com uma força inquietante em qualquer leitor que se haja perguntado pelo significado de sua própria jornada ao longo dos anos: eivados de certa angústia existencial, os versos apontam para um ceticismo lancinante, especialmente quando o poeta, em sua derradeira linha, emprega a condicional “como se”, dando a entender que toda uma vida de experiências, amores e dores se converte, com a morte, em uma ilusão sem quaisquer rastros.

 

Trata-se, pois, de um poema sobre a cegueira metafórica diante do desconhecido que sobrevém à morte, o que torna a sua proximidade uma derrota contundente para quem ali chegou sem haver compreendido o propósito da vida: sob a consciência da finitude, projeta-se um vazio que a tudo desvanece, sem que lhe sucedam os umbrais da eternidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Francisco Brines

(1932-2021)

 

Las últimas preguntas

 

En el acabamiento de la tarde,

cuando hacía el camino, he llegado de pronto

¿a dónde?

 

La noche que ha caído, tan repentina y negra, me impide ver,

y sólo sé que nadie me acompaña.

¿Qué ha sido este viaje?

   Muy largo debió ser, por la fatiga,

o acaso fue muy breve, si existió:

no puedo recobrar el olor de las rosas.

De entre mis posesiones

sólo guardo un pañuelo que oscurece en mis manos:

¿para secar las lágrimas que no puedo verter?

¿O para despedirme, desde la Prescripción, de las sombras que dejo?

 

Sin tiempo, me pregunto: ¿qué soy? ¿quién soy? ¿y para qué partí?

¿Y qué sentido tiene haber llegado?

Y qué poco me importa lo que, del lado del desuso, pueda passar ahora,

si nada entiendo.

Dejo de ser mortal. Mas no soy inmortal.

Como si nada hubiera sido.

 

Em: “El otoño de las rosas” (1986)

 

Homem e seu cão caminhando

por uma trilha no campo

(Gareth Naylor: artista inglês)

 

As últimas perguntas

 

No findar da tarde,

quando fazia o caminho, cheguei de repente

 aonde?

 

A noite que caiu, tão repentina e negra, impede-me de ver,

e só sei que ninguém me acompanha.

O que foi esta viagem?

Muito longa deve ter sido, pela fadiga,

ou talvez muito breve, se é que existiu:

não mais recobro a fragrância das rosas.

Entre os meus pertences,

guardo apenas um lenço que escurece em minhas mãos:

para enxugar as lágrimas que não consigo verter?

Ou para me despedir, desde a Prescrição, das sombras que deixo?

 

Sem tempo, pergunto-me: o que sou? quem sou? e para que parti?

E que sentido há em ter aqui chegado?

E pouco me importa o que, do lado do desuso, possa acontecer agora,

se nada compreendo.

Deixo de ser mortal. Mas não sou imortal.

Como se nada houvesse sido.

 

Em: “O outono das rosas” (1986)

 

Referência:

 

BRINES, Francisco. Las últimas preguntas. In: __________. El rumor del tiempo: antología. Introducción y selección de Dionisio Cañas. Madrid, ES: Mondadori España, 1989. p. 156. (“Mondadori Bolsillo”; v. 32)

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