Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Uma Semana com Neruda – (VII) Um Cão Morreu

Para encerrar este ciclo semanal de poesias de Neruda, postamos um poema no qual o poeta se mostra sentido pela morte de seu cão. Não um cão servil e incondicionalmente fiel, mas companheiro, feliz em sua má educação, como todos os cães. E, no caso, incrivelmente independente, como somente os gatos sabem-no ser.

Esta poesia encerra a mesma interação, diálogo, dialética com a natureza, que se constata nos poemas mais recentemente postados, do autor chileno. E aqui, não com o mundo vegetal ou mineral, senão com o elemento mais instintivo do reino animal. A saber, dos animais domesticados, que há milênios aprenderam a conviver com os seres humanos e passaram a responder de modo menos indócil aos seus comandos, a ponto de ficarmos reféns de sua companhia. Afinal, há animais que parecem mais humanos que os próprios humanos.

J.A.R. – H.C.

Pablo Neruda: 1904-1973
(Caricatura)

Un Perro Ha Muerto

Mi perro ha muerto

Lo enterré en el jardín
junto a una vieja máquina oxidada.

Allí, no más abajo,
ni más arriba,
se juntará conmigo alguna vez.
Ahora él ya se fue con su pelaje,
su mala educación, su nariz fría.
Y yo, materialista que no cree
en el celeste cielo prometido
para ningún humano,
para este perro o para todo perro
creo en el cielo, sí, creo en un cielo
donde yo no entraré, pero él me espera
ondulando su cola de abanico
para que yo al llegar tenga amistades.

Ay no diré la tristeza en la tierra
de no tenerlo más por compañero,
que para mí jamás fue un servidor.
Tuvo hacia mí la amistad de un erizo
que conservaba su soberanía,
la amistad de una estrella independienre
sin más intimidad que la precisa,
sin exageraciones:
no se trepaba sobre mi vestuario
llenándome de pelos o de sarna,
no se frotaba contra mi rodilla
como otros perros obsesos sexuales.
No, mi perro me miraba
dándome la atención que necesito,
la atención necesaria
para hacer comprender a un vanidoso
que siendo perro él,
con esos ojos, más puros que los míos,
perdía el tiempo, pero me miraba
con la mirada que me reservó
toda su dulce, su peluda vida,
su silenciosa vida,
cerca de mí, sin molestarme nunca,
y sin pedirme nada.

Ay cuántas veces quise tener cola
andando junto a él por las orillas
del mar, en el invierno de Isla Negra,
en la gran soledad: arriba el aire
traspasado de pájaros glaciales,
y mi perro brincando, hirsuto, lleno
de voltaje marino en movimiento:
mi perro vagabundo y olfatorio
enarbolando su cola dorada
frente a frente al Océano y su espuma.

Alegre, alegre, alegre
como los perros saben ser felices,
sin nada más, con el absolutismo
de la naturaleza descarada.

No hay adiós a mi perro que se ha muerto.
Y no hay ni hubo mentira entre nosotros.

Ya se fue y lo enterré, y eso era todo. 


Um Cão Morreu

Meu Cão Morreu

Enterrei-o no jardim
junto a uma velha máquina oxidada.

Ali, não mais embaixo,
nem mais em cima,
se juntará comigo alguma vez.
Agora ele já se foi com sua pelagem,
sua má educação, seu nariz frio.
E eu, materialista que não crê
no celeste céu prometido
para nenhum humano,
para este cão ou para todo cão
acredito no céu, sim, creio num céu
onde não entrarei, mas ele me espera
abanando sua cauda como um leque
para que eu ao chegar tenha amizades.

Ai, não direi a tristeza na terra
por não tê-lo mais como companheiro,
que para mim jamais foi um servidor.

Dirigiu-me a amizade de um ouriço
que conservava sua soberania,
a amizade de uma estrela independente
sem mais intimidade que a necessária,
sem exageros:
não subia sobre as minhas vestes
enchendo-me de pelos ou de sarna,
não se esfregava contra os meus joelhos
como outros cães obsessivamente sexuais.
Não, meu cão me olhava
dando-me a atenção de que necessito,
a atenção necessária
para fazer compreender a um vaidoso
que sendo ele um cão,
com esses olhos, mais puros que os meus,
perdia o tempo, porém me olhava
com o olhar que me reservou
toda sua doce, sua peluda vida,
sua vida silenciosa,
perto de mim, sem me incomodar jamais,
e sem me pedir nada.

Ai, quantas vezes eu quis ter cauda
andando junto a ele pelas margens
do mar, no inverno de Ilha Negra,
na grande solidão: acima o ar
traspassado de pássaros glaciais,
e meu cão brincando, hirsuto, repleto
de voltagem marinha em movimento:
meu cão vagabundo e olfatório
levantando sua cauda dourada
frente a frente ao Oceano e sua espuma.

Alegre, alegre, alegre
como os cães sabem ser felizes,
sem nada mais, com o absolutismo
da natureza descarada.

Não há adeus ao meu que se encontra morto.
E não há nem houve mentira entre nós.

Já se foi e o enterrei, e isso foi tudo.

Referência:

NERUDA, Pablo. Un perro há muerto. In: __________. Late and posthumous poems: 1968-1974. Jardín de invierno (1974). Edited and translated into english by Ben Belitt. Introduction by Manuel Duran. Bilingual Edition. New York, NY: Grove Press, 1988. p. 150 and 152.

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