Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Armando Tejada Gómez - A vida é um perigo

Gómez, um dos ícones da poesia engajada latinoamericana, entrelaça nestes versos o pessoal com o coletivo, para nos fazer ver que a vida é um ato de luta e de resistência contra as estruturas opressivas, e que, de toda dor, pode elevar-se um grito de emancipação, um canto imperturbável capaz de afirmar-se como ato político – de um certo tom marxista, diga-se de passagem, pela menção a salários não pagos e a necessidades básicas de sobrevivência não satisfeitas.

 

No confronto com a morte, sugere o vate, a vida sempre encontra formas de seguir adiante: os pássaros desafiam com o seu canto a bruma que se levanta das cinzas, digo melhor, de uma lúgubre cerimônia fúnebre, aturdindo, isto é, confundindo e perturbando a morte em seu próprio ritual, para que, nesse embate, possam prevalecer os desígnios de vitalidade e beleza de que se incumbe a natureza.

 

J.A.R. – H.C.

 

Armando Tejada Gómez

(1929-1992)

 

La vida es un peligro

 

Así es, hermano mío,

la vida es un peligro.

Vos y yo lo sabemos

desde el día o la noche

que secamos el llanto

y nació el canto en vilo.

 

Desde aquélla intemperie

del sollozo o del frío,

sabemos, como el pueblo

que avanza en nuestro grito,

que si la vida es lucha,

vivir es un peligro.

 

Debido a que nos deben

jornales de un milenio,

un pan, una frazada,

un techo pequeñito

y el llanto de los nuestros

y un padre y cien gemidos

y que a pesar del lodo,

del lodo hemos crecido,

es que mandan la muerte

con su oficio de niebla,

a matar en el hombre

lo que salvó al niño.

 

Pero como decía

Charles Chaplín: la vida

es tan inevitable

como la muerte, hermano.

 

La vida es un peligro,

pero es muy peligroso

suponer que la muerte

es algo inevitable.

Basta ver que cuando ella

oficia sus cenizas,

los pájaros la aturden

desde la verde rama.

 

Buenos Aires, 1974

 

A vida em meio ao perigo

(Arte digital: autoria desconhecida)

 

A vida é um perigo

 

É isso mesmo, meu irmão,

a vida é um perigo.

Tu e eu sabemo-lo

desde o dia ou da noite

em que secamos o pranto

e nasceu o canto em suspense.

 

Desde aquela intempérie

do soluço ou do frio,

sabemos, como o povo

que avança em nosso grito,

que se a vida é luta,

viver é um perigo.

 

Em razão de que nos devem

salários de um milênio,

um pão, um cobertor,

um minúsculo teto,

o pranto dos nossos,

de um pai e cem gemidos,

– e que apesar de todo o lodo,

do lodo logramos crescer –,

é que expedem a morte,

com seu ofício nevoento,

para matar no homem

o que em criança se salvou.

 

Mas como dizia

Charles Chaplin: a vida

é tão inevitável

quanto a morte, irmão.

 

A vida é um perigo,

mas é muito perigoso

assumir que a morte

é algo inevitável.

Basta ver que quando ela

oficia as suas cinzas,

os pássaros a espantam

a partir da verde rama.

 

Buenos Aires, 1974

 

Referência:

 

GÓMEZ, Armando Tejada. La vida es un peligro. In: __________. Bajo estado de sangre: poemas (1974-1983). Buenos Aires, AR: Torres Agüero Editor, jul. 1986. p. 32-33.

2 comentários:

  1. Boa noite, estou lendo aos poucos suas postagens, todas fascinantes e com textos de apresentação igualmente fascinantes, cultos e elucidativos.
    Tenho alguns livros de minha autoria e gostaria de enviá-los, caso aceite. Luciano. Abraço.
    email: lmlanzillotti@gmail.com

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    1. Prezado Luciano:
      Desculpe-me a resposta intempestiva, devido ao longo recesso fora de Brasília. Neste ensejo, muito lhe agradeço as palavras.
      Quanto aos livros de poemas, caso os tenha formatados em arquivos eletrônicos, recebê-los-ia de muito bom grado para compor o meu amplo acervo de coletâneas poéticas de boa parte do mundo e do Brasil, mais de 80% do qual composto por ficheiros em pdf.
      Pelo momento, ademais, estou em mudança e não lhe poderia oferecer um endereço seguro para o encaminhamento de tomos físicos.
      Por conseguinte, sendo-lhe possível, você poderia enviá-los à minha conta do gmail (jar2707@gmail.com), pelo que lhe sou grato antecipadamente.
      Cordialmente,
      João A. Rodrigues

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