À maneira de uma
lição de como devemos enxergar o mundo, a poetisa norte-americana propõe-nos
que devamos partir em busca do divino em situações nas quais se vislumbrem o
“sol sob os pés” nos mais ínfimos, mais frágeis e até mais mortíferos detalhes
da natureza.
O olhar minucioso com
atenção reverencial, quando confrontado com a complexidade e a beleza do mundo,
convola o perigo em êxtase e transforma uma simples armadilha biológica em
umbral para o alcance do mais puro deslumbramento: a luz no fundo daquilo que
se mira torna-se tão intensa que inverte as leis da física perceptiva – “só de
contemplá-la, começas a cair para cima”.
Diante do assombro, a
mente procura uma explicação: Clampitt declina as duas grandes narrativas sobre
a origem da vida com delicada ironia – ou bem a ideia de um criador divino,
simples e direta, ou bem a hipótese da Seleção Natural, um processo cego e
aleatório, o exato oposto de um ato consciente de criação.
Seja como for,
perante a beleza avassaladora do mundo, a distinção supra quase perde o seu
significado: o próprio fato da existência é o verdadeiro milagre!
J.A.R. – H.C.
Amy Clampitt
(1920-1994)
The Sun Underfoot
among the Sundews
An ingenuity too astonishing
to be quite
fortuitous is
this bog full of
sundews, sphagnum-
lined and shaped like
a teacup.
A step
down and you’re into
it; a
wilderness swallows
you up:
ankle-, then knee-,
then midriff-
to-shoulder-deep in
wetfooted
understory, an
overhead
spruce-tamarack
horizon hinting
you’ll never get out
of here.
But the sun
among the sundews,
down there,
is so bright, an
underfoot
webwork of
carnivorous rubies,
a star-warm thick as
the gnats
they’re set to catch,
delectable
double-faced
cockleburs, each
hair-tip a sticky
mirror
afire with sunlight,
a million
of them and again a
million,
each mirror a trap
set to
unhand unbelieving,
that either
a First Cause said
once, ‘Let there
be sundews,’ and
there were, or they’ve
made their way here
unaided
other than by that
backhand, roundabout
refusal to assume
responsibility
known as Natural
Selection.
But the sun
underfoot is so
dazzling
down there among the
sundews,
there is so much
light
in the cup that,
looking,
you start to fall upward.
Drósera
(Gabriele Esau:
pintora alemã)
O Sol sob os Pés
entre as Dróseras
Uma engenhosidade por
demais espantosa
para ser mero acaso:
é
este pântano repleto
de dróseras, recoberto
de esfagnos e com formato
de chávena de chá.
Um passo
para baixo e nele
penetras; um
brejo logo te traga:
pelos tornozelos,
depois pelos joelhos e, sem delonga,
pelo tronco até os
ombros, nas entranhas
da vegetação rasteira e úmida que medra num
horizonte
de elegantes lariços acima da tua cabeça,
a insinuarem que daqui jamais escaparás.
Mas o sol
entre as dróseras, lá
embaixo,
é tão brilhante, uma
rede
de rubis carnívoros
sob os pés,
um calor estelar tão denso
quanto os mosquitos
que tencionam
capturar, adoráveis
carrapichos de dupla
face, cada
ponta de pelo um
espelho pegajoso
em chamas com a luz
do sol, um milhão
deles e outro milhão,
e cada espelho
uma armadilha
preparada
para deixar sem amarras
os incrédulos:
ou bem
uma Causa Primeira outrora
ordenou “Que haja
dróseras” – e aqui
estão elas –, ou bem elas cá
chegaram por si
mesmas, sem mais ajuda
do que aquele jeito
oblíquo e tortuoso
de se esquivar à
responsabilidade,
a que se denomina
Seleção Natural.
Mas o sol
sob os pés é tão
deslumbrante
lá embaixo entre as
dróseras,
há tanta luz na chávena
que, só de admirá-la,
começas a cair para
cima.
Referência:
CLAMPITT, Amy. The sun underfoot among the sundews. In: ASTLEY, Neil (Selection, introduction and notes). Staying alive: real poems for unreal times. 1st publ., 6th impr. Tarset (Northumberland, EN): Bloodaxe Books, 2004. p. 420.
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