Gómez, um dos ícones
da poesia engajada latinoamericana, entrelaça nestes versos o pessoal com o
coletivo, para nos fazer ver que a vida é um ato de luta e de resistência
contra as estruturas opressivas, e que, de toda dor, pode elevar-se um grito de
emancipação, um canto imperturbável capaz de afirmar-se como ato político – de
um certo tom marxista, diga-se de passagem, pela menção a salários não pagos e
a necessidades básicas de sobrevivência não satisfeitas.
No confronto com a
morte, sugere o vate, a vida sempre encontra formas de seguir adiante: os pássaros
desafiam com o seu canto a bruma que se levanta das cinzas, digo melhor, de uma
lúgubre cerimônia fúnebre, aturdindo, isto é, confundindo e perturbando a morte
em seu próprio ritual, para que, nesse embate, possam prevalecer os desígnios de
vitalidade e beleza de que se incumbe a natureza.
J.A.R. – H.C.
Armando Tejada Gómez
(1929-1992)
La vida es un peligro
Así es, hermano mío,
la vida es un
peligro.
Vos y yo lo sabemos
desde el día o la
noche
que secamos el llanto
y nació el canto en
vilo.
Desde aquélla
intemperie
del sollozo o del
frío,
sabemos, como el
pueblo
que avanza en nuestro
grito,
que si la vida es
lucha,
vivir es un peligro.
Debido a que nos
deben
jornales de un
milenio,
un pan, una frazada,
un techo pequeñito
y el llanto de los
nuestros
y un padre y cien
gemidos
y que a pesar del
lodo,
del lodo hemos
crecido,
es que mandan la
muerte
con su oficio de
niebla,
a matar en el hombre
lo que salvó al niño.
Pero como decía
Charles Chaplín: la
vida
es tan inevitable
como la muerte,
hermano.
La vida es un
peligro,
pero es muy peligroso
suponer que la muerte
es algo inevitable.
Basta ver que cuando
ella
oficia sus cenizas,
los pájaros la
aturden
desde la verde rama.
Buenos Aires, 1974
A vida em meio ao
perigo
(Arte digital:
autoria desconhecida)
A vida é um perigo
É isso mesmo, meu
irmão,
a vida é um perigo.
Tu e eu sabemo-lo
desde o dia ou da noite
em que secamos o
pranto
e nasceu o canto em suspense.
Desde aquela
intempérie
do soluço ou do frio,
sabemos, como o povo
que avança em nosso
grito,
que se a vida é luta,
viver é um perigo.
Em razão de que nos
devem
salários de um
milênio,
um pão, um cobertor,
um minúsculo teto,
o pranto dos nossos,
de um pai e cem
gemidos,
– e que apesar de
todo o lodo,
do lodo logramos crescer
–,
é que expedem a morte,
com seu ofício nevoento,
para matar no homem
o que em criança se
salvou.
Mas como dizia
Charles Chaplin: a
vida
é tão inevitável
quanto a morte, irmão.
A vida é um perigo,
mas é muito perigoso
assumir que a morte
é algo inevitável.
Basta ver que quando
ela
oficia as suas cinzas,
os pássaros a espantam
a partir da verde
rama.
Buenos Aires, 1974
Referência:
GÓMEZ, Armando
Tejada. La vida es un peligro. In: __________. Bajo estado de sangre: poemas
(1974-1983). Buenos Aires, AR: Torres Agüero Editor, jul. 1986. p. 32-33.
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Boa noite, estou lendo aos poucos suas postagens, todas fascinantes e com textos de apresentação igualmente fascinantes, cultos e elucidativos.
ResponderExcluirTenho alguns livros de minha autoria e gostaria de enviá-los, caso aceite. Luciano. Abraço.
email: lmlanzillotti@gmail.com
Prezado Luciano:
ExcluirDesculpe-me a resposta intempestiva, devido ao longo recesso fora de Brasília. Neste ensejo, muito lhe agradeço as palavras.
Quanto aos livros de poemas, caso os tenha formatados em arquivos eletrônicos, recebê-los-ia de muito bom grado para compor o meu amplo acervo de coletâneas poéticas de boa parte do mundo e do Brasil, mais de 80% do qual composto por ficheiros em pdf.
Pelo momento, ademais, estou em mudança e não lhe poderia oferecer um endereço seguro para o encaminhamento de tomos físicos.
Por conseguinte, sendo-lhe possível, você poderia enviá-los à minha conta do gmail (jar2707@gmail.com), pelo que lhe sou grato antecipadamente.
Cordialmente,
João A. Rodrigues