Bonet atém-se à
função metalinguística da palavra para nos fazer ver que a poesia nem sempre
necessita de grandes temas: às vezes, basta o som do tilintar de xícaras no
terraço de um café para que nasçam versos cheios de clareza – sem aquela
impostação artificiosa pretensamente inspirada por forças superiores –, como se
fossem o corolário de um gesto natural, algo improvisado ou despretensioso.
A escrita, assim,
passa a ser concebida como um fluxo espontâneo e descontraído, ao largo do
bulício urbano, que surge da observação serena do entorno, ou melhor, da
contemplação de tudo o que há à volta de uma vida tranquila e anônima, à margem
dos grandes acontecimentos, seguindo o seu curso sem esforço.
J.A.R. – H.C.
Juan Manuel Bonet
(n. 1953)
Escribir
Escribir – como si
nada fuera importante –
el sencillo irse de
las horas
sentado en la terraza
de un café
de una provincia española.
Escribir, como si
estuviera escrito
que el ruido de esas
tazas sobre el mármol
tuviera que pasar el
arroyo claro
de unos versos.
Escribir, como si
nada fuera.
En: “La patria
oscura” (1983)
O Terraço do Hotel
Mistral
(Georges Braque: pintor
francês)
Escrever
Escrever – como se
nada fosse importante –
o simples passar das
horas
sentado no terraço de
um café
de uma província
espanhola.
Escrever, como se
estivesse escrito
que o tilintar dessas
xícaras sobre o mármore
tivesse que passar pelo
ribeiro límpido
de uns versos.
Escrever, como se
nada fosse.
Em: “A pátria escura”
(1983)
Referência:
BONET, Juan Manuel.
Escribir. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección y introducción). Antología
cátedra de poesía de las letras hispánicas. 8. ed. Madrid, ES: Ediciones
Cátedra (Grupo Anaya S.A.), 2011. p. 1151.
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