Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Eugénio de Andrade – O Pequeno Persa

Vai aqui uma rápida postagem com poeminha do poeta lusitano Eugénio de Andrade, dono de um pequeno gato persa. O vate expressa, nominalmente, um “amor materno” pelo seu bichano, que, por sua vez, torna mais alegres os dias remanescentes do seu amo.

 

J.A.R. – H.C. 

 

Eugénio de Andrade

(1923-2005)

 

O Pequeno Persa

 

É um pequeno persa

azul o gato deste poema.

Como qualquer outro, o meu

amor por esta alminha é materno:

uma carícia minha lambe-lhe o pelo,

outra põe-lhe o sol entre as patas

ou uma flor à janela.

Com garras e dentes e obstinação

transforma em festa a minha vida.

Quer-se dizer, o que me resta dela.

 

[De: “O Outro Nome da Terra”] 

 


Referência:

 

ANDRADE, Eugénio de. O pequeno persa. In: COSTA E SILVA, Alberto; BUENO, Alexei (Seleção e Introdução). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 128.

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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Curtas & Rápidas: 10 de Julho de 2014

Acaba de ser conhecido o segundo finalista da Copa do Mundo 2014, a enfrentar a Alemanha no grande jogo do próximo domingo (13/7/14): é a Argentina, que passou pela Holanda nos pênaltis, 4 x 2, depois de 0 x 0 nos 120 minutos jogados. Na terça-feira anterior, a Alemanha já havia sapecado o humilhante 7 x 1 na descaracterizada seleção brasileira, resultado que o Correio Braziliense adjetivou como “Um Vexame para a Eternidade”.
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O melhor é que, apesar da humilhação, foram os próprios brasileiros que, mais do que ninguém, inundaram a internet com “memes” galhofeiros em relação ao time de Felipão. Contudo, entre manchetes de jornais, postagens de blogs e os referidos “memes”, o melhor que encontrei – e ri um bocado! –, foi a capa apresentada pelo jornal carioca – tinha que ser carioca! – Meia Hora, com o título “Não Vai Ter Capa”, a reescrever a anterior ameaça de “Não Vai Ter Copa”, com uma pequena nota ao final, que todos podem contemplar na imagem abaixo, possibilitando a associação a este famoso vídeo de um hipotético jogo entre o Fluminense e o Barcelona, com miríades de gols para o time catalão.

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O embate entre Alemanha e Argentina revive as finais consecutivas de 1986 – com vitória da Argentina de Maradona por 3 x 2 – e de 1990 – com vitória da Alemanha de Lothar Matthäus por 1 x 0. Logo, a partida do próximo domingo, no novo Maracanã, será uma disputa que desempatará o histórico.
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E não porque tenha vencido por 7 x 1 o Brasil, num jogo atípico, mas porque vem apresentando mais consistência em seu jogo, imagino que, em condições “coeteris paribus”, a seleção europeia vença a partida, seja nos 90 minutos, ou numa eventualidade, nos 120. Ademais, nota-se certa fragilidade ofensiva da Argentina, que marcou mais de um gol em apenas dois cotejos – contra a Bósnia e a Nigéria –, embora, por outro lado, nas duas últimas partidas tenha conseguido equilibrar a sua defesa, com o preenchimento dos espaços laterais por jogadores que retornam para marcar.
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Não se sabe, além disso, se Di Maria terá condições de jogo para a final, o que seria bastante oportuno para reforçar a seleção alviceleste, haja vista que as últimas apresentações de Messi tem deixado muito a desejar, considerando que, provavelmente, esteja sentindo o ritmo em razão do padrão diferenciado do calendário europeu de futebol.
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Eventual prorrogação na partida derradeira somente à Alemanha seria de algum modo favorável, pois além de ter jogado sua semifinal no dia anterior – com folga, portanto, de 24 horas adicionais , não necessitou de delongas no tempo de jogo para vencer o disparatado time brasileiro, fato que não ocorreu ontem no jogo entre Holanda x Argentina. Sob tal ótica, o histórico é francamente desfavorável à seleção sul-americana, senão vejamos: Copa de 70 => semifinal em que a Itália jogou prorrogação contra a Alemanha e, na final, perdeu para o Brasil por 4 x 1; Copa de 82 => semifinal em que a Alemanha pelejou na prorrogação contra a França e, ao final, sucumbiu por 3 x 1 para a Itália; Copa de 98 => semifinal em que o Brasil jogou prorrogação contra a Holanda e, na final, caiu fragorosamente para a França por 3 x 0; e Copa das Confederações de 2013 => semifinal em que a Espanha foi à prorrogação contra a Itália e, na final, perdeu para o Brasil por 3 x 0. Fazemos uma pequena ressalva para a final da Copa do Mundo de 90: ambos os finalistas, Argentina e Alemanha, jogaram prorrogação contra os seus respectivos adversários, Itália e Inglaterra, o que, sob tal aspecto, os nivelou.

P.s.: Fui alertado por um amigo de que, na Copa de 2006, a campeã Itália venceu a França nos pênaltis, depois de 1 x 1 nos 120 minutos, mesmo havendo jogado prorrogação na semifinal contra a Alemanha, quando a venceu por 2 x 0. Tal caso serve de exceção à observação deste ponto e mostra, em grandes linhas, por onde passam as chances de a Argentina conseguir um grande feito.
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O site Chance de Gol estima uma probabilidade de 58,4% para a Alemanha ser campeã e 41,6% para a Argentina. O Cortana da Microsoft também passou a apontar a Alemanha como provável campeã. E mais, o Brasil com a medalha de bronze. Meu palpite para a final é 2 x 1 para a Alemanha. Mas qualquer placar, mínimo que seja, para qualquer dos lados, não será uma aberração.

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Imagino, por fim, que a Argentina encontrará um adversário a mais no Rio de Janeiro: a numerosa torcida rubronegra do Flamengo, time carioca que possuiu uniforme bem parecido com o da Alemanha. Tendo em vista a cizânia futebolística existente entre os dois principais rivais sul-americanos, é provável que a maior parte da torcida no Maracanã venha a torcer pela seleção europeia. Este que vos escreve é bem indiferente ao resultado da contenda. Só espero que seja um jogo bem jogado, para compensar o tempo que ficarei em frente à televisão! Vejamos o que ocorrerá nas duas últimas duas partidas desta Copa do Mundo, que, a meu ver, deixou um pouco a desejar no plano técnico, pela ausência de brilho de suas principais estrelas.

J.A.R. – H.C.
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Ernesto Sabato – Buenos Aires

Buenos Aires – Argentina

Entre o Bem e o Mal

“Nos tratados, o escritor deve ser coerente e unívoco, e por isso o ser humano escapa de suas mãos. No romance, o personagem é ambíguo como na vida real, e a realidade que aparece numa grande obra de ficção é realmente representativa. Qual é a verdadeira Rússia? A do piedoso, sofredor e compreensivo Aliosha Karamazov ou a do canalha Svidrigailov? Nem uma, nem outra. Ou, melhor dizendo, uma e outra. O romancista é todos e cada um dos seus personagens, com a totalidade das contradições que essa multidão comporta. É ao mesmo tempo, ou em diferentes momentos de sua existência, piedoso e cruel, generoso e mesquinho, austero e libidinoso. E quanto mais complexo é um indivíduo, mais contraditório ele é. A mesma coisa ocorre com os povos” (SABATO, 2008, p. 60).

Ernesto Sabato
(1911-2011)

Referência:

SABATO, Ernesto. Entre o bem e o mal. In: __________. A resistência. Tradução de Sérgio Molina. 1. ed. 1. reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 47-63.

terça-feira, 8 de julho de 2014

João Rasteiro - O que é a poesia?

Para conceituar o que julga ser a poesia, trazemos agora João Rasteiro, poeta e ensaísta português. Rasteiro faz aproximações ao conceito com preleções próprias e de terceiros, alguns destes bem famosos, como o escritor inglês Samuel Johnson e o poeta e cineasta francês Jean Cocteau.

J.A.R. – H.C. 
João Rasteiro
(n. Coimbra, 1965)

O que é a poesia?

Na juventude era sobretudo estranhamento, depois passou a ser brincadeira e prosápia, só que agora é medo e sofrimento. Poderia talvez dizer que a poesia é. Talvez substanciá-la como espanto e descoberta, caos e criação, vida e morte, verbo e substantivo. Poderia até dizer que a poesia é o lugar mais recôndito e primordial da alucinada linguagem em seus mundos e corpus de perplexidade. Poderia talvez, como refere Herberto Helder, dizer que ela é “esta mão que escreve a ardente melancolia / da idade / é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça, / que à imagem do mundo aberta de têmpora / a têmpora / ateia a suntuosidade do coração”.

Eu sei, eu estou também plenamente convencido de que hoje cada vez mais, quando olho Gaza, Darfur, Bagdá ou Tibete, a poesia não serve para nada, como diz o poeta e amigo Ricardo Aleixo: “A poesia não serve para nada, não se compra pão com palavras, mas não se vive sem ela. O dizer poético é a dimensão amplificada da crise do humano. Não acalma. Ao contrário, nos mostra o quanto ao vivo é muito pior”. Eu sei, eu também ambiciono que cada vez mais a poesia seja ato e não produto. Agora, poesia?

Como comparou Samuel Johnson, “Senhor, o que é a poesia? – Bem, senhor, é muito mais fácil dizer o que não é. Todos nós sabemos o que é a luz, mas não é fácil dizer o que é”. Por isso, talvez como afiança Jean Cocteau, “a poesia é uma religião sem esperança”. E no entanto o mundo (os mundos) e a linguagem precisam agora mais do que nunca desta religião para ainda ter esperança.

Painting is Poetry
(Nay Sun – Artista de Mianmar)

Referência:

RASTEIRO, João. O que é a poesia para você?. In: CRUZ, Edson (org.). O que é poesia? Rio de Janeiro: Confraria do Vento; Calibán, 2009. p. 68-69.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Curtas & Rápidas: 7 de Julho de 2014

Conhecidos os adversários das semifinais do Mundial 2014 – Brasil x Alemanha e Holanda x Argentina. As vitórias dessas quatro seleções em seus confrontos anteriores podem ser consideradas normais, embora a mais tranquila de todas – ou de outro modo, a de menores riscos para o vencedor –, a meu ver, tenha sido a da Alemanha contra a França. Por outro lado, a pior de todas as partidas, sem sombra de dúvidas, foi a da Argentina contra a Bélgica: um jogo que pode se inscrever entre os cinco mais fracos da Copa, fortemente impactado pelo calor que fez aqui em Brasília durante o sábado passado.
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Surpreendente, mesmo, foi a seleção de Costa Rica, que conseguiu aguentar o empate contra a Holanda em mais um jogo de 120 minutos, só então perdendo nos pênaltis, mostrando que já há um nivelamento bem acentuado no futebol mundial, muito embora, ao final e como se percebe, as quatro seleções das semifinais estão entre as que, historicamente, sempre entre as principais.
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Uma nota: Van Gaal mostrou muita convicção ao substituir o seu goleiro no último minuto da prorrogação contra a Costa Rica. E deu sorte, pois o substituto conseguiu defender dois pênaltis. Quiçá, todavia, que o resultado da partida tenha lhe mostrado que futebol não se ganha nada com palavrório e antecipadamente. Afinal, seria bom que percebesse que a Holanda iria enfrentar a melhor defesa do Mundial até ali. Moral da história: nada de gols, embora houvesse perdido muitos e, ao final, fosse favorecida pela arbitragem, que não assinalou um pênalti em favor de Costa Rica, quando a prorrogação já se encaminhava para o seu fim.
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Quanto ao jogo da Argentina contra a Bélgica, foi tedioso do começo ao fim. A seleção azul e branco encontrou o seu gol muito cedo, e ao perder o jogador Di Maria na metade do primeiro tempo – talvez até nem jogue as próximas partidas –, passou a “administrar” a partida, sentindo o calor, tanto quanto a seleção belga, que parecia não ter fôlego para conseguir algo mais.
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No que pertine ao jogo do Brasil contra a Colômbia, a seleção nacional fez um bom primeiro tempo, mas como sempre, caiu muito no segundo, quando a Colômbia poderia ter empatado o jogo, circunstância que, não fosse o gol oportuno do zagueiro David Luiz, certamente teria ocorrido – e complicado bastante as coisas para o Brasil: a ausência de constância, toque de bola e de segurança em seu meio de campo é notória e, agora, com a definitiva saída do Neymar por lesão, consertar o setor é atribuição das mais difíceis a esta altura do torneio. A seleção brasileira não tem plano “B”. Veja aqui os motivos pelos quais afirmo isso. Agora, o que resta é encher o meio de campo com tantos jogadores quanto seja possível e seja o que Deus quiser contra a Alemanha.
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Gostaria de tecer breves considerações sobre o lance do jogador Zuñiga, numa entrada no craque Neymar. Trata-se, obviamente, de um fato condenável, resultante, enquanto natural corolário, da orientação da própria Fifa, para que os árbitros fossem mais comedidos na atribuição de cartões amarelos e vermelhos. Nesse contexto, temos que observar: o jogador Fernandinho, do Brasil, lançou mão dos mesmos artifícios antijogo, pois cometeu duas faltas desclassificantes contra o meia-atacante James Rodriguez, e, tal como no caso de Zuñiga, sequer foi advertido com cartão amarelo. Avaliação: o árbitro Carlos Velasco Carballo deveria ser expedido, imediatamente, de volta à Espanha.
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O site Chance de Gol estima uma probabilidade de 59,0% para o Brasil passar à final, 21,6% para a Alemanha e 19,4% para o empate. De forma similar, 41,6% de chances para a Argentina ir à finalíssima, 33,5% para a Holanda e 24,9% para o empate. Isto é: prevê uma inédita final Brasil x Argentina, para deixar com o coração na mão os torcedores platinos e verde-amarelos.
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Já o assistente virtual da Microsoft Cortana prevê que a Alemanha – com pouca margem probabilística – e a Argentina – com margem bem maior – passarão à final, repetindo as finais de 86 e 90. Meus palpites são: Brasil 1 x 1 Alemanha, com a Alemanha passando à final nos pênaltis; e Holanda 1 x 0 Argentina. Em suma: prevejo uma final similar à de 1974, uma chance de ouro para a Holanda se vingar da derrota por 2 x 1 para a Alemanha.
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Uma última, para rirmos um pouco: ficamos sabendo que o árbitro da partida será o mexicano Marco Rodríguez, o mesmo que não viu a mordida de Luisito Suárez. Resumo: vai valer tudo. E mais: a Alemanha jogará com a camisa rubronegra. Venceremos: afinal, não é possível que a seleção brasileira não seja capaz de vencer um time que está na zona do rebaixamento do Brasileirão 2014  o Flamengo! E se a torcida do Cruzeiro resolver ir ao Mineirão, a coisa fica ainda mais fácil: o Urubu está cansado de perder por lá. A última partida ficou, simplesmente, 3 x 0 (rs).

Vejamos o que ocorrerá nas duas semifinais...

J.A.R. – H.C.
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domingo, 6 de julho de 2014

H. L. Mencken - A Nova Poesia

Assim como o fizemos para os temas da “beleza” e da “verdade”, postaremos aqui vários excertos, de autores os mais diversos, a comentarem sobre o que seria, sob os seus respectivos pontos de vista, a experiência poética, ou mais sucintamente, a “poesia”.

Começaremos com o parecer de um dos pensadores norte-americanos mais iconoclastas, a saber, Henry Louis Mencken, o renomado autor de “O Livro dos Insultos”, de onde o extraímos.

O que Mencken parece sugerir em seu discurso é que a poesia não se confunde com a arte de fazer versos, e um bom poeta não pode ser avaliado, tão apenas, pela sua habilidade ou talento de versificador. Ou por outra: a poesia supera quaisquer padrões ou leis rígidas quanto à manutenção de métricas, rimas ou sonoridades. Pode ela, inclusive, emanar exatamente das transgressões que suscita em relação a tais regras.

Além do mais, não teria sido por tal motivo, pelas prescrições rígidas que definiam o programa dos parnasianos, que o poeta Manuel Bandeira lhes teria endereçado o chistoso poema “Os Sapos”?

J.A.R. – H.C. 
H. L. Mencken
(1880-1956)

A Nova Poesia

O problema da maioria dos novos poetas é o de que eles são muito cerebrais – ou seja, atacam os problemas de uma arte com os métodos da ciência. Esse erro perpassa por todos os debates sobre o assunto em que se metem. Tais debates estão cheios de teorias e frases feitas que não funcionam e nem são verdadeiras. O poeta dos velhos tempos não ligava para teorias. Quando lhe vinha aquela vontade de escrever, simplesmente entrava numa banheira com espuma, amarrava uma toalha na cabeça e tentava reduzir seus sentimentos ao papel. Se tivesse algum jeito para a coisa, o resultado era poesia; se não, era nonsense. Mas mesmo o seu pior fracasso ainda tinha algo natural e desculpável – era o fracasso de um homem com febre de expressar-se. O fracasso do novo poeta é até mais grotesco que o do cientista que se revela um charlatão – de um matemático que divide 20 por 4 e consegue 6, ou de um cozinheiro que tenta fazer uma omelete com maçanetas de porcelana.

A poesia não pode ser maquinada por processos puramente intelectuais. Ela não tem nada a ver com o intelecto; na verdade, chega a ser uma inimiga feroz e irreconciliável do intelecto. Seu propósito não é o de estabelecer fatos, mas o de evitá-los ou negá-los. O que ela tenta fazer é tornar a vida mais suportável num mundo intolerável, escondendo e obliterando todas as realidades desagradáveis. Sua mensagem é a de que tudo estará bem amanhã ou, na pior das hipóteses, na terça-feira que vem; de que um túmulo não é frio e úmido, mas aquecido a vapor e coberto de rosas; que uma garota não é um mamífero vivíparo, composto de organismos patogênicos e de um egoísmo esclarecido, mas um anjo com asas aparadas e um coração de ouro. Tire da poesia essa negação dos fatos crus e pavorosos – e ela deixará de ser o que pretendia. Pode até ser boa prosa; até mesmo belíssima prosa. Mas não conseguirá fazer ferver o sangue, como faz o verdadeiro poeta; não oferecerá aquele consolo acariciador, aquela fuga da realidade e nem aquele bálsamo para cada coceira ou ferroada espirituais que sofremos.
[1927]

Lucrezia as the Personification of Poetry
(Salvator Rosa: 1615-1673)

Referência:

MENCKEN, Henry Louis. A literatura dolorosa: a nova poesia. In: __________. O livro dos insultos. Seleção, tradução e prefácio de Ruy Castro. São Paulo Companhia das Letras, 1988; 5. Reimpressão, 1996. p. 167-168.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Roland Barthes - Cherbourg

 
CHERBOURG - FRANÇA

 

O Prazer do Texto

 

“Poder-se-ia imaginar uma tipologia dos prazeres de leitura – ou dos leitores de prazer; não seria sociológica, pois o prazer não é um atributo nem do produto nem da produção; só poderia ser psicanalítica, empenhando a relação da neurose leitora na forma alucinada do texto. O fetichista concordaria com o texto cortado, com a fragmentação das citações, das fórmulas, das cunhagens, com o prazer da palavra. O obsessional teria a voluptuosidade da letra, das linguagens segundas, desligadas, das metalinguagens (esta classe reuniria todos os logófilos, linguistas, semióticos, filólogos: todos aqueles para quem a linguagem reaparece). O paranoico consumiria ou produziria textos retorcidos, histórias desenvolvidas como raciocínio, construções colocadas como jogos, coerções secretas. Quando ao histérico (tão contrário ao obsessional), seria aquele que toma o texto por dinheiro sonante, que entra na comédia sem fundo, sem verdade, da linguagem, que já não é o sujeito de nenhum olhar crítico e se joga através do texto (o que é muito diferente do se projetar nele)”.

 

Roland Barthes

(1915-1980)

Referência:

 

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução de J. Guinsburg. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013. p. 73-74.

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quinta-feira, 3 de julho de 2014

Curtas & Rápidas: 3 de Julho de 2014

Complementando a postagem de ontem, comentaremos agora os dois jogos que ficaram faltando: Brasil x Colômbia e Argentina x Bélgica. Comecemos por este último. A Argentina vem mostrando pouco poder de fogo ofensivo e, em sua partida contra a Suíça, novamente se salvou pelo oportunismo de sua excepcional dupla Messi e Di Maria. Não fossem os dois, e o time até agora estaria cruzando bolas na área adversária infrutiferamente, pois seus jogadores de ataque são bons com a bola nos pés, e não trombando contra os grandalhões zagueiros suíços.
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Como já frisei anteriormente, a defesa da Argentina não é confiável, e só não tomou gol contra o time europeu por pura sorte, porque chances não faltaram para a seleção vermelha. Note-se, ainda, que um dos titulares do time azul e branco não jogará, por suspenso; contudo, penso que sua ausência não será sentida, pois, seja como for, tudo o que a Argentina vier a apresentar estará na relação direta do que a precitada dupla de jogadores se propuser a fazer (ou deixar de fazer).
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Quanto à seleção da Bélgica, agradou-me pelo desempenho apresentado contra os EUA, a quem somente não goleou pela excepcional partida do goleiro norte-americano. Todavia, isso também denota falta de apuro no ataque belga, que melhorou bastante depois da entrado do nº 9, Romelu Lukaku, que, sinceramente, não sei por qual razão é reserva no time. A entrega, a correria e média de altura do elenco podem trazer problemas sérios à zaga argentina. De modo similar, a defesa da Bélgica sofre dos problemas similares à da Alemanha: jogadores excessivamente altos e meio lentos por baixo. Houvesse mais uns cinco minutos de prorrogação, e os EUA poderiam ter empatado a partida. Em suma: apostaria em uma vitória da Argentina, nos 90 ou nos 120, por uma vantagem mínima de um gol.
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Falemos agora de Brasil x Colômbia: sinceramente, depois do tanto que se falou do desempenho ruim da seleção em seus primeiros jogos, já estou achando que pior não poderá ser contra a seleção andina (rs). Não se pode negar a falta de talento no elenco brasileiro, e se a Colômbia tiver paciência e souber enervar o adversário – assim como o fazem muito bem os jogadores uruguaios ou argentinos –, poderá vencer a partida ainda dentro dos 90 minutos, pois não acredito numa virada verde-amarela, se a Colômbia colocar vantagem no placar, mínima que seja.
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A despeito disso, penso que tal não seja o mais plausível de ocorrer, porque tudo estará na dependência de a Colômbia suportar bem a pressão brasileira na primeira meia hora de jogo, que será, imagino eu, maior do que contra o Chile. Aguardemos.
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Aproveito, por fim, para apresentar uns palpites numéricos para os resultados das partidas – ao final dos 90 ou dos 120 minutos – levando-se em consideração o desempenho de ataques e defesas, assim como as estimativas de probabilidades calculadas pelo site Chance de Gol, a saber (a coluna do meio refere-se às chances de empate):

Brasil        56,2%      22,9%      20,9%  Colômbia
França      32,2%      24,9%      43,0%  Alemanha
C. Rica      10,7%      20,9%      68,4%  Holanda
Bélgica      16,7%      25,5%      57,8%  Argentina

Vão aqui os palpites:

Brasil 2 x 1 Colômbia
França 1 x 1 Alemanha
Costa Rica 0 x 4 Holanda
Bélgica 1 x 2 Argentina

Vejamos se as forças esotéricas estão em concordância com os meus prognósticos!

J.A.R. – H.C.
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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Curtas & Rápidas: 2 de Julho de 2014

Definidos os quatro confrontos das quartas de final da Copa 2014, parece-me que, para apenas um, se poderá indicadar um franco-favorito: a Holanda, a enfrentar a seleção de Costa Rica. Para os demais casos, distintamente ao ocorrido nas oitavas – quando todas as equipes que lideraram os seus respectivos grupos lograram progredir na competição –, quaisquer resultados serão, a meu ver, absolutamente normais.
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Para aquele que considero o confronto mais equilibrado de todos, França x Alemanha às 13h da próxima sexta-feira, veremos quem “renascerá” a 4 de julho (rs). A depender da temperatura no dia da partida, a se realizar no Rio de Janeiro, é possível que a Alemanha venha a sofrer mais com o calor do que a França, ainda mais porque jogou uma prorrogação contra a Argélia, coisa que não ocorreu com a seleção francesa.
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Com desempenho menos convincente em suas três últimas partidas, a Alemanha terá que mostrar mais consistência defensiva, pois no primeiro tempo da partida das oitavas esteve para “entregar o ouro”, o que poderia ter de fato ocorrido, não fosse a atuação segura de seu goleiro, que se tornou um verdadeiro líbero. Seus zagueiros, excessivamente altos, são meio lentos pelas jogadas por baixo, e isso pode ser um fator a ser aproveitado pela equipe francesa.
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Quanto à seleção da França, pelo que vi em sua partida contra a Nigéria, tem um conjunto mais bem acertado, embora com fronteiras de possibilidades e de recursos aquém das do elenco alemão. O seu principal jogador, Karim Benzema, não é um craque que, tal como Messi, seja capaz de desequilibrar uma partida em favor de seu time. É um jogador, verdade se diga, um pouco acima da média. Mas distante das grandes estrelas, como o Zidane, por exemplo. Palpite para o jogo: empate nos 90 minutos, após o que a França poderá abrir alguma vantagem e se classificar para a semifinal.
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Amanhã darei os meus palpites para os outros dois jogos das quartas de final: Brasil x Colômbia, às 17h da próxima sexta-feira, em Fortaleza, e Argentina x Bélgica, às 13h do sábado, aqui em Brasília.


J.A.R. – H.C.
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terça-feira, 1 de julho de 2014

Rumi – A Evolução da Forma

Para quem aprecia a beleza dos poemas sufistas do poeta e pensador Rumi, transcrevo nesta postagem uma de suas mais famosas poesias, “A Evolução da Forma”, a sublinhar a perenidade da alma, enquanto em trânsito pelas mais diversas modalidades em que poderá se incorporar à natureza, até que tenha cumprido a sua jornada, quando então retornará como um “anjo”.

No cerne dessas criações extáticas, alheadamente a considerações de tempo, lugar ou cultura, sobressai uma imaginação fértil, capaz de combinar riqueza mística e ousadas adaptações de formas poéticas.

Enquanto isso, indago silenciosamente aos meus botões, depois de meditar sobre o poema que ora seleciono: quando estarei por aqui sob forma “angelical”? Por quantos mundos ainda terei que trafegar? (rs).

J.A.R. – H.C.
Jalal ud-Din Rumi
(1207-1273)

A Evolução da Forma

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos
dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torne mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman.

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre “Um” com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

Cobblestone Bridge
(Thomas Kinkade: 1958-2012)

Referência:

RUMI, Jalal ud-Din. A evolução da forma. Tradução de José Jorge de Carvalho. In: __________. Poemas místicos: Divan de Shams de Tabriz. Seleção, tradução e introdução de José Jorge de Carvalho. 2. ed. São Paulo: Attar, 2010. p. 66-67.