Eis um convite a uma
forma de conhecimento superior através da contemplação desinteressada, ativa e
receptiva a um só tempo, sem intenção de julgamento ou de posse: o poeta nos dá
conta de que o mistério está aqui mesmo, mostrando-se em seu esplendor a quem
está disposto a tudo perscrutar, sem aquele desejo malsão de agarrar o que quer
que seja somente para si, sabendo que não há dualidade entre o interior e o
exterior, superfície e abismo.
A missão do homem é
perceber a unidade de todas as coisas, a conformar um todo contínuo e coerente,
para que então possa entrar em comunhão com o essencial, dissolvendo o “eu”
individual no próprio ato de contemplar, à maneira das uniões místicas levadas
a efeito por ascetas de todos os quadrantes – a exemplo das que experimentou o conterrâneo
de Crespo, o sacerdote e também poeta São João da Cruz –, ou mesmo das iluminações
súbitas e intuitivas da verdadeira natureza das coisas, consectárias aos
despertares de satori, no âmbito do zen-budismo.
J.A.R. – H.C.
Ángel Crespo
(1926-1995)
El misterio no dice:
se muestra, y contemplarlo
es prodigioso oficio, pues se hace
la mirada interior una con él
aunque a sí misma no pueda mirarse.
No es renuncia ni
entrega contemplar
– mas sin intentar
poseerla –
la realidad entera
silenciosa
cuya superficie nos
muestra
una paisaje parejo al
interior
mostrarse de su
abismo
– en el que las
palabras se transmutan
en miradas: para
aceptar
lo que, al estar
oculto, más se muestra.
En: “La realidade
entera” (1989-1995)
São Jerônimo no
Deserto
(Leonardo da Vinci:
artista italiano)
A realidade inteira
O mistério nada diz:
ele se mostra, e
contemplá-lo
é uma prodigiosa
tarefa, pois o olhar
interior se torna um
com ele,
embora a si mesmo não
consiga se olhar.
Não é renúncia nem
entrega contemplar
– mas sem tentar
possuí-la –
toda a silenciosa
realidade,
cuja superfície nos mostra
uma paisagem similar à
que se revela
do interior de seu
abismo
– no qual as palavras
se transmutam
em olhares: para
aceitar
o que, por estar
oculto, mais se mostra.
Em: “A realidade
inteira” (1989-1995)
Referência:
CRESPO, Ángel. La realidad
entera. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección y introducción). Antología
cátedra de poesía de las letras hispánicas. 8. ed. Madrid, ES: Ediciones
Cátedra (Grupo Anaya S.A.), 2011. p. 1030.
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