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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 1 de agosto de 2026

Yehuda Amihai - O Diâmetro da Bomba

Amihai emprega a metáfora geométrica dos círculos concêntricos para demonstrar o contrário do que sugere a avalição inicial acerca das consequências da explosão de uma bomba: o verdadeiro raio de seus efeitos é infinito, não apenas matar e ferir corpos, senão lesionar o tecido mesmo da humanidade, estendendo-se no espaço – desde o seu epicentro até pontos geográficos os mais distantes – e na consciência – desde o plano físico até o espiritual.

 

Não há “ataques cirúrgicos”, como se costuma dizer nas pretensas investidas com objetivos definidos, pois que tal orientação extrapola a própria lógica das conflagrações modernas, cuja eficácia é mensurada exatamente pelo número de baixas que é capaz de desencadear. Como corolário, a dor daí derivada, desconhecendo quaisquer contornos geopolíticos, amplifica-se numa ferida cósmica que não pode ser contida, remediada ou inclusive apreendida por nenhuma força superior.

 

J.A.R. – H.C.

 

Yehuda Amihai

(1924-2000)

 

O Diâmetro da Bomba

 

Trinta centímetros era o diâmetro da bomba

cujo raio efetivo de ação

– cerca de sete metros –

continha quatro mortos e onze feridos.

E ao seu redor, aqui e ali, num círculo

mais amplo de dor e tempo,

há dois hospitais e um cemitério.

Mas a jovem enterrada em seu

lugar de origem

a mais de cem quilômetros de distância

amplia consideravelmente o círculo.

E o homem solitário que, num canto remoto

de um país do além-mar, chora-lhe a morte

inclui no círculo o mundo inteiro.

Não vou sequer falar do pranto dos órfãos

que alcança o trono de Deus

e o ultrapassa, criando

um círculo sem fim nem Deus.

 

O caos se desenreda

(Grey Anatoli Cross: artista norte-americano)

 

Referência:

 

AMIHAI, Yehuda. O diâmetro da bomba. In: ASCHER, Nelson (Tradução e Organização). Poesia alheia: 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. p. 356. (Coleção “Lazuli”)

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