Através do olhar
crítico do Sr. Cogito, seu alter ego, Herbert explora, por intermédio destes
expressivos versos, a dicotomia entre o ser interior e a máscara social – nossa
identidade pessoal –, bem assim a futilidade de quaisquer traços de vaidade,
tudo muito à vista das experiências pelas quais passamos, nosso passado, nossas
ações e os condicionamentos e influências que recebemos do entorno natural e
coletivo.
Somos as luzes e sombras
de uma portentosa carga histórica e psicológica que cada indivíduo leva consigo,
um amálgama de características físicas, tradições e valores, ou mais que isso, de
impulsos primários e legados culturais a suscitarem aspirações mais refinadas,
as quais, ao fim e ao cabo, deixam uma marca indelével em nossa aparência
física e nossa psique.
J.A.R. – H.C.
Zbigniew Herbert
(1924-1998)
Pan Cogito obserwuje
w lustrze swoją twarz
Kto pisał nasze
twarze na pewno ospa
kaligraficznym piórem
znacząc swoje “o”
lecz po kim mam
podwójny podbródek
po jakim żarłoku gdy cała moja dusza
wzdychała do ascezy
dlaczego oczy
osadzone tak blisko
wszak to on nie ja
wypatrywał wśród chaszczy najazdu Wenedów
uszy zbyt odstające dwie muszle ze
skóry
zapewne spadek po
praszczurze który łowił echo
dudniącego pochodu mamutów przez stepy
czoło niezbyt wysokie
myśli bardzo mało
– kobiety złoto
ziemia nie dać się strącić z konia –
książę myślał za nich a wiatr niósł po drogach
darli palcami mury i
nagle z wielkim krzykiem
spadali w próżnię by powrócić we mnie
a przecież kupowałem w salonach sztuki
pudry mikstury maście
szminki na szlachetność
przykładałem do oczu
marmur zieleń Veronesa
Mozartem nacierałem
uszy
doskonaliłem nozdrza
wonią starych książek
przed lustrem twarz
odziedziczoną
worek gdzie fermentują dawne mięsa
żądze i grzechy średniowieczne
paleolityczny głód i
strach
jabłko upada przy
jabłoni
w łańcuch gatunków spięte ciało
tak to przegrałem
turniej z twarzą
Autorretrato em
frente ao espelho
(Henri de
Toulouse-Lautrec: artista francês)
O Senhor Cogito
observa a sua face no espelho
Quem escreveu os
nossos rostos certamente a catapora
com a pena
caligráfica marcando o seu “o”
mas de quem herdei o
duplo queixo
de que glutão quando
toda a minha alma
suspira à ascese por
que os olhos
plantados tão
próximos se foi ele e não eu
quem procurava no
meio do matagal a invasão dos Vênedos
orelhas
demasiadamente destacadas duas conchas de pele
certamente legado de
um avoengo que caçava o eco
da estrondosa marcha
dos mamutes pelas estepes
a testa não muito
alta bem poucos pensamentos
– mulheres ouro terra
não se deixar derrubar do cavalo –
um príncipe pensava
por eles e o vento os carregava pelas estradas
rasgavam as muralhas
com os dedos e de repente com
um grande grito
caíam no vazio para
voltarem em mim
mas eu comprava nos
salões de arte
pós misturas pomadas
batons para o
enobrecimento
aplicava nos olhos o
mármore o verde de Veronese
esfregava os ouvidos
com Mozart
aperfeiçoava as
narinas com o odor de livros velhos
diante do espelho a
face herdada
saco no qual
fermentam carnes antigas
cobiças e pecados
medievais
fome e medo
paleolíticos
o fruto cai perto da
árvore
o corpo preso numa
corrente de espécies
foi assim que perdi o
torneio com a face
Referência:
HERBERT, Zbibniew. Pan
Cogito obserwuje w lustrze swoją twarz / O Senhor Cogito observa a sua face no
espelho. Tradução de Piotr Kilanowski. In: MENDONÇA, Vanderley (Ed.). Lira
argenta: poesia em tradução. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Selo Demônio
Negro, 2017. Em polonês: p. 356 e 358; em português: p. 357 e 359.
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