Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 24 de março de 2025

Anne Carson - Minha Religião

A escritora canadense, numa elocução desconcertante à primeira vista, reconhece a falta de sentido e de utilidade em sua própria religião; nada obstante, expressa sua determinação em continuar buscando uma conexão espiritual mais consistente: a seu ver, impomos uma divisão entre o humano e o divino, uma separação que obstaculiza nossa compreensão e percepção do sagrado.

 

Parece-lhe – e com ela anuímos – que a ideia de Deus, ou a sua vontade, vem sendo muito mal interpretada, numa mixórdia heteróclita de preceitos a cercear completamente a liberdade humana e a fazer terra arrasada do livre-arbítrio de que cada um se integra por direito.

 

Se há “algo simples” na mensagem das Escrituras, é o apelo por bondade, por caridade no convívio entre os homens: amar a Deus sobre todas as coisas é também amar o próximo como a si mesmo (Mt. 22:36-40). Como diria Schopenhauer (2001, p. 159-164), consistiria em perceber o meu próprio ser interior em projeção em cada criatura viva, num estado de compaixão sobre a qual repousa toda virtude autêntica, altruísta, caritativa, cuja expressão se convalida em nossas ações bem-intencionadas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anne Carson

(n. 1950)

 

My Religion

 

My religion makes no sense

and does not help me

therefore I pursue it.

 

When we see

how simple it would have been

we will thrash ourselves.

 

I had a vision

of all the people in the world

who are searching for God

 

massed in a room

on one side

of a partition

 

that looks

from the other side

(God’s side)

 

transparent

but we are blind.

Our gestures are blind.

 

Our blind gestures continue

for some time until finally

from somewhere

 

on the other side of the partition there we are

looking back at them.

It is far too late.

 

We see how brokenly

how warily

how ill

 

our blind gestures

parodied

what God really wanted

 

(some simple thing).

The thought of it

(this simple thing)

 

is like a creature

let loose in a room

and battering

 

to get out.

It batters my soul

with its rifle butt.

 

As Bodas de Caná

(Paolo Veronese: pintor italiano)

 

Minha Religião

 

Minha religião não faz sentido

e não me ajuda,

por isso vou ao seu encalço.

 

Quando virmos

quão simples ela poderia ter sido,

vamos nos autoflagelar.

 

Tive uma visão

de todas as pessoas no mundo

que estão à procura de Deus

 

reunidas numa sala,

em um lado

de uma divisória

 

com vista para

o outro lado

(o lado de Deus)

 

transparente,

mas somos cegos.

Nossos gestos são cegos.

 

Nossos gestos cegos perduram

por algum tempo até que, finalmente,

de algum lugar

 

do outro lado da divisória, lá estamos nós

a reconsiderá-los.

Mas é tarde demais.

 

Notamos quão entrecortadamente,

quão refreadamente,

quão imperfeitamente

 

nossos gestos cegos

parodiaram

a vontade de Deus

 

(alguma coisa simples).

A ideia disso

(dessa coisa simples)

 

é como uma criatura

solta numa sala

a se debater

 

para escapar.

Ela martela minh’alma

com a coronha do seu rifle.

 

Referências:

 

CARSON, Anne. My religion. In: YOUNG, Kevin (Ed.). The art of losing: poems of grief & healing. 1st ed. New York, NY: Bloomsbury, 2010. p. 156-157.

 

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre o fundamento da moral (A virtude da caridade). Tradução de Maria Lúcia Mello Oliveira Cacciola. 2. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, out. 2001. (Coleção ‘Clássicos’)

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