Eis aqui a primeira seção da
coletânea “El rayo que no cesa” (“O raio que não cessa”), de 1936, do renomado
poeta espanhol, ao longo da qual nos é transmitido um juízo do quanto de
complexo há na condição humana, dominada pelo sofrimento e, como no presente
caso, pelas tormentas que fustigam o falante, simbolizadas pelas figuras do “punhal”
e do “raio”, sejam eles forças externas ou, como suponho, voragens que lhe
desassossegam o espírito.
Trata-se, ademais, de
um testemunho da luta do sujeito lírico para manter a sua própria dignidade e a
fé, mesmo sob esse mar de desesperança. Afinal, talvez haja um propósito redentor
em cada dor que nos transpassa, e manter a resiliência, mesmo diante dos golpes
do destino e da inevitabilidade da morte, poderá nos trazer algum sentido de orientação
e de serenidade para nos desvencilhar do caos.
J.A.R. – H.C.
Miguel Hernández
(1910-1942)
Un carnívoro cuchillo
Un carnívoro cuchillo
de ala dulce y
homicida
sostiene un vuelo y
un brillo
alrededor de mi vida.
Rayo de metal
crispado
fulgentemente caído,
picotea mi costado
y hace en él un
triste nido.
Mi sién, florido
balcón
de mis edades
tempranas,
negra está, y mi
corazón,
y mi corazón con
canas.
Tal es la mala virtud
del rayo que me rodea,
que voy a mi juventud
como la luna a la
aldea.
Recojo con las
pestañas
sal del alma y sal
del ojo
y flores de telarañas
de mis tristezas
recojo.
¿A dónde iré que no
vaya
mi perdición a
buscar?
Tu destino es de la
playa
y mi vocación del
mar.
Descansar de esta
labor
de huracán, amor o
infierno
no es posible, y el
dolor
me hará a mi pesar
eterno.
Pero al fin podré
vencerte,
ave y rayo secular,
corazón, que de la
muerte
nadie ha de hacerme
dudar.
Sigue, pues, sigue,
cuchillo,
volando, hiriendo.
Algún día
se pondrá el tiempo
amarillo
sobre mi fotografía.
Dor
(Golam Faruque: artista
bangladeshiano)
Um carnívoro punhal
Um carnívoro punhal
de asa doce e
homicida
mantém seu voo
desigual
ao redor da minha
vida.
Raio de metal crispado
brilhantemente
daninho,
recorta o meu costado
e nele faz triste
ninho.
A minha fronte,
balcão
florido da juventude,
negra está, e o
coração
encerra decrepitude.
E tão grande é a
desgraça
do raio que me
rodeia,
que retomo à velha
praça
como a lua vê minha
aldeia.
Recolho nestas
pestanas
sal da alma, sal do
olho
e flores de
filigranas
destas tristezas
recolho.
Até mesmo nesta raia
vem perdição me
buscar?
Teu destino é a praia
minha missão, a do
mar.
Descansar deste labor
de vento, de amor, de
inferno
não é possível, e a
dor
fará meu pesar
eterno.
Mas ao fim acho meu
norte,
ave e raio secular,
coração, que nem da
morte
alguém me faz
duvidar.
Segue, pois, segue,
punhal,
voa, fere que algum
dia
será o tempo areal
em minha fotografia.
Referência:
HERNÁNDES, Miguel. Un carnívoro cuchillo / Um carnívoro punhal. Tradução de Alexandre Pilati. In: __________. O raio que não cessa. Tradução de Alexandre Pilati. Brasília, DF: Editora da UnB, 2022. Em espanhol: p. 34, 36 e 38; em português: p. 35, 37 e 39. (Coleção “Poetas do Mundo”)
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