Empregando a metáfora
das formigas, a poetisa nos fala de sua jornada incansável e determinada –
ocasionalmente frustrante – no aprestamento de letras e palavras, num movimento
de busca por significado, realização e satisfação, quiçá também por conhecimento
e verdade: por ser um processo em boa medida instintivo, não há como se ter
absoluta certeza de que houve progresso ou maior alcance compreensivo de tais
sentidos ou propósitos.
O arsenal lexical da
derradeira “flor do Lácio” lhe é de grande utilidade, muito embora, nele,
sempre haja insuficiências ou lacunas para expressar tudo o que a falante tem a
dizer. Afinal, nossas aspirações muitas vezes superam os meios disponíveis que
temos para alcançá-las – e tanto mais quando elas dizem respeito a algo que, em
nossas mentes, ainda assoma meio indefinido ou elusivo.
J.A.R. – H.C.
Marina Colasanti
(n. 1937)
Em busca de
Como formigas
enfileiro letras e
palavras
em busca de um
caminho
ou de
uma caça.
Tudo me serve
e nada é suficiente.
Mordisco folha e talo
mas a raiz me escapa
carrego mil migalhas
e não alcanço o
trigo.
O formigueiro é fundo
e ainda assim
superfície.
E eu sigo pondo à
frente uma da outra
linha tão fina
sempre em movimento
que atravessa meus
dias
e de que
me alimento.
Nº 5
(Jackson Pollock:
pintor norte-americano)
Referência:
COLASANTI, Marina. Em busca de. In: __________. Mais longa vida: poesia. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2020. p. 22.
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