A escritora
canadense, numa elocução desconcertante à primeira vista, reconhece a falta de
sentido e de utilidade em sua própria religião; nada obstante, expressa sua
determinação em continuar buscando uma conexão espiritual mais consistente: a
seu ver, impomos uma divisão entre o humano e o divino, uma separação que
obstaculiza nossa compreensão e percepção do sagrado.
Parece-lhe – e com ela
anuímos – que a ideia de Deus, ou a sua vontade, vem sendo muito mal
interpretada, numa mixórdia heteróclita de preceitos a cercear completamente a
liberdade humana e a fazer terra arrasada do livre-arbítrio de que cada um se
integra por direito.
Se há “algo simples”
na mensagem das Escrituras, é o apelo por bondade, por caridade no convívio
entre os homens: amar a Deus sobre todas as coisas é também amar o próximo como
a si mesmo (Mt. 22:36-40). Como diria Schopenhauer (2001, p. 159-164), consistiria
em perceber o meu próprio ser interior em projeção em cada criatura viva, num
estado de compaixão sobre a qual repousa toda virtude autêntica, altruísta, caritativa,
cuja expressão se convalida em nossas ações bem-intencionadas.
J.A.R. – H.C.
Anne Carson
(n. 1950)
My Religion
My religion makes no
sense
and does not help me
therefore I pursue
it.
When we see
how simple it would
have been
we will thrash
ourselves.
I had a vision
of all the people in
the world
who are searching for
God
massed in a room
on one side
of a partition
that looks
from the other side
(God’s side)
transparent
but we are blind.
Our gestures are
blind.
Our blind gestures
continue
for some time until
finally
from somewhere
on the other side of
the partition there we are
looking back at them.
It is far too late.
We see how brokenly
how warily
how ill
our blind gestures
parodied
what God really
wanted
(some simple thing).
The thought of it
(this simple thing)
is like a creature
let loose in a room
and battering
to get out.
It batters my soul
with its rifle butt.
As Bodas de Caná
(Paolo Veronese:
pintor italiano)
Minha Religião
Minha religião não
faz sentido
e não me ajuda,
por isso vou ao seu
encalço.
Quando virmos
quão simples ela poderia
ter sido,
vamos nos autoflagelar.
Tive uma visão
de todas as pessoas
no mundo
que estão à procura
de Deus
reunidas numa sala,
em um lado
de uma divisória
com vista para
o outro lado
(o lado de Deus)
transparente,
mas somos cegos.
Nossos gestos são
cegos.
Nossos gestos cegos perduram
por algum tempo até
que, finalmente,
de algum lugar
do outro lado da
divisória, lá estamos nós
a reconsiderá-los.
Mas é tarde demais.
Notamos quão entrecortadamente,
quão refreadamente,
quão imperfeitamente
nossos gestos cegos
parodiaram
a vontade de Deus
(alguma coisa simples).
A ideia disso
(dessa coisa simples)
é como uma criatura
solta numa sala
a se debater
para escapar.
Ela martela minh’alma
com a coronha do seu
rifle.
Referências:
CARSON, Anne. My
religion. In: YOUNG, Kevin (Ed.). The art of losing: poems of grief
& healing. 1st ed. New York, NY: Bloomsbury, 2010. p. 156-157.
SCHOPENHAUER, Arthur.
Sobre o fundamento da moral (A virtude da caridade). Tradução de Maria
Lúcia Mello Oliveira Cacciola. 2. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, out. 2001.
(Coleção ‘Clássicos’)
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