Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Pablo Neruda - A poesia

Neruda nos conta como a poesia o alcançou, sob a forma de um rompante vital e primordial que se deflagrou em determinado momento de sua vida, transformando e redefinindo a percepção que, até então, tinha da realidade, elevando-lhe a perspectiva do meramente individual ao mistério maior da própria existência, permitindo-lhe, assim, conectar-se a uma visão mais ampla do universo.

 

A inspiração poética, sob tal mirada, seria um chamado irresistível, ou melhor, um evento avassalador que, nascendo do não-saber, revelar-se-ia robusto o suficiente para conduzir o poeta à sabedoria última de sentir-se parte do todo, num ato epifânico de comunhão total com o cosmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Pablo Neruda

(1904-1973)

 

La poesía

 

Y fue a esa edad... Llegó la poesía

a buscarme. No sé, no sé de dónde

salió, de invierno o río.

No sé cómo ni cuándo,

no, no eran voces, no eran

palabras, ni silencio,

pero desde una calle me llamaba,

desde las ramas de la noche,

de pronto entre los otros,

entre fuegos violentos

o regresando solo,

allí estaba sin rostro

y me tocaba.

 

Yo no sabía qué decir, mi boca

no sabía

nombrar,

mis ojos eran ciegos,

y algo golpeaba en mi alma,

fiebre o alas perdidas,

y me fui haciendo solo,

descifrando

aquella quemadura,

y escribí la primera línea vaga,

vaga, sin cuerpo, pura

tontería,

pura sabiduría

del que no sabe nada,

y vi de pronto

el cielo

desgranado

y abierto,

planetas,

plantaciones palpitantes,

la sombra perforada,

acribillada

por flechas, fuego y flores,

la noche arrolladora, el universo.

 

Y yo, mínimo ser,

ebrio del gran vacío

constelado,

a semejanza, a imagen

del misterio,

me sentí parte pura

del abismo,

rodé con las estrellas,

mi corazón se desató en el viento.

 

En: “Memorial de Isla Negra” (1962-1964)

 

O sonho do poeta

(John Faed: pintor escocês)

 

A poesia

 

E foi nessa idade... A poesia chegou

para me buscar. Não sei, não sei de onde

saiu, se do inverno ou de um rio.

Não sei como nem quando,

não, não eram vozes, não eram

palavras, nem silêncio,

mas de uma rua ela me chamava,

dos ramos da noite,

de súbito entre os outros,

entre fogos violentos

ou, em regresso a sós,

eis que ali se me afigurava sem rosto

e me tocava.

 

Eu não sabia o que dizer, minha boca

não sabia

nomear,

meus olhos estavam cegos,

e algo percutia em minha alma,

febre ou asas perdidas,

e me fui fazendo sozinho,

a decifrar

aquela queimadura,

e escrevi a vaga primeira linha,

vaga, sem corpo, pura

tolice,

pura sabedoria

de quem nada sabe,

e de repente vi

o céu

debulhado

e aberto,

planetas,

plantações pulsantes,

a sombra trespassada,

crivada

de flechas, fogo e flores,

a noite avassaladora, o universo.

 

E eu, um mínimo ser,

inebriado pelo grande vazio

constelado,

à semelhança, à imagem

do mistério,

senti-me parte pura

do abismo,

girei com as estrelas,

meu coração desatou-se ao vento.

 

Em: “Memorial da Ilha Negra” (1962-1964)

 

Referência:

 

NERUDA, Pablo. La poesía. In: __________. Obras completas: volume II (De “Odas elementales” a “Memorial de Isla Negra” - 1954-1964). Edición y notas de Hernán Loyola, con el asesoramiento de Saúl Yurkievich; prólogo de Saúl Yurkievich. 1. ed. Barcelona, ES: Círculo de Lectores; Galaxia Gutenberg, 1999. p. 1155-1156.

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