Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Stéphane Mallarmé - Brisa marinha ‎

O poeta emprega a imagem comumente difundida do mar para evocar uma espécie de partida de sua vida cotidiana: diz ele que gostaria de fugir para um lugar onde as aves já planem bêbadas por estar entre a espuma do alto-mar e a imensidão dos céus.

Há certa sensação eclesiástica de frustração advinda do cansaço: tornaram-se fracos o espírito e a carne, o compromisso de livros por ler ou escrever começa a parecer inoportuno ou enfadonho. Disso tudo resultou insatisfação e não contentamento. O poeta oscila entre polos de esperança e desapontamento nessa aventura pelágica, que também é a vertente metafórica da aventura poética.

J.A.R. – H.C.

Stéphane Mallarmé
(1842-1898)

Brise marine

La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots…
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!

Brisa do Mar do Norte na Costa Holandesa
(Edward William Cooke: pintor inglês)

Brisa marinha

A carne é triste, e eu li todos os livros, todos.
Fugir! Além! Eu sei que há pássaros já doidos
Por se ver entre os céus e a espuma do alto-mar!
Nada, nem os jardins refletidos no olhar,
Retém meu coração que já no mar se aninha,
Nem, ó noites, a luz da lâmpada sozinha
Sobre o papel vazio, intangível de brilho,
E nem a mulher moça amamentando o filho.
Hei de partir! Vapor de mastros oscilantes,

Ergue a âncora para regiões extravagantes!
Um Tédio desolado, entre anseios intensos,
Ainda acredita no supremo adeus dos lenços!
E esse mastros, talvez, cheios de maus presságios,
São dos que um vento faz vagar sobre os naufrágios
Sem ilhas férteis e sem mastros de veleiros…
Mas, ó minha alma, ouve a canção dos marinheiros!

Referência:

MALLARMÉ, Stéphane. Brise marine / Brisa marinha. Tradução de Guilherme de Almeida. In: ALMEIDA, Guilherme (Seleção e Tradução). Poetas de França. Prefácio de Marcelo Tápia. 5. ed. São Paulo, SP: Babel, 2011. Em francês: p. 78; em português: p. 79.

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