O poeta argentino faz
uma reinterpretação contemporânea, ao mesmo tempo crítica e compassiva, da tragédia
em que envolta a protagonista do romance homônimo de Gustave Flaubert (1821-1880):
a seu ver, a tentativa de escapar à solidão levou Emma a um amplificado fracasso,
dir-se-ia até inevitável, do que se a tivesse tomado por algo pessoal e
exclusivo. Com efeito, sem as ferramentas para vogar pelas complexas águas da
vida, a senhorinha acabou por submergir num vórtice arrasador de liberdade sem
freios e de paixões sinistras.
Carente de compreensão
e de conexão emocional, numa sociedade com mentalidade conservadora e
repressiva, Madame Bovary teria sido vítima das expectativas sociais e de
gênero impostas às mulheres de seu tempo. Para atenuar os tormentos de Emma, o
falante lhe propõe que encontre consolo junto à cultura popular hodierna – adotando,
v.g., a postura da contracultura hippie dos anos 60 ou, ainda, ouvindo as
composições dos Beatles –, longe, por conseguinte, das imposições restritivas do
contexto social provinciano em que a protagonista, de fato, vivera.
J.A.R. – H.C.
Alfredo Veiravé
(1928-1991)
Madame Bovary
Emma te equivocaste
cuando saliste de tu
casa en un carruaje con grandes
ruedas que corrían
hacia atrás como en las películas del
Oeste
porque tu soledad era
algo que debía ser solamente tuya
y porque era fatal
que
nadie te comprendiera
en ese pueblo de provincias
ni siquiera tu marido
el pobre hombre gris
herido de tu amor
Bueno no me hables
ahora de tus taquicardias
o de los vestidos con
enaguas y encajes
déjame explicarte
que me conduelo
solamente
porque te perseguían
furiosamente
los vecinos ineptos
en el juego
de tu corazón virgen
y tu siglo era un
cambio
lentamente mirado a
través de las celosías
de la villa
más bien ponte el
anillo o los collares de los hippies
y piensa en Carnaby
Street en cómo lograr la infidelidad
sin que tengas que
recurrir a tu conciencia
de pobre muchacha
provinciana
Yo pienso que
buscabas saber solamente
cómo te desnudarían
los otros
y estos otros
cretinos te traicionaron
Emma
Dame la mano no
llores más
quédate en silencio
y escuchemos juntos
estos discos de los Beatles
Jovem num barco
(James Tissot: pintor
francês)
Madame Bovary
Emma, cometeste um
erro
quando saíste de casa
numa carruagem com grandes
rodas que andavam
para trás, como nos filmes de
faroeste,
porque a tua solidão
era algo que deveria ser só tua
e porque era fatal
que
ninguém te
compreendesse naquela aldeia provinciana,
nem mesmo teu marido,
o pobre e tedioso
homem ferido pelo teu amor.
Bem, não me fales
agora de tuas taquicardias
ou dos vestidos com
anáguas e rendas;
deixa-me explicar-te
que só me sinto
condoído
em razão de que te
perseguiam furiosamente
os vizinhos ineptos
no jogo
de teu coração virginal,
e o teu século era
uma mudança
que se divisava tão lentamente
através das gelosias
da herdade;
mas agora põe-te o
anel ou os colares dos hippies
e pensa em Carnaby
Street, em como alcançar a infidelidade
sem que tenhas que recorrer
à tua consciência
de pobre senhorinha
de província.
Julgo que estavas
apenas procurando saber
como os outros
haveriam de te despir,
e esses cretinos te
traíram.
Emma,
Dá-me a mão, não
chores mais,
fica em silêncio
e escutemos juntos
estes álbuns dos Beatles.
Referência:
VEIRAVÉ, Alfredo. Madame Bovary. In: BORDA, Juán Gustavo Cobo (Selleción, prólogo y notas). Antología de la poesía hispanoamericana. 1. ed. México, DF: Fondo de Cultura Económica, 1985. p. 365. (Colección ‘Tierra Firme’)
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