Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Robert Morgan - Antitempo

O poeta tece especulações audazes acerca da hipótese cosmológica no âmbito científico denominada “Big Crunch” “Grande Compactação”, sob cuja tese o universo, após uma fase de expansão iniciada pelo “Big Bang” (“Grande Explosão”), eventualmente pararia de se expandir e começaria a se contrair, colapsando de volta a um ponto superaquecido e denso, ou até mesmo a uma nova singularidade

 

Assim, o poeta norte-americano, para além de tais ideias – hoje menos veiculadas –, adentra as raias de algo metafísico, quase inimaginável, quando conjectura sobre uma reversão total da existência – o tempo a correr para trás e a história sob os efeitos da “descriação”, um processo de aniquilamento no qual tudo o que alguma vez existiu – as nossas vidas, os acontecimentos factuais de que temos conhecimento, a evolução – poderia não só desaparecer, senão se desenrolar ao contrário, até ser reabsorvido em sua fonte.

 

Interessante é a formulação de um universo personificado numa matéria que “recorda e esquece ao mesmo tempo”, num ato simultâneo de memória e de amnésia cósmica, como se tudo não passasse de mero experimento linguístico e presuntivo, mas de uma contramarcha em escala mitológica: para retroceder, a matéria tem de “recordar” o seu estado anterior, mas ao fazê-lo, deve “esquecer” o seu estado atual e toda a história intermediária.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Morgan

(n. 1944)

 

Antitime

 

If the universe could reach that

final stage of its expansion,

all matter stop for an instant

in frozen poise, in total balance

of gravity and momentum

after the billions of lightyears

of outward flight, and there, there at

the outer limits of radiant

dusts, the twisting galaxies down

to the least glitter and flavored

particle would slip in reverse.

And time’s vector shot from the first

would invert, the seconds eating

seconds, hours hours, and years rescroll

as history annihilates

itself, rearing sharp then sinking

in rerisen seas as matter

remembers and forgets at once,

transforms into pattern as bodies

undecay and unfission back

to embryo and whitehot cell

in the billion year contraction

and erasure of event down

the parsecs toward the thought of

creation’s single total light.

 

A nona onda

(Ivan K. Aivazovsky: pintor ucraniano)

 

Antitempo

 

Se o universo pudesse chegar àquele

estágio final de expansão,

toda matéria parar por um instante

em pose congelada, em total equilíbrio

de gravidade e momento,

após bilhões de anos-luz

de voos pelo mundo externo, e lá, lá

nos extremos limites dos pós

luminosos, as galáxias girantes reduzidas

ao mais ínfimo brilho e sápida

partícula deslizariam em sentido oposto.

E o vetor do tempo lançado do primeiro

se inverteria, segundos engolindo

segundos, horas horas, anos rebobinados

enquanto a história aniquila

a si mesma, emergindo e depois afundando

em mares renascidos, enquanto a matéria

lembra e em seguida esquece,

transforma-se em padrão enquanto corpos

se regeneram e se recompõem de volta

a embrião e célula incandescente

na contração de um bilhão de anos,

no apagar do fato reduzido

a parsecs a caminho do pensamento da

única e absoluta luz da criação.

 

Referência:

 

MORGAN, Robert. Antitime / Antitempo. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. In: O’SHEA, José Roberto (Org.). Antologia de poesia norte-americana contemporânea. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. Florianópolis, SC: Ed. da UFSC, 1997. Em inglês: p. 136; em português: p. 137.

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