Este poema de Borges
se apresenta como um monólogo interno de Francisco Narciso de Laprida (1786-1829),
uma figura histórica real no cenário político da Argentina, tendo sido
presidente do Congresso de Tucumán que declarou, em 1916, a independência do
país em relação à Espanha.
Laprida – um homem devotado
às leis e aos livros –, como se depreende da epígrafe em itálico, morreu
assassinado pelos “montoneros” – tropas federais irregulares – de Aldao,
durante as brutais guerras civis que se sucederam àquele marco político,
momento em que teria experimentado um “conjectural” êxtase cognitivo, explico-me
melhor, compreendido que, mesmo sob a identificação com os marcos
civilizacionais da cultura europeia, sua essência achava-se irrevogavelmente
conectada à estirpe argentina ou hispanoamericana, descrita incidentalmente por
elementos tão próximos ao “bárbaro” – gaúchos, lanças, lodaçais.
Poder-se-ia dizer que
Borges – um intelectual bibliófilo – se projeta na figura de um outro homem de
semelhante condição, para refletir sobre o seu país natal, o destino sul-americano,
a condição humana e os sentidos que se lhe possam atribuir, tomando um fato
histórico menor para o transfigurar numa espécie de evento mítico universal, tencionando
conectá-lo à grande tradição literária ocidental.
J.A.R. – H.C.
Jorge Luis Borges
(1899-1986)
Poema conjetural
El doctor Francisco
Laprida, asesinado el
día 22 de septiembre
de 1829 por los montoneros
de Aldao, piensa
antes de morir:
Zumban las balas en
la tarde última.
Hay viento y hay
cenizas en el viento,
se dispersan el día y
la batalla
deforme, y la
victoria es de los otros.
Vencen los bárbaros,
los gauchos vencen.
Yo, que estudié las
leyes y los cánones,
yo, Francisco Narciso
de Laprida,
cuya voz declaró la
independencia
de estas crueles
provincias, derrotado,
de sangre y de sudor
manchado el rostro,
sin esperanza ni
temor, perdido,
huyo hacia el Sur por
arrabales últimos.
Como aquel capitán
del Purgatorio
que, huyendo a pie y
ensangrentando el llano,
fue cegado y tumbado
por la muerte
donde un oscuro río
pierde el nombre,
así habré de caer.
Hoy es el término.
La noche lateral de
los pantanos
me acecha y me
demora. Oigo los cascos
de mi caliente muerte
que me busca
con jinetes, con
belfos y con lanzas.
Yo que anhelé ser
otro, ser un hombre
de sentencias, de
libros, de dictámenes
a cielo abierto
yaceré entre ciénagas;
pero me endiosa el
pecho inexplicable
un júbilo secreto. Al
fin me encuentro
con mi destino
sudamericano.
A esta ruinosa tarde
me llevaba
el laberinto múltiple
de pasos
que mis días tejieron
desde un día
de la niñez. Al fin
he descubierto
la recóndita clave de
mis años,
la suerte de
Francisco de Laprida,
la letra que faltaba,
la perfecta
forma que supo Dios
desde el principio.
En el espejo de esta
noche alcanzo
mi insospechado
rostro eterno. El círculo
se va a cerrar. Yo
aguardo que así sea.
Pisan mis pies la
sombra de las lanzas
que me buscan. Las
befas de mi muerte,
los jinetes, las
crines, los caballos,
se ciernen sobre
mí... Ya el primer golpe,
ya el duro hierro que
me raja el pecho,
el íntimo cuchillo en
la garganta.
1943
Monumento a Francisco
Narciso de Laprida
em San
José de Jáchal (AR)
(por Lola Mora)
Poema conjectural
O doutor Francisco
Laprida, assassinado
no dia 22 de setembro
de 1829 pelos montoneros
de Aldao, pensa antes
de morrer:
Zunem as balas na
última tarde.
Sopra o vento e há
cinzas nesse vento,
se dispersam o dia e
a batalha
disforme, e a vitória
cabe aos outros.
Vencem os bárbaros,
vencem os gaúchos.
Eu, que estudei os
cânones e as leis,
eu, Francisco Narciso
de Laprida,
cuja voz declarou a
independência
destas cruéis
províncias, derrotado,
de sangue e de suor manchado
o rosto,
sem esperança nem
temor, perdido,
para o Sul fujo, por
subúrbios últimos.
Como aquele capitão
do Purgatório:
fugindo a pé e
ensanguentando o solo,
foi cegado e tombado
pela morte
ali onde um rio
escuro perde o nome,
assim hei de cair.
Hoje é o final.
A noite lateral dos
lodaçais
me espia e me retém.
Escuto os cascos
de minha quente morte
que me busca
com cavalos, com
beiços e com lanças.
Eu que sonhei ser
outro, ser um homem
de sentenças, de
livros, de juízos,
a céu aberto jazerei
na lama;
porém me endeusa o
peito inexplicável
um júbilo secreto.
Enfim encontro
o meu destino
sul-americano.
Para esta tarde
trágica me trouxe
o labirinto múltiplo
de passos
que os dias meus
tramaram desde um dia
da infância. Agora
enfim é que descubro
a recôndita chave de
meus anos,
a sorte de Francisco
de Laprida,
a letra que faltava,
essa perfeita
forma que Deus
conhece desde o início.
No espelho desta
noite eu reconheço
meu rosto eterno
insuspeitado. O círculo
vai se fechar. Espero
que assim seja.
Pisam meus pés a
sombra dessas lanças
que me buscam. O
insulto dessa morte,
os ginetes, as
crinas, os cavalos,
me afogam… Vem o
primeiro golpe,
o duro ferro que me
fende o peito,
a íntima navalha na
garganta.
1943
Referência:
BORGES, Jorge Luis. Poema conjetural / Poema conjectural. Tradução de Heloisa Jahn. In: __________. O outro, o mesmo. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2009. Em espanhol: p. 32 e 34; em português: p. 33 e 35.
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