Para o autor escocês,
a arte é a suprema razão de ser, a força que, apesar de tudo, dá sentido a uma
existência consagrada à criação, tornando imperiosa a necessidade de redigir poemas,
necessidade essa que define o poeta, se apodera do seu ser físico e espiritual
e, em última análise, o redime através do próprio fardo que lhe impõe.
Tem-se assim a vida do
artista como um serviço a um exigente destino, numa senda de dor, solidão e
sacrifício, experiências apenas aliviadas por breves momentos de graça – um
ouvinte gentil, um gesto de amor –, de onde se deduz a noção de que, mais do
que aquilo que o poeta faz, a poesia é algo que o poeta é.
J.A.R. – H.C.
George Mackay Brown
(1921-1996)
The Poet
Nor did you choose,
it was fated on you,
That gift.
Therefore you must
fare on as best you can with it,
That scroll.
And it will be a
burden to you many a day.
That music.
But remembered love
and sorrow will nurture it well,
That image.
And a kind listener
in the street will lighten the pain of it for you,
That song.
And a girl perhaps
will lift it from your face a moment,
That mask.
Yet many a day it
will bear in grief to your knees,
That dance.
And you will not be
loved in the doorways for the light it unleashes,
That jewel.
There are those who
wish to see it unwinged and tongueless,
That legend.
It will clothe you
with starkness, no coat-of-songs,
That loom.
It will utterly
possess your heart and your bones,
That symbol.
Retrato de Patrick
Moir (1769-1810)
(Henry Raeburn:
pintor escocês)
O Poeta
Você nem mesmo escolheu, o que estava destinado,
Aquele dom.
Portanto você deve seguir o melhor que puder,
Aquele pergaminho.
E será um estorvo para você muitos dias.
Aquela música.
Mas os amores lembrados e as mágoas nutrirão bem,
Aquela imagem.
E um ouvinte bondoso na rua vai aliviar sua dor,
Aquela canção.
E uma garota talvez retire da sua face por um momento,
Aquela máscara.
Mas por muitos dias irá suportar com dor, de joelhos,
Aquela dança.
E não será amado no vão das portas pela luz que ela desata,
Aquela joia.
Há os que querem vê-la sem asas e sem língua,
Aquela lenda.
Vestirá você com sobriedade, sem casaca,
Aquele tear.
Irá por fim possuir seu coração e seus ossos,
Aquele símbolo.
Referência:
BROWN, George Mackay. The poet / O poeta. Tradução de Virna Teixeira. In: TEIXEIRA, Virna (Organização, tradução e notas). Ovelha negra: uma antologia de poesia da Escócia do século XX. São Paulo, SP: Lumme Editor, 2007. Em inglês: p. 42; em português: p. 43.
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