Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 30 de agosto de 2026

Georges Bataille - A experiência interior

Nesta incisiva elocução poética, Bataille esquematiza uma cartografia do terreno que leva até o sagrado, através da “noite escura da alma”, da negação do eu e da repulsão visceral, num processo de dilaceração que se traduz pela embriaguez dos limites, pelo desejo ardente de morte para tudo o que se foi obrigado a ser, visando ao objetivo maior de encontrar vida em sua forma mais vertiginosa e verdadeira.

 

Tem-se aí uma experiência que busca transcender as raias da razão, da linguagem, da lógica e do núcleo da própria identidade, num movimento de libertação que se pretende na mais absoluta imanência, regredindo-se a um estado indiferenciado, dissolvendo-se ao informe e ao que escapa a qualquer controle humano: eis o “espanto desejável” de que, desconcertantemente, nos fala o poema.

 

J.A.R. – H.C.

 

Georges Bataille

(1897-1962)

 

L’expérience intérieure (1) (2)

 

Je ne veux plus, je gémis,

je ne peux plus souf rir

ma prison.

Je dis ceci

amèrement:

mots qui m’étouf ent,

laissez-moi,

lâchez-moi,

j’ai soif

d’autre chose.

Je veux la mort

non admettre

ce règne des mots,

enchaînement

sans ef roi,

tel que l’ef roi

soit désirable;

ce n’est rien

ce moi que je suis,

sinon

lâche acceptation

de ce qui est.

Je hais

cette vie d’instrument,

je cherche une fêlure,

ma fêlure,

pour être brisé.

J’aime la pluie,

la foudre,

la boue,

une vaste étendue d’eau,

le fond de la terre,

mais pas moi.

Dans le fond de la terre,

ô ma tombe,

délivre-moi de moi,

je ne veux plus l’être.

 

Velho adormecido

(Abraham van Dijck: pintor holandês)

 

A experiência interior

 

Eu não quero mais, eu gemo,

eu não posso mais sofrer

minha prisão.

Digo isso

amargamente:

palavras que me sufocam,

deixem-me,

soltem-me,

tenho sede

de outra coisa.

Quero a morte

não admitir

este reino das palavras,

encadeamento

sem medo,

tal como o medo

seja desejado;

isto não é nada

sou o que sou,

caso contrário

aceitação covarde

do que é.

Odeio

esta vida de instrumento,

busco uma fissura,

a minha fissura,

para ser quebrado.

Amo a chuva,

o relâmpago,

a lama,

uma vasta extensão de água,

as profundezas da terra,

mas não a mim.

Nas profundezas da terra,

ó minha sepultura,

liberte-me de mim mesmo,

não quero mais ser.

 

Notas:

 

(1). Georges Bataille deu o subtítulo de “Somme athéologique” (“Suma ateológica” aos três volumes que constituem o centro de sua obra e que aparecem sucessivamente na seguinte ordem: “L’expérience intérieure” (“A experiência interior”), em 1943; “Le coupable” (“O culpado”), em 1944; e “Sur Nietzsche” (“Sobre Nietzsche”), em 1945. (BATTAILE, 2015, p. 13)(N.T.)

 

(2). Este é apenas o primeiro poema que aparece na obra “L’expérience intérieure”, do autor francês.

 

Referência:

 

BATTAILE, Georges. L’expérience intérieure / A experiência interior. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. In: __________. Poemas. Edição bilíngue: francês x português. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2015. Em francês: p. 96 e 98; em português: p. 97 e 99. (“Fora de Série”)

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