Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 31 de janeiro de 2026

Carlos de Assumpção - Fênix

Este poema de Assumpção é um chamado à resistência, à reconstrução e à reafirmação da identidade e da dignidade de um povo historicamente oprimido – os negros –, eles que, paradoxalmente, sendo maioria neste país, permanecem, em grande medida, à margem de tudo aquilo que ajudaram a construir, sendo sistematicamente silenciados ou escarnecidos.

 

Mas dessa história de alienação e de isolamento, impostos pelas estruturas de poder, há de surgir, com força e determinação, a figura do negro como uma fênix, erguendo-se de toda a ruína fomentada pelas barreiras físicas e simbólicas que perfazem os processos discriminatórios, já agora com as suas asas bem abertas, num de voo de libertação para um futuro mais justo e equitativo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos de Assumpção

(n. 1927)

 

Fênix

 

Riram de nossos valores

Apagaram os nossos sonhos

Pisaram a nossa dignidade

Sufocaram a nossa voz

Nos transformaram em uma ilha

Cercada de mentiras por todos os lados

Nos dividiram

Nos puseram à margem de tudo

 

Irmãos

 

Precisamos reconstruir a nossa vida

Precisamos conquistar nosso lugar

Na casa que um dia nós edificamos

E onde não conseguimos entrar

Precisamos reacender os nossos sonhos

Precisamos levantar a nossa voz

Precisamos derrubar

A muralha de rocha e cal

Que ergueram em torno de nós

 

Em: “Protesto” (1982)

 

A Fênix

(Teresa Wing: artista canadense)

 

Referência:

 

ASSUMPÇÃO, Carlos de. Fênix. In: __________. Não pararei de gritar: poemas reunidos. Organização de Alberto Pucheu. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2020. p. 19.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A. R. Ammons - Mansão

Ao entregar-se ao “vento”, o falante do presente poema parece aceitar o ciclo natural da vida e da morte, obsequiando-se a um elemento que é tanto poderoso quanto efêmero, num experimento de continuidade com o mundo natural, sob cuja mecânica, de um lado, expõe-se à sua progressiva dissolução física e, do outro, transporta-se por entre a árida paisagem do sudoeste estadunidense – habitat preferencial do “ocotillo” (uma planta nativa daquelas paragens) e da carriça de saguaro (pequeno pássaro que costuma construir os seus ninhos em cactos).

 

Nos versos derradeiros, tem-se a voz lírica unindo-se ao ocaso e a contemplar, juntamente ao vento já atenuado, o encerramento do dia, num amálgama harmonioso a apontar para o consequente alvorecer de um mundo renovado, “mansão” definitiva à qual o falante se reintegra, no fecho de um ciclo deste vasto e interconectado universo.

 

J.A.R. – H.C.

 

A. R. Ammons

(1926-2001)

 

Mansion

 

So it came time

for me to cede myself

and I chose

the wind

to be delivered to

 

The wind was glad

and said it needed all

the body

it could get

to show its motions with

 

and wanted to know

willingly as I hoped it would

if it could do

something in return

to show its gratitude

 

When the tree of my bones

rises from the skin I said

come and whirlwinding

stroll my dust

around the plain

 

so I can see

how the ocotillo does

and how saguaro-wren is

and when you fall

with evening

 

fall with me here

where we can watch

the closing up of day

and think how morning breaks

 

Imagem sem créditos

 

Mansão

 

Chegou então o momento

de eu me entregar

e escolhi

me confiar

ao vento

 

O vento alegrou-se

e disse que precisava

da maior massa possível

do corpo

para expressar seus movimentos

 

e quis saber de bom grado se

havendo algo em troca

que pudesse fazer

para mostrar sua gratidão

como eu esperava que o fizesse

 

Quando a árvore dos meus ossos

se erguer da pele disse-lhe eu

vem em rodopios

e leva a passear o meu pó

pela planície

 

para que eu possa ver

como medra o ocotillo

como é a carriça de saguaro

e quando amainares

ao anoitecer

 

recolhe-te aqui ao meu lado

onde poderemos contemplar

o desfecho do dia

e matutar sobre o irromper da aurora

 

Referência:

 

AMMONS, A. R. Mansion. In: __________. Expressions of sea level. 5th print. Columbus, OH: Ohio State University Press, 1963. p. 41.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Roberto Bolaño - Amanhecer

Num mundo a pender entre a realidade e a contemplação filosófica, o falante busca no interlocutor a reafirmação da veracidade de suas palavras, as quais, num tom meio confessional, retratam a atividade mental daquele que parece ser a única personagem em movimento dentro do poema, contrastando com a relativa quietude da paisagem urbana.

 

Nesse entorno em que a vida transcorre de um modo quase mecânico, a beleza se apresenta com um tom sombrio, como algo inevitável, mas também desgastado ou desvanecido, longe de sua luminosidade e plenitude, tanto mais que associada à morte ou à perda, o que converte tal “Amanhecer” em metáfora de uma espera que não conduz a um radiante futuro, senão a uma compreensão mais dolorosa e profunda da existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Roberto Bolaño

(1953-2003)

 

Amanecer

 

Créeme, estoy en el centro de mi habitación

esperando que llueva. Estoy solo. No me importa

terminar o no mi poema. Espero la lluvia,

tomando café y mirando por la ventana un bello paisaje

de patios interiores, con ropas colgadas y quietas,

silenciosas ropas de mármol en la ciudad, donde no existe

el viento y a lo lejos sólo se escucha el zumbido

de una televisión en colores, observada por una familia

que también, a esta hora, toma café reunida alrededor

de una mesa: créeme: las mesas de plástico amarillo

se desdoblan hasta la línea del horizonte y más allá:

hacia los suburbios donde construyen edificios

de departamentos, y un muchacho de 16 sentado sobre

ladrillos rojos contempla el movimiento de las máquinas.

El cielo en la hora del muchacho es un enorme

tornillo hueco con el que la brisa juega. Y el muchacho

juega con ideas. Con ideas y con escenas detenidas.

La inmovilidad es una neblina transparente y dura

que sale de sus ojos.

Créeme: no es el amor el que va a venir,

sino la belleza con su estola de albas muertas.

 

Luzes do amanhecer

(Erin Hanson: artista norte-americana)

 

Amanhecer

 

Acredite, estou no meio do meu quarto

esperando que chova. Estou sozinho. Não ligo

se vou terminar ou não meu poema. Espero a chuva,

tomando café e vendo pela janela uma bela paisagem

de pátios internos, com roupas penduradas e quietas,

silenciosas roupas de mármore na cidade, onde não existe

o vento e só se ouve ao longe o zumbido

de uma tevê em cores, observada por uma família

que também, a essa hora, toma café reunida ao redor

de uma mesa: acredite: as mesas de plástico amarelo

se desdobram até a linha do horizonte, e além:

lá nos subúrbios onde se constroem prédios

de apartamentos, e um garoto de 16 sentado sobre

tijolos vermelhos contempla o movimento das máquinas.

O céu na hora do garoto é um enorme

parafuso oco com que a brisa brinca. E o garoto

brinca com ideias. Com ideias e cenas estáticas.

A imobilidade é uma neblina transparente e dura

que sai de seus olhos.

Acredite: não é o amor que vai vir,

mas a beleza com sua estola de auroras mortas.

 

Referência:

 

BOLAÑO, Roberto. Amanecer / Amanhecer. Tradução de Josely Vianna Baptista. In: __________. A universidade desconhecida. Tradução de Josely Vianna Baptista. Edição bilíngue: espanhol x português. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2021. Em espanhol: p. 20; em português: p. 21.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Carlos Nejar - Biografia

Num tríptico sucinto, Nejar explora a tensão entre o eu autêntico e as narrativas externas que moldam nossas vidas, entre as experiências vividas e aquelas que escapam ao controle consciente, sugerindo que, talvez, nossa verdadeira essência não resida nos fatos objetivos que nos dizem respeito, senão nas emoções, nos sonhos e nas aspirações que estão para além da linearidade do tempo.

 

Seremos nós os verdadeiros protagonistas de nossas vidas ou a experimentamos num estado de fragmentação no qual outras pessoas, circunstâncias ou alheias referências apropriam-se de nossa história e dão-lhe forma sem nosso consentimento? Como nos transformar, nos reconstruir em novas perspectivas e direções, escapando aos grilhões de uma biografia estática e predefinida, sem que nos precipitemos no caos, sem que percamos o nosso próprio senso de identidade?! “To be, or not to be, that is the question”! – diria certo príncipe da Dinamarca.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Nejar

(n. 1939)

 

Biografia

 

I

 

Não tive biografia

mas metáforas

Manga na praça

foi a infância

 

A alma dividida

de nascença

Com ela o mundo

arfava em cada coisa

 

O mar inchava

o Sol de maresia

Inchava na palavra

e as velas iam

 

Vivi sofri – eis tudo

e o vivido

arrasta o barco

pelo mar que é findo

 

II

 

A biografia

se instaurou

sem mim

 

Alguém a foi

vivendo

sem sabê-lo

 

Alguém deitou

no sono

em que acordei

 

Alguém

no meu lugar

foi biografado

 

III

 

Como se esperasse

de outra imagem

 

e música tornasse

ao bandolim

 

E nunca mais parasse

era voragem

 

alguém desvencilhava-se

de mim

 

Em: “Um País o Coração” (1980)

 

Meninos colhendo frutas

(Francisco de Goya: pintor espanhol)

 

Referência:

 

NEJAR, Carlos. Biografia. In: __________. Antologia poética. Prefácio, organização e selecção de António Osório. 1. ed. Cascais, PT: Pergaminho, 2003. p. 119-120. (“Poesia Fértil”; v. 4)