Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 21 de março de 2026

Imtiaz Dharker - A Palavra Certa

A poetisa paquistano-escocesa explora a questão da subjetividade da linguagem e de como as palavras podem deformar, etiquetar ou humanizar uma determinada pessoa, a depender de quem as pronuncie: jogando com distintas perspectivas, a autora desmonta os discursos políticos e midiáticos que reduzem os indivíduos, em sua complexidade, a meras categorias carregadas de ideologia.

 

Essa mudança de perspectiva revela como os rótulos podem transformar nossa percepção e reação diante dos outros, tornando-os ora terroristas ora lutadores pela liberdade; ora militantes hostis ora animosos guerrilheiros; ora, em última instância, mártires.

 

Dharker, claro está, faz-nos um apelo à empatia e à compaixão, para que reconheçamos a nossa humanidade compartilhada, procurando transcender as divisões criadas pelas palavras, meros símbolos flexíveis que não dão conta integral do que se passa a cada instante, digo melhor, para que reflitamos sobre o impacto de nossas escolhas linguísticas e questionemos os estereótipos que, amiúde, perpetuamos sem dar-nos conta.

 

J.A.R. – H.C.

 

Imtiaz Dharker

(n. 1954)

 

The Right Word

 

Outside the door,

lurking in the shadows,

is a terrorist.

 

Is that the wrong description?

Outside that door,

taking shelter in the shadows,

is a freedom-fighter.

 

I haven’t got this right.

Outside, waiting in the shadows

is a hostile militant.

 

Are words no more

than waving, wavering flags?

Outside your door,

watchful in the shadows,

is a guerrilla warrior.

 

God help me.

Outside, defying every shadow,

stands a martyr.

I saw his face.

 

No words can help me now.

Just outside the door,

lost in shadows,

is a child who looks like mine.

 

One word for you.

Outside my door,

his hand too steady,

his eyes too hard,

is a boy who looks like your son, too.

 

I open the door.

Come in, I say.

Come in and eat with us.

 

The child steps in

and carefully, at my door,

takes off his shoes.

 

Criança com cão batendo à porta

(Andre-Henri Dargelas: pintor francês)

 

A Palavra Certa

 

Do lado de fora da porta,

à espreita nas sombras,

há um terrorista.

 

Estaria equivocada essa descrição?

Do lado de fora daquela porta,

abrigando-se nas sombras,

há um combatente da liberdade.

 

Julgo não haver entendido a contento.

Lá fora, à espera nas sombras,

há um militante hostil.

 

Seriam as palavras nada mais do que

pendões que tremulam hesitantes?

Do lado de fora da tua porta,

atento nas sombras,

há um animoso guerrilheiro.

 

Que Deus me ajude.

Lá fora, desafiando todas as sombras,

encontra-se um mártir.

Eu vi o seu rosto.

 

Nenhuma palavra pode ajudar-me agora.

Do lado de fora da porta,

perdida nas sombras,

há uma criança que se parece com a minha.

 

Tenho uma palavra a te dizer.

À minha porta,

com as mãos a denotar firmeza

e os olhos por demais austeros,

há um menino que também muito

se parece com o teu filho.

 

Abro-lhe a porta.

Entra, digo eu.

Entra e come conosco.

 

A criança entra e,

cuidadosamente, à minha porta,

tira os sapatos.

 

Referência:

 

DHARKER, Imtiaz. The right word. In: ESIRI, Allie (Ed.). A poem for every day of the year. Illustrated by Zanna Goldhawk. 1st publ. London, EN: Macmillan Children’s Books, 2017. p. 382-383.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Rubén Darío - Balada da linda menina do Brasil

Esclareça-se, de início, que a designada “linda menina do Brasil”, a que se dirige o poeta nicaraguense, era ninguém menos do que a filha do diplomata gaúcho – e também poeta – Fontoura Xavier (1856-1922): ela surge no poema como uma figura feminina idealizada, símbolo de pureza e de perfeição, de um país não menos idealizado – o Brasil –, uma terra de tesouros, onde reina o amor em meio à natureza exuberante.

 

Darío exalta, com a sua lírica de certo modo já inclinada aos padrões modernistas, a beleza, a juventude e o exotismo da “terra brasilis”, um “mágico Eldorado”, onde o tempo transcorre suavemente, “sobre diamantes e sob estrelas”, e se pode usufruir de uma intérmina felicidade. Um idílio, obviamente, que só se mantém nos escaninhos da Literatura! (rs)

 

J.A.R. – H.C.

 

Rubén Darío

(1867-1916)

 

Balada de la bella niña del Brasil

 

Existe un país encantado

donde las horas son tan bellas

que el tiempo va a paso callado

sobre diamantes, bajo estrellas.

Odas, cantares o querellas

se lanzan al aire sutil

en gloria de perpetuo Abril,

pues allí, la flor preferida

para mí es Anna Margarída,

la bella niña del Brasil.

 

Existe un mágico Eldorado

en donde Amor de rey está,

donde hay Tijuca y Corcovado

y donde canta el sabia.

El tesoro divino da

allí mil hechizos y mil

sueños; mas nada tan gentil

como la flor de alba encendida

que he visto en Anna Margarída,

la única bella del Brasil.

 

Dulce, dorada y primorosa,

infanta de lírico rey,

es una princesita rosa

que amara Kate-Greenaway. (*)

Buscará por la eterna ley

el pájaro azul de Tyltil,

sisero, oboe, arpa y añafil,

cuando Aurora a vivir convida,

adorable a Anna Margarida,

la niña bella del Brasil.

 

Envío

 

¡Princesa en flor, nada en la vida

hecho de oro, rosa y marfil,

iguala a esta joya querida:

la pequeña Anna Margarida,

la niña bella del Brasil!

 

París, 1911

 

En: “Canto a la Argentina y otros poemas” (1914)

 

Moça com livro

(Almeida Júnior: pintor brasileiro)

 

Balada da linda menina do Brasil

 

Existe um país encantado

no qual as horas são tão belas

que o tempo desliza calado

sobre diamantes, sob estrelas.

Odes, cantares ou querelas

derramam-se pelo ar sutil

em glória de perpétuo abril.

Pois ali a flor preferida

do canto é Ana Margarida,

linda menina do Brasil.

 

Existe um mágico Eldorado

(e Amor como seu rei lá está)

onde há a Tijuca e o Corcovado

e onde gorjeia o sabiá.

O tesouro divino dá

ali mil feitiços e mil

sonhos; mas nada tão gentil

como o broto de alva incendida

que se chama Ana Margarida,

linda menina do Brasil.

 

Doce, dourada e primorosa

infanta de lírico rei,

E uma princesa cor-de-rosa

que amara Kate Greenaway.

Buscará pela eterna lei

o pássaro azul de Tiltyl?

Eia, oboé, sistro, harpa, anafil:

que hoje aurora a viver convida

a essa rosa Ana Margarida,

linda menina do Brasil.

 

Oferta

 

Princesa em flor, nada na vida,

por mais gracioso ou senhoril,

iguala a esta joia querida:

a pequena Ana Margarida,

linda menina do Brasil.

 

Paris, 1911

 

Em: “Canto à Argentina e outros poemas” (1914)

 

Nota:

 

(*). Kate-Greenaway (1846-1901): ilustradora inglesa, bastante conhecida por seus trabalhos com figuras de crianças, direcionados ao público infantil.

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

DARÍO, Rúben. Balada de la bella niña del Brasil. In: __________. Poesía. Editado por Ernesto Mejía Sánchez, con prólogo de Ángel Rama. Caracas, VE: Fundación Biblioteca Ayacucho, 1977. p. 428-429. (Colección “Clásica”; n. 9)

 

Em Português

 

DARÍO, Rúben. Balada da linda menina do Brasil. Tradução de Manuel Bandeira. In: BANDEIRA, Manuel. Poemas traduzidos. 3. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956. p. 73-74. (Coleção “Rubáiyát”)

quinta-feira, 19 de março de 2026

Fiama Hasse Pais Brandão - Rosas [10]

A poetisa portuguesa empreende, neste poema, um sugestivo juízo metapoético comparativo entre o ato de tecer e o de escrever poesias, insinuando que a criação poética não se restringe meramente à técnica, senão que também demanda do poeta um fluxo emocional e intuitivo, tanto mais em razão de que a poesia não corresponde a algo estático, mercê de sua transformação através do tempo e do engenho fecundo das incontáveis vozes poéticas.

 

Enredado em seus propósitos de perfeição na arte a que se dedica, o poeta, contudo, pode incorrer num processo de desfazimento mais ou menos reiterado (ou deliberado) de seu “tecido” lírico, mormente quando desintegra as palavras numa busca contínua por apreender uma poesia que não se deixa sujeitar assim tão facilmente pela linguagem, tornando-se então – especulemos – uma espécie de Sísifo no embate para recompor o seu poema a cada vez que algo, nele, se desfaz.

 

J.A.R. – H.C.

 

Fiama H. P. Brandão

(1938-2007)

 

Rosas

 

10

 

Admiro a tecedora porque tem consentido

que a assemelhem à poesia.

Mesmo com os cílios a perturbar-lhe

o movimento dos fios e os dedos

tocados por uma estranha resignação,

ela tece os caudais líquidos

que escorrem na sensibilidade do poeta

desde que era criança. Aqueles

que não imaginaram na ceifeira de uhland

o cântico mais remoto da nova

ceifeira de fernando pessoa podem

agora começar a imaginá-lo. Mas eu admiro

sobretudo a injustiça para com

a tecedora, a de atribuir

aos seus dedos esfacelados

a incipiência do poema. Ela soube

ser responsável pela perdição

ou a desaparição dos homens nas palavras,

até estes voltarem a emergir

dessas palavras alteradas e inalteradas.

 

A poesia iludira-se ao pensar

que a alteração que atingira os objectos

deixara ser idêntico, até nova comparação,

o poeta. O próprio termo poesia

pudera orientar a sua sombra

no sentido de manter cintilante

a metáfora da tecedora, até terminar

e recomeçar a teia, com o ritmo

passando a tempos regulares

os fios obliquados pela luz.

Toda a crítica tem exaltado o poema

como uma produção da mecânica manual

oposta à idade do amor espontâneo,

os jorros do lirismo.

 

Eu abjuro da tecedora porque

muitas vezes tem correspondido

a quem lhe diz que a harpa produz

estopa. Se nem um tecido

é rigoroso com traços e sombreados

quando muito harmoniosos, nunca simétricos,

como o pode ser a soldagem

dos termos lexicais ligados

continuamente por espaços brancos.

Como evitar que o fim da página

se ligue ao cosmos materialmente

e, em vez de tornar-se um tecido

tranquilo, o poema se desagregue,

repetindo assim o movimento

de que nascera e fora contrariado

pela escrita. Ao chocalhar

todas as frases, os versos

caem uns dentro dos outros,

e o poeta vê-se perante a impotência

de os refazer sílaba a sílaba.

Só a tecedora tem o privilégio

de romper os fios pelo fogo.

 

In: “Área Branca” (1978)

 

Buquê de Rosas

(Pierre-Auguste Renoir: pintor francês)

 

Referência:

 

BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Rosas [10]. In: __________. Obra breve: poesia reunida. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2006. p. 289-291.