Amihai emprega a
metáfora geométrica dos círculos concêntricos para demonstrar o contrário do
que sugere a avalição inicial acerca das consequências da explosão de uma bomba:
o verdadeiro raio de seus efeitos é infinito, não apenas matar e ferir corpos,
senão lesionar o tecido mesmo da humanidade, estendendo-se no espaço – desde o seu
epicentro até pontos geográficos os mais distantes – e na consciência – desde o
plano físico até o espiritual.
Não há “ataques cirúrgicos”,
como se costuma dizer nas pretensas investidas com objetivos definidos, pois
que tal orientação extrapola a própria lógica das conflagrações modernas, cuja
eficácia é mensurada exatamente pelo número de baixas que é capaz de desencadear.
Como corolário, a dor daí derivada, desconhecendo quaisquer contornos
geopolíticos, amplifica-se numa ferida cósmica que não pode ser contida, remediada
ou inclusive apreendida por nenhuma força superior.
J.A.R. – H.C.
Yehuda Amihai
(1924-2000)
O Diâmetro da Bomba
Trinta centímetros
era o diâmetro da bomba
cujo raio efetivo de
ação
– cerca de sete
metros –
continha quatro mortos
e onze feridos.
E ao seu redor, aqui
e ali, num círculo
mais amplo de dor e
tempo,
há dois hospitais e
um cemitério.
Mas a jovem enterrada
em seu
lugar de origem
a mais de cem
quilômetros de distância
amplia
consideravelmente o círculo.
E o homem solitário
que, num canto remoto
de um país do
além-mar, chora-lhe a morte
inclui no círculo o
mundo inteiro.
Não vou sequer falar
do pranto dos órfãos
que alcança o trono
de Deus
e o ultrapassa,
criando
um círculo sem fim
nem Deus.
O caos se desenreda
(Grey Anatoli Cross:
artista norte-americano)
Referência:
AMIHAI, Yehuda. O diâmetro da bomba. In: ASCHER, Nelson (Tradução e Organização). Poesia alheia: 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. p. 356. (Coleção “Lazuli”)
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